As comemorações dos cinqüenta anos da bossa nova renderam exposições, shows e um filme - OsDesafinados. Mas o gênero ainda guarda segredos
Em cartaz nos cinemas desde sexta-feira, Os Desafinados (Brasil, 2008) narra a trajetória de Joaquim (Rodrigo Santoro), Davi (Ângelo Paes Leme), Geraldo (Jair de Oliveira) e PC (André Moraes), músicos que em 1962, período de maior ebulição da bossa nova, vão para Nova York em busca de fama e fortuna. O filme deixa claro que o quarteto jamais conseguiu realizar esse sonho – e o personagem Joaquim é inspirado no pianista Tenório Jr., que, durante uma excursão por Buenos Aires, nos anos 70, saiu para comprar cigarros e desapareceu, seqüestrado por oficiais do Exército argentino. Os Desafinados faz parte do festival de comemorações em torno do cinqüentenário da bossa nova, que neste ano ganhou duas exposições em São Paulo, shows de João Donato, João Gilberto e da dupla formada por Caetano Veloso e Roberto Carlos (numa homenagem a Tom Jobim) e relançamentos em CD. Filme desigual, que alterna passagens enfadonhas com outras bem costuradas, ele tem o mérito de relembrar que a bossa nova não se limitou a João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes: houve diversos Joaquins, Davis, PCs e Geraldos, muitos merecedores de reconhecimento. Existem "desafinados" de dois tipos. Houve aqueles que influenciaram os nomes centrais da bossa nova, mas por motivos diversos ficaram de fora do panteão. Tito Madi, intérprete de canto suave, era um dos prediletos de João Gilberto e Roberto Carlos. O mesmo se pode dizer de Marisa Gata Mansa, ex-namorada de Gilberto e uma das primeiras a gravar suas composições. Em vez de adotar o rótulo "bossa nova", eles preferiram se definir como artistas de samba-canção. Madi ainda rompeu com João Gilberto, depois de receber uma violonada na cabeça, durante uma discussão. Sylvia Telles, por seu turno, foi a primeira cantora a gravar uma canção de Carlos Lyra – Menino, em 1955 – e a primeira a gravar uma parceria de Tom Jobim com Newton Mendonça (Foi a Noite, de 1956, tida como um dos marcos da bossa nova). Sylvia morreu num acidente de carro em 1966. Outros ficaram de fora por um capricho geográfico. Johnny Alf era reverenciado pelos músicos cariocas quando se apresentava na boate Plaza, em meados da década de 50. Canções como Rapaz de Bem anteciparam o que viria a ser a bossa nova – um estilo musical elegante, calcado no cool jazz americano, com vocais sussurrantes no lugar do estilo "estoura-peito" dos cantores de bolero e de samba-canção que apinhavam as rádios brasileiras. Anos depois, quando a bossa nova finalmente ganhou os holofotes, Alf morava e tocava em São Paulo – e desfrutou muito pouco a popularidade colossal alcançada pelo gênero. "É uma pena, porque suas harmonias são tão ricas quanto as de Tom Jobim", diz Amilton Godoy, pianista do Zimbo Trio, um dos principais grupos de samba-jazz (outra vertente da bossa). Outra categoria de "desafinado" é formada por bossa-novistas que lançaram discos significativos, mas que foram ofuscados pela tríade formada por Vinicius de Moraes, Tom Jobim e João Gilberto. Fazem parte dessa turma compositores do quilate de Carlos Lyra e Roberto Menescal e instrumentistas que ultrapassaram os limites da bossa nova – caso de João Donato e Marcos Valle. Lyra foi parceiro de Tom Jobim, de Vinicius de Moraes e de Ronaldo Bôscoli. Em 1961, passou a cobrar letras politicamente engajadas da turma da bossa nova e flertou com os sambistas dos morros cariocas. Passou ainda temporadas longe do país – primeiro no México, depois nos Estados Unidos – e hoje em dia goza de um prestígio infinitamente inferior ao seu talento. O pecado de Donato e Valle foi combinar a batida da bossa nova com outros gêneros musicais, como o funk. Essa ousadia lhes rendeu narizes torcidos entre os críticos da época e fez com que ficassem à margem do "cânone" (ainda que hoje sejam bastante reverenciados por DJs e produtores do exterior). A bossa nova foi uma das últimas revoluções da música brasileira. "Ela abriu as portas para a MPB atual", diz o pesquisador Jairo Severiano. É também um dos gêneros musicais mais copiados em todo o mundo: astros da música pop internacional tentaram, em vão, copiar sua batida, DJs cruzaram o violão e o batuque da bossa com ritmos eletrônicos (o popular drum’n’bossa) e surgiram projetos de gosto duvidoso, como versões bossa para sucessos dos Beatles, dos Rolling Stones e até dos Ramones. A bossa virou fórmula e ganhou um rótulo de "música para relaxar". Daí o interesse de redescobrir os "desafinados" para o grande público e ampliar a história do gênero para além do que já virou clichê.
Os esquecidos
Quem ficou de fora do panteão da bossa nova
Tito Madi O que fez: foi um dos primeiros artistas a interpretar samba-canção de maneira delicada, quando era o canto "estoura-peito" que predominava. Esse modo de cantar influenciou João Gilberto e Roberto Carlos Por que ficou para trás: por causa de problemas de relacionamento (João Gilberto quebrou um violão em sua cabeça) e porque se dedicou mais à carreira de cantor da noite do que de intérprete de bossa nova Johnny Alf O que fez: suas harmonias e improvisos jazzísticos ao piano atraíam fãs como Tom Jobim e João Gilberto. Para muitos críticos e artistas, foi o primeiro a burilar a linguagem da bossa nova, ainda no início dos anos 50 Por que ficou para trás: quando a bossa nova estourou, no Rio de Janeiro, ele já se havia mudado para São Paulo – e perdeu o bonde da história. De comportamento tímido, deixou passar várias oportunidades de mostrar seu trabalho no exterior Carlos Lyra O que fez: foi um dos articuladores da bossa nova, ao lado de Tom Jobim e João Gilberto. É um melodista de primeira linha, com um repertório que vai da valsa e do samba-canção a composições calcadas em música clássica Por que ficou para trás: rompeu com a turma da bossa nova em 1961 e pediu letras mais engajadas. Em 1966, partiu para um auto-exílio no México, que durou cinco anos
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Chris Martin: O Deus tímido do rock
Alguns o odeiam. Milhões o amam. O que o cantor inglês Chris Martin, líder do fenômeno Coldplay, pensa da crítica, da fama - e até do comércio entre as nações
Sérgio Martins, de San Jose
Na semana passada, o roqueiro inglês Chris Martin cumpriu mais uma etapa da turnê de lançamento do novo álbum de sua banda, o Coldplay. Ao fim da passagem de som para a apresentação no HP Pavillion, na cidade americana de San Jose, na Califórnia, Martin concedeu uma entrevista exclusiva a VEJA. Com o mesmo fardão militar estilizado que enverga nas apresentações, ele se sentou no chão e abraçou as pernas. Uma pose que resume bem o personagem: Martin, de 31 anos, é um tímido que pratica o vegetarianismo e se engaja em causas como a da organização Fairtrade, que defende benefícios aos países pobres no comércio mundial. O mesmo Martin é líder da maior banda de rock da atualidade. Os três primeiros discos do Coldplay venderam mais de 30 milhões de cópias. Viva la Vida or Death and All His Friends amplia esse número já vistoso. Lançado no início do mês, está em primeiro lugar nas paradas de 36 países. Só nos Estados Unidos foram 700 000 cópias comercializadas na semana de lançamento (no Brasil, as vendas de 34 000 unidades já representam um disco de ouro). Na apresentação em San Jose, poucas horas depois da entrevista, o Coldplay mostrou por que galvaniza uma massa de ouvintes que vai dos adolescentes aos quarentões. A banda executou com brilho as canções do novo CD (produzido por Brian Eno, o homem por trás de alguns dos maiores sucessos dos irlandeses do U2, Viva la Vida traz um Coldplay que flerta com ritmos indianos e africanos). E Martin mostrou seu carisma: durante uma hora e meia, hipnotizou 15 000 pessoas com seu gestual desengonçado, suas brincadeiras e seu jeito peculiar de socar as teclas de seus pianos. Ele ironizou ainda a legião de pessoas que odeiam sua banda. "Gostaria que todos os críticos que falam mal de nós estivessem aqui vendo vocês cantarem essa música comigo", discursou antes de interpretar o sucesso Yellow (que, recentemente, virou caso de polícia em Seattle, nos Estados Unidos: farta de ouvir a música, a freqüentadora de um karaokê partiu para cima de um incauto que a interpretava). Martin só perde o jeitão tranqüilo quando tem a intimidade de sua família invadida pelos paparazzi ¿ ele é casado com a atriz americana Gwyneth Paltrow, com quem tem os filhos Apple e Moses, de 4 e 2 anos. O cantor falou sobre o assunto na conversa com VEJA ¿ e anunciou que o Coldplay deverá se apresentar no Brasil em março de 2009.
Viva la Vida estreou em primeiro lugar em 36 países. O Coldplay é a maior banda de rock da atualidade?
Sim, somos os maiores do rock atual, mas num sentido bem limitado. Só porque o U2 e o Green Day não lançaram discos neste ano. É como vencer um torneio de golfe de que (o golfista americano) Tiger Woods não participou. Diria que estamos entre as dez melhores bandas. Mas você sabe que não ouço os discos do Coldplay? Eles me fazem ter pesadelos.
Por quê? São discos ruins?
Trabalho duro em cada disco que faço. Mas, quando os escuto, sempre penso que poderia ter feito melhor. No fundo, isso não é defeito, é a busca pela perfeição. Um dia prometo que vou escutar os discos do Coldplay. Quando estiver com 90 anos e não tiver nada melhor para fazer, quem sabe.
O Coldplay desperta reações extremas. Muitos os endeusam, outros os odeiam. Como encara isso?
Eu me assusto com o ódio. Sempre acreditei que formamos uma banda autêntica, pela química que há entre os integrantes. Somos quatro almas que se completam e temos um trabalho em que botamos fé. Não entendo a causa de tanta animosidade.
As críticas o ferem?
Procuro simplesmente não lê-las. Só presto atenção quando alguém me alerta sobre uma observação pertinente. Nas críticas aos shows da nova turnê, jornalistas apontaram alguns exageros no palco, o que nos levou a mudar nossa atuação. Agora, se as pessoas odeiam a banda por nada, paciência. Tem gente que precisa destilar seu ódio. Se me escolhem como saco de pancadas, que assim seja.
Você colabora com a organização Fairtrade, que prega a derrubada das barreiras comerciais entre países ricos e pobres. Como se envolve no projeto?
Já tive participação mais ativa. Deixei a Fairtrade de lado para me dedicar ao novo disco do Coldplay. Ou seja, hoje sou só um entusiasta silencioso da organização. Continuo acreditando que esse projeto pode reduzir a miséria em vários países, inclusive no Brasil.
Não é contraditório seu apoio ao democrata Barack Obama para a Presidência dos Estados Unidos? Ele defende políticas protecionistas para certos setores da economia americana, o que vai de encontro às teses da Fairtrade.
Apóio Obama porque sou inteligente. Na última frase de sua autobiografia, ele escreve: "Meu coração está cheio de amor pelo meu país". Isso soa nacionalista demais ¿ mas Obama está tentando ser eleito presidente de um país cujo nacionalismo é exacerbado. Ao ler o restante do livro, nota-se que ele tem uma visão de mundo mais aberta que a do republicano John McCain. Por mais que se diga protecionista, vai pensar nos outros países. Podem me acusar de ingenuidade, mas acredito que os políticos de hoje são melhores que os de ontem. E serão cada vez melhores.
Quando você descobriu que queria ser músico?
Sou da cidade de Devon, no sul da Inglaterra. Talvez o leite daquela região tenha algo especial, pois produziu outros artistas interessantes, como Joss Stone. Minha descoberta musical se deu na escola. Ela era bem tradicional em relação à música, no máximo abria espaço para corais e pequenas orquestras ¿ que têm seu valor, mas podem ser aborrecidos para um adolescente. Certo dia, um novo professor apareceu com vários teclados. Eles estavam um tanto gastos, mas ainda funcionavam. Foram uma revelação para mim. Comecei a cantar bem mais tarde. Estava na Tunísia com um amigo e havia um bar na cidade que promovia concursos de karaokê. O vencedor ganhava uma garrafa de uísque. Ganhei várias. E nem bebia na época.
Canções como Clocks denotam certa influência da música clássica. Você aprecia o gênero?
Como todo pianista, adoro ouvir Chopin. Mas ainda não consegui tocar nada dele, porque é rápido demais. Também gosto de Beethoven. Aliás, li recentemente que Because, dos Beatles, é a sonata Moonlight tocada ao contrário. Estou doido para checar se é verdade.
O assédio aos popstars pode ser brutal. O que você faz para se livrar dos fãs indesejados?
Não faço nada, pois raramente sou reconhecido nas ruas. Muitos que vêm falar comigo acham que sou James Blunt, que fez um sucesso enorme com a canção You're Beautiful.
Não dá para negar que você é perseguido pelos paparazzi...
Acho "perseguido" uma expressão forte demais. O máximo de chateação é não poder fazer compras com minha mulher (a atriz Gwyneth Paltrow), que também é famosa. Nem eu nem ela encorajamos esse tipo de assédio. Mas não é o fim do mundo. Se for o preço a pagar para dar uma vida confortável à minha família, tudo bem. Outras pessoas sofrem mais com isso.
Como suas colegas de profissão Britney Spears e Amy Winehouse?
Se existe uma pessoa cuja vida foi arruinada por essa gente é Britney. Eu me considero um sujeito de sorte porque pertenço a uma banda e sou homem (eles costumam perseguir mais as mulheres). Britney tem de lidar com esses pilantras diariamente. O caso de Amy também é triste. Jonny, nosso guitarrista, é vizinho dela e todos os dias depara com um batalhão de paparazzi. Amy é um anjo. Odeio saber que causam mal a ela.
Por que você costuma falar de si próprio com humor depreciativo?
Porque sou honesto. E também há um quê de Woody Allen nisso: ele é meu cineasta predileto e está sempre fazendo piadas sobre si mesmo. Muitas letras do Coldplay são inspiradas pelas visões de Woody sobre sexo, vida e amizade. Só uma piada do filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa já renderia um disco inteiro do Coldplay. Duas senhoras estão num restaurante e uma delas diz: "A comida aqui é horrível". A outra responde: "Horrível e vem em pequenas porções". Com isso, Woody quis dizer que a vida é dolorosa ¿ e também que passa rápido demais.
Você é inseguro?
Quando estou com a banda, nunca. Quando estou sozinho, eu me questiono continuamente. Para ser sincero, acho que a única pessoa no mundo que não é insegura é (o presidente americano) George W. Bush. Ele é tão maluco que não tem tempo para isso.
Sérgio Martins, de San Jose
Na semana passada, o roqueiro inglês Chris Martin cumpriu mais uma etapa da turnê de lançamento do novo álbum de sua banda, o Coldplay. Ao fim da passagem de som para a apresentação no HP Pavillion, na cidade americana de San Jose, na Califórnia, Martin concedeu uma entrevista exclusiva a VEJA. Com o mesmo fardão militar estilizado que enverga nas apresentações, ele se sentou no chão e abraçou as pernas. Uma pose que resume bem o personagem: Martin, de 31 anos, é um tímido que pratica o vegetarianismo e se engaja em causas como a da organização Fairtrade, que defende benefícios aos países pobres no comércio mundial. O mesmo Martin é líder da maior banda de rock da atualidade. Os três primeiros discos do Coldplay venderam mais de 30 milhões de cópias. Viva la Vida or Death and All His Friends amplia esse número já vistoso. Lançado no início do mês, está em primeiro lugar nas paradas de 36 países. Só nos Estados Unidos foram 700 000 cópias comercializadas na semana de lançamento (no Brasil, as vendas de 34 000 unidades já representam um disco de ouro). Na apresentação em San Jose, poucas horas depois da entrevista, o Coldplay mostrou por que galvaniza uma massa de ouvintes que vai dos adolescentes aos quarentões. A banda executou com brilho as canções do novo CD (produzido por Brian Eno, o homem por trás de alguns dos maiores sucessos dos irlandeses do U2, Viva la Vida traz um Coldplay que flerta com ritmos indianos e africanos). E Martin mostrou seu carisma: durante uma hora e meia, hipnotizou 15 000 pessoas com seu gestual desengonçado, suas brincadeiras e seu jeito peculiar de socar as teclas de seus pianos. Ele ironizou ainda a legião de pessoas que odeiam sua banda. "Gostaria que todos os críticos que falam mal de nós estivessem aqui vendo vocês cantarem essa música comigo", discursou antes de interpretar o sucesso Yellow (que, recentemente, virou caso de polícia em Seattle, nos Estados Unidos: farta de ouvir a música, a freqüentadora de um karaokê partiu para cima de um incauto que a interpretava). Martin só perde o jeitão tranqüilo quando tem a intimidade de sua família invadida pelos paparazzi ¿ ele é casado com a atriz americana Gwyneth Paltrow, com quem tem os filhos Apple e Moses, de 4 e 2 anos. O cantor falou sobre o assunto na conversa com VEJA ¿ e anunciou que o Coldplay deverá se apresentar no Brasil em março de 2009.
Viva la Vida estreou em primeiro lugar em 36 países. O Coldplay é a maior banda de rock da atualidade?
Sim, somos os maiores do rock atual, mas num sentido bem limitado. Só porque o U2 e o Green Day não lançaram discos neste ano. É como vencer um torneio de golfe de que (o golfista americano) Tiger Woods não participou. Diria que estamos entre as dez melhores bandas. Mas você sabe que não ouço os discos do Coldplay? Eles me fazem ter pesadelos.
Por quê? São discos ruins?
Trabalho duro em cada disco que faço. Mas, quando os escuto, sempre penso que poderia ter feito melhor. No fundo, isso não é defeito, é a busca pela perfeição. Um dia prometo que vou escutar os discos do Coldplay. Quando estiver com 90 anos e não tiver nada melhor para fazer, quem sabe.
O Coldplay desperta reações extremas. Muitos os endeusam, outros os odeiam. Como encara isso?
Eu me assusto com o ódio. Sempre acreditei que formamos uma banda autêntica, pela química que há entre os integrantes. Somos quatro almas que se completam e temos um trabalho em que botamos fé. Não entendo a causa de tanta animosidade.
As críticas o ferem?
Procuro simplesmente não lê-las. Só presto atenção quando alguém me alerta sobre uma observação pertinente. Nas críticas aos shows da nova turnê, jornalistas apontaram alguns exageros no palco, o que nos levou a mudar nossa atuação. Agora, se as pessoas odeiam a banda por nada, paciência. Tem gente que precisa destilar seu ódio. Se me escolhem como saco de pancadas, que assim seja.
Você colabora com a organização Fairtrade, que prega a derrubada das barreiras comerciais entre países ricos e pobres. Como se envolve no projeto?
Já tive participação mais ativa. Deixei a Fairtrade de lado para me dedicar ao novo disco do Coldplay. Ou seja, hoje sou só um entusiasta silencioso da organização. Continuo acreditando que esse projeto pode reduzir a miséria em vários países, inclusive no Brasil.
Não é contraditório seu apoio ao democrata Barack Obama para a Presidência dos Estados Unidos? Ele defende políticas protecionistas para certos setores da economia americana, o que vai de encontro às teses da Fairtrade.
Apóio Obama porque sou inteligente. Na última frase de sua autobiografia, ele escreve: "Meu coração está cheio de amor pelo meu país". Isso soa nacionalista demais ¿ mas Obama está tentando ser eleito presidente de um país cujo nacionalismo é exacerbado. Ao ler o restante do livro, nota-se que ele tem uma visão de mundo mais aberta que a do republicano John McCain. Por mais que se diga protecionista, vai pensar nos outros países. Podem me acusar de ingenuidade, mas acredito que os políticos de hoje são melhores que os de ontem. E serão cada vez melhores.
Quando você descobriu que queria ser músico?
Sou da cidade de Devon, no sul da Inglaterra. Talvez o leite daquela região tenha algo especial, pois produziu outros artistas interessantes, como Joss Stone. Minha descoberta musical se deu na escola. Ela era bem tradicional em relação à música, no máximo abria espaço para corais e pequenas orquestras ¿ que têm seu valor, mas podem ser aborrecidos para um adolescente. Certo dia, um novo professor apareceu com vários teclados. Eles estavam um tanto gastos, mas ainda funcionavam. Foram uma revelação para mim. Comecei a cantar bem mais tarde. Estava na Tunísia com um amigo e havia um bar na cidade que promovia concursos de karaokê. O vencedor ganhava uma garrafa de uísque. Ganhei várias. E nem bebia na época.
Canções como Clocks denotam certa influência da música clássica. Você aprecia o gênero?
Como todo pianista, adoro ouvir Chopin. Mas ainda não consegui tocar nada dele, porque é rápido demais. Também gosto de Beethoven. Aliás, li recentemente que Because, dos Beatles, é a sonata Moonlight tocada ao contrário. Estou doido para checar se é verdade.
O assédio aos popstars pode ser brutal. O que você faz para se livrar dos fãs indesejados?
Não faço nada, pois raramente sou reconhecido nas ruas. Muitos que vêm falar comigo acham que sou James Blunt, que fez um sucesso enorme com a canção You're Beautiful.
Não dá para negar que você é perseguido pelos paparazzi...
Acho "perseguido" uma expressão forte demais. O máximo de chateação é não poder fazer compras com minha mulher (a atriz Gwyneth Paltrow), que também é famosa. Nem eu nem ela encorajamos esse tipo de assédio. Mas não é o fim do mundo. Se for o preço a pagar para dar uma vida confortável à minha família, tudo bem. Outras pessoas sofrem mais com isso.
Como suas colegas de profissão Britney Spears e Amy Winehouse?
Se existe uma pessoa cuja vida foi arruinada por essa gente é Britney. Eu me considero um sujeito de sorte porque pertenço a uma banda e sou homem (eles costumam perseguir mais as mulheres). Britney tem de lidar com esses pilantras diariamente. O caso de Amy também é triste. Jonny, nosso guitarrista, é vizinho dela e todos os dias depara com um batalhão de paparazzi. Amy é um anjo. Odeio saber que causam mal a ela.
Por que você costuma falar de si próprio com humor depreciativo?
Porque sou honesto. E também há um quê de Woody Allen nisso: ele é meu cineasta predileto e está sempre fazendo piadas sobre si mesmo. Muitas letras do Coldplay são inspiradas pelas visões de Woody sobre sexo, vida e amizade. Só uma piada do filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa já renderia um disco inteiro do Coldplay. Duas senhoras estão num restaurante e uma delas diz: "A comida aqui é horrível". A outra responde: "Horrível e vem em pequenas porções". Com isso, Woody quis dizer que a vida é dolorosa ¿ e também que passa rápido demais.
Você é inseguro?
Quando estou com a banda, nunca. Quando estou sozinho, eu me questiono continuamente. Para ser sincero, acho que a única pessoa no mundo que não é insegura é (o presidente americano) George W. Bush. Ele é tão maluco que não tem tempo para isso.
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Doutora em MPB
No mês passado, a Berklee College of Music, uma das principais instituições culturais americanas, concedeu o título de "doutor" a algumas personalidades do meio musical. Entre os agraciados estavam o compositor canadense Howard Shore, Oscar de melhor trilha sonora de 2001 e 2003 pelos temas de O Senhor dos Anéis; Philip Bailey e Maurice White, integrantes do grupo Earth Wind & Fire; e a cantora baiana Rosa Passos. Rosa, que está lançando o disco Romance, é uma das raras intérpretes brasileiras que de fato fazem sucesso no exterior. "Meus discos são fonte de pesquisa dos estudantes e professores de Berklee", diz. O sucesso dessa artista de 56 anos não se resume ao campus. Ela coleciona elogios de astros do primeiro escalão, como o baixista de jazz Ron Carter e o violoncelista erudito Yo-Yo Ma ("Rosa tem a voz mais linda que ouvi", diz). O jornal The New York Times e a revista The New Yorker elogiam seus trabalhos, rotulando-a como "João Gilberto de saias". "Gosto do título, mas meu trabalho não se resume a cantar músicas de João." O sucesso de Rosa no exterior ainda não se refletiu no mercado brasileiro. Ela sempre lançou discos por selos pequenos. Além disso, trabalha na fronteira entre dois gêneros envelhecidos – a MPB clássica e o jazz. Mas é preciso prestar atenção quando alguém revisita o repertório tradicional com tanta personalidade, inteligência e força. Rosa não é uma daquelas cantoras que fazem música para estrangeiro ouvir nem uma artista que buscou pateticamente "o sucesso lá fora". Simplesmente, canta bem. Romance é um disco em que técnica e emoção convivem harmoniosamente. E, por mais que as canções tenham sido gravadas por outros autores, ela sempre dá um jeito de adaptá-las ao seu universo. É o que acontece com Atrás da Porta. Para muitos, a versão definitiva da canção de Francis Hime é aquela gravada em 1972 por Elis Regina, cujo canto desesperado foi imitado por outras intérpretes. Rosa a transforma numa outra canção. Sua Atrás da Porta é mais contida, porém não menos sofrida. "Eu torturo a banda, quebro a cabeça. Mas não aceito copiar uma fórmula." Rosa despontou em 1972, quando foi vencedora de um festival de música. Em 1979, lançou o primeiro disco. E então passou doze anos sem pisar no estúdio, cantando esporadicamente. Dedicou-se a criar os filhos em Brasília, para onde se mudou com o marido, Paulo Sérgio Passos, funcionário público de carreira que se tornou ministro dos Transportes nos meses finais do primeiro mandato do presidente Lula. "Meu marido é um sujeito honesto e trabalhador. Isso é o máximo que falo sobre política", diz a cantora. Rosa educou os filhos e sobreviveu à aridez de Brasília. Em 1993, gravou o CD Festa – que começou a espalhar seu nome pelo mundo. Romance está nas primeiras posições da parada de jazz dos Estados Unidos. Espera-se que essa cantora singular finalmente seja reconhecida no Brasil.
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Do jeito que o diabo gosta
Recentemente, o pastor Al Green, de 62 anos, pregava na igreja Full Gospel Tabernacle, em Memphis, Estados Unidos. Momentos depois de descer do púlpito, foi abordado por um casal de meia-idade, que afirmou que ele era o responsável por sua felicidade conjugal. Mas o sermão de Green, por melhor que seja – e é –, não tem nada a ver com aquilo. Na verdade, marido e mulher foram influenciados pelo alto teor de romantismo e sexualidade presentes em Let’s Stay Together, Love and Happiness e Tired of Being Alone, músicas que ele gravou na década de 70 e que lhe renderam o epíteto de “fazedor de bebês”. “Não sei como nunca conheci alguém chamado Let’s Stay Together da Silva”, diz Green. O cantor está lançando Lay it Down, seu quinto álbum de material secular depois de se dedicar por treze anos ao mercado gospel. É seu melhor lançamento desde então: Green trabalhou ao lado de astros como a cantora Corinne Bailey e o baterista Ahmir ?uestlove Thompson e compôs onze ritos de acasalamento, à altura de sua produção da década de 70. “Descobri que é isto o que o Senhor quer de mim”, confessa.
Na música negra norte-americana, existe uma tênue divisão entre religião e sexo. Os maiores artistas desse gênero surgiram em igrejas, cantando músicas para o senhor. Com o passar do tempo, eles descobriram que a mesma devoção utilizada para arrebanhar fiéis poderia ser também usada para conquistar fãs – principalmente do sexo feminino. O caso mais emblemático é o de Sam Cooke, ex-artista gospel que se tornou ícone da soul music. O pioneirismo de Cooke não se restringiu ao modo de cantar. Sua postura de palco, que variava do romântico ao libidinoso, também foi adotada pelos artistas de gerações posteriores – Marvin Gaye e Al Green são herdeiros do gestual do cantor. Mas existe um elemento trágico na história de cada artista que muda seu objeto de devoção. Cooke foi assassinado em 1963, num mal explicado caso de estupro. Gaye se arrependeu tanto de ter trocado Deus pelo sexo que se transformou num artista amargo e viciado em drogas e que morreu abatido a tiros pelo próprio pai, em 1984 – que era pastor mas adorava sair às ruas vestido de mulher. O lado anedótico fica por conta do roqueiro Little Richard. Extravagante ao extremo e homossexual não assumido, Richard virou pastor depois de sobreviver a um acidente de avião em 1957 (caso sobrevivesse, ele prometeu que abandonaria o showbiz). Richard quebrou a promessa cinco anos depois – e até agora passou incólume pela ira divina.
Nascido no estado americano de Arkansas, Green também começou a carreira como artista gospel. Aos nove anos de idade ele formou, ao lado dos seus irmãos, o conjunto vocal Green Brothers. Sete anos depois, o cantor descobriu o rhythm’n’blues. Green foi um dos artistas de música negra mais bem-sucedidos da década de 70. Os vocais em falsete e as letras eróticas são algumas das marcas registradas desse período. Mas em 1974, uma tragédia fez com que Green repensasse sua vida. A ex-namorada do cantor jogou um balde de minguau quente em suas costas e matou-se logo em seguida. Green evita falar do assunto nas entrevistas que concede à imprensa, porém não economizou detalhes na sua autobiografia, lançada há oito anos. “Eu passava as mãos nas minhas costas e arrancava pedaços da minha pele. Foi uma dor indescritível”, confessa. Para Green, o acidente foi um sinal divino. Ele comprou uma igreja na cidade de Memphis e aos poucos foi se afastando do mundo do entretenimento.
A volta aos palcos, segundo Green, também se deu por vontade divina. “O Senhor sabe que eu sempre cantei o amor. E seu eu posso falar do amor que sinto por Ele em minhas canções por que não haveria de cantar o amor entre um homem e uma mulher?”, diz. O fato de Thompson, baterista e produtor de Lay it Down, ser um artista ligado ao hip hop, não o incomodou. “Eu usei um método pouco religioso, mas eficaz”, brinca. “Usei meu relógio e o hipnotizei. Dizia: ‘você vai deixar aquela batida de hip hop de lado e fazer um disco igual aos meus trabalhos da década de 70...’ Funcionou!” Por mais que careça de boas letras – Nate Chinen, crítico do New York Times, observou que a palavra life (vida) sempre rima com wife (esposa) –, o disco é uma bela viagem à soul music da década de 70. Além disso, os duetos de Green com Corinne Bailey Rae (em Take Your Time) e Anthony Hamilton (em You’ve Got the Love I Need) são mostras de como Green foi uma influência presente na nova geração de artistas da música negra - que tenta, em vão, emular seus preciosos falsetes. “O disco irá unir novos casais e criar novos bebês, pode estar certo. Quem sabe daqui a alguns anos iremos conhecer um Lay it Down da Silva”...
Na música negra norte-americana, existe uma tênue divisão entre religião e sexo. Os maiores artistas desse gênero surgiram em igrejas, cantando músicas para o senhor. Com o passar do tempo, eles descobriram que a mesma devoção utilizada para arrebanhar fiéis poderia ser também usada para conquistar fãs – principalmente do sexo feminino. O caso mais emblemático é o de Sam Cooke, ex-artista gospel que se tornou ícone da soul music. O pioneirismo de Cooke não se restringiu ao modo de cantar. Sua postura de palco, que variava do romântico ao libidinoso, também foi adotada pelos artistas de gerações posteriores – Marvin Gaye e Al Green são herdeiros do gestual do cantor. Mas existe um elemento trágico na história de cada artista que muda seu objeto de devoção. Cooke foi assassinado em 1963, num mal explicado caso de estupro. Gaye se arrependeu tanto de ter trocado Deus pelo sexo que se transformou num artista amargo e viciado em drogas e que morreu abatido a tiros pelo próprio pai, em 1984 – que era pastor mas adorava sair às ruas vestido de mulher. O lado anedótico fica por conta do roqueiro Little Richard. Extravagante ao extremo e homossexual não assumido, Richard virou pastor depois de sobreviver a um acidente de avião em 1957 (caso sobrevivesse, ele prometeu que abandonaria o showbiz). Richard quebrou a promessa cinco anos depois – e até agora passou incólume pela ira divina.
Nascido no estado americano de Arkansas, Green também começou a carreira como artista gospel. Aos nove anos de idade ele formou, ao lado dos seus irmãos, o conjunto vocal Green Brothers. Sete anos depois, o cantor descobriu o rhythm’n’blues. Green foi um dos artistas de música negra mais bem-sucedidos da década de 70. Os vocais em falsete e as letras eróticas são algumas das marcas registradas desse período. Mas em 1974, uma tragédia fez com que Green repensasse sua vida. A ex-namorada do cantor jogou um balde de minguau quente em suas costas e matou-se logo em seguida. Green evita falar do assunto nas entrevistas que concede à imprensa, porém não economizou detalhes na sua autobiografia, lançada há oito anos. “Eu passava as mãos nas minhas costas e arrancava pedaços da minha pele. Foi uma dor indescritível”, confessa. Para Green, o acidente foi um sinal divino. Ele comprou uma igreja na cidade de Memphis e aos poucos foi se afastando do mundo do entretenimento.
A volta aos palcos, segundo Green, também se deu por vontade divina. “O Senhor sabe que eu sempre cantei o amor. E seu eu posso falar do amor que sinto por Ele em minhas canções por que não haveria de cantar o amor entre um homem e uma mulher?”, diz. O fato de Thompson, baterista e produtor de Lay it Down, ser um artista ligado ao hip hop, não o incomodou. “Eu usei um método pouco religioso, mas eficaz”, brinca. “Usei meu relógio e o hipnotizei. Dizia: ‘você vai deixar aquela batida de hip hop de lado e fazer um disco igual aos meus trabalhos da década de 70...’ Funcionou!” Por mais que careça de boas letras – Nate Chinen, crítico do New York Times, observou que a palavra life (vida) sempre rima com wife (esposa) –, o disco é uma bela viagem à soul music da década de 70. Além disso, os duetos de Green com Corinne Bailey Rae (em Take Your Time) e Anthony Hamilton (em You’ve Got the Love I Need) são mostras de como Green foi uma influência presente na nova geração de artistas da música negra - que tenta, em vão, emular seus preciosos falsetes. “O disco irá unir novos casais e criar novos bebês, pode estar certo. Quem sabe daqui a alguns anos iremos conhecer um Lay it Down da Silva”...
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Um gosto a adquirir
A música de Anton Bruckner (1824-1896) é um gosto que se adquire com algum esforço. Compositor do período romântico, ele não surge nas salas de concerto com a mesma freqüência que o alemão Brahms ou o russo Tchaikovsky – para ficar em dois de seus contemporâneos. São raras as orquestras que programam suas sinfonias e mais raros ainda os grupos sinfônicos que excursionam com um repertório baseado nele. Aqueles que se convertem à sua obra, contudo, expressam devoção. "Virei maestro para poder reger Bruckner", diz Daniel Barenboim. À frente da Staatskapelle Berlin, o regente argentino comandará um evento inédito no cenário erudito brasileiro (e raro, como se disse, em qualquer outro lugar): uma "semana Bruckner". De 25 a 27 de maio, a orquestra alemã vai executar a Sétima, a Oitava e a Nona sinfonias do compositor austríaco (as récitas trarão ainda trechos de duas óperas de Wagner e duas obras de Schoenberg). Coube à Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) cuidar do prato de entrada: de quinta a sábado, ela vai apresentar a Sétima Sinfonia (no domingo, toca a mesma peça no Rio de Janeiro). "Será um banquete", afirma Barenboim.
As sinfonias de Bruckner são longas, densas, lineares – o que por vezes torna extenuante a sua audição. Tome-se o caso da Nona Sinfonia. Seus três movimentos (o autor morreu antes de completar o quarto e derradeiro movimento) duram mais de uma hora. "Todos devem ter o direito de ir e vir durante a execução de uma obra de Bruckner", ironizou certa vez o crítico americano Alan Rich, concedendo um habeas corpus ao ouvinte. Em compensação, quem dá tempo a essa música cheia de camadas e detalhes alcança uma experiência ímpar. "Nas mãos de um bom regente, as sinfonias são belas e repletas de religiosidade, como uma catedral gótica", diz o crítico inglês Norman Lebrecht. De fato, poucos momentos na música são tão solenes e belos como o adágio da Sétima Sinfonia (dedicada a Richard Wagner, grande ídolo de Bruckner, e infelizmente utilizada pelos nazistas para anunciar a morte de Hitler) ou as trompas do primeiro movimento da Oitava Sinfonia.
Para as orquestras, o desafio de tocar Bruckner não está em complicações rítmicas nem em passagens rápidas. Está na altíssima exigência de entrosamento e maturidade. Os naipes têm de possuir um pensamento único em relação às dinâmicas, expressões e cores. "Uma apresentação imperfeita cria caos no palco e na platéia", diz o oboísta e maestro Alex Klein, que cansou de tocar Bruckner na Sinfônica de Chicago sob o comando de Barenboim. Esse, por seu turno, aponta outro tipo de dificuldade na execução das obras do austríaco. "Ele é um artista intrigante. A Quinta e a Oitava sinfonias, por exemplo, possuem harmonias típicas do século XIX, uma estrutura do período barroco e uma atmosfera de música medieval", afirma.
Por muitas décadas, Bruckner foi uma espécie de segredo dos austríacos e alemães. Só começou a ser assimilado pelas platéias do resto do mundo durante a II Guerra. Nesse período, regentes como Bruno Walter e Otto Klemperer fugiram do nazismo e levaram o repertório do compositor na bagagem. Barenboim pertence ao quadro dos brucknerianos de alta patente, que não são muitos. Por duas vezes, ele gravou as nove sinfonias do autor. A primeira foi entre as décadas de 70 e 80, com a Sinfônica de Chicago. A segunda, nos anos 90, com a Filarmônica de Berlim. Mas a Staatskapelle Berlin, diz Barenboim, propicia uma nova visão do trabalho do austríaco. "Como eles estão acostumados a tocar ópera, ressaltam de maneira incomum similaridades e pontos de contato com a música de Wagner", explica. "Em certas passagens da Nona Sinfonia, eu me sinto como se estivesse em Bayreuth, o grande centro do wagnerismo, regendo Parsifal." O ouvinte, tomara, estará no paraíso.
As sinfonias de Bruckner são longas, densas, lineares – o que por vezes torna extenuante a sua audição. Tome-se o caso da Nona Sinfonia. Seus três movimentos (o autor morreu antes de completar o quarto e derradeiro movimento) duram mais de uma hora. "Todos devem ter o direito de ir e vir durante a execução de uma obra de Bruckner", ironizou certa vez o crítico americano Alan Rich, concedendo um habeas corpus ao ouvinte. Em compensação, quem dá tempo a essa música cheia de camadas e detalhes alcança uma experiência ímpar. "Nas mãos de um bom regente, as sinfonias são belas e repletas de religiosidade, como uma catedral gótica", diz o crítico inglês Norman Lebrecht. De fato, poucos momentos na música são tão solenes e belos como o adágio da Sétima Sinfonia (dedicada a Richard Wagner, grande ídolo de Bruckner, e infelizmente utilizada pelos nazistas para anunciar a morte de Hitler) ou as trompas do primeiro movimento da Oitava Sinfonia.
Para as orquestras, o desafio de tocar Bruckner não está em complicações rítmicas nem em passagens rápidas. Está na altíssima exigência de entrosamento e maturidade. Os naipes têm de possuir um pensamento único em relação às dinâmicas, expressões e cores. "Uma apresentação imperfeita cria caos no palco e na platéia", diz o oboísta e maestro Alex Klein, que cansou de tocar Bruckner na Sinfônica de Chicago sob o comando de Barenboim. Esse, por seu turno, aponta outro tipo de dificuldade na execução das obras do austríaco. "Ele é um artista intrigante. A Quinta e a Oitava sinfonias, por exemplo, possuem harmonias típicas do século XIX, uma estrutura do período barroco e uma atmosfera de música medieval", afirma.
Por muitas décadas, Bruckner foi uma espécie de segredo dos austríacos e alemães. Só começou a ser assimilado pelas platéias do resto do mundo durante a II Guerra. Nesse período, regentes como Bruno Walter e Otto Klemperer fugiram do nazismo e levaram o repertório do compositor na bagagem. Barenboim pertence ao quadro dos brucknerianos de alta patente, que não são muitos. Por duas vezes, ele gravou as nove sinfonias do autor. A primeira foi entre as décadas de 70 e 80, com a Sinfônica de Chicago. A segunda, nos anos 90, com a Filarmônica de Berlim. Mas a Staatskapelle Berlin, diz Barenboim, propicia uma nova visão do trabalho do austríaco. "Como eles estão acostumados a tocar ópera, ressaltam de maneira incomum similaridades e pontos de contato com a música de Wagner", explica. "Em certas passagens da Nona Sinfonia, eu me sinto como se estivesse em Bayreuth, o grande centro do wagnerismo, regendo Parsifal." O ouvinte, tomara, estará no paraíso.
Glad to Be gay
Confesso que não achei lá essas coisas a apresentação do cantor e compositor canadense Rufus Wainwright em São Paulo. Shows de voz e piano exigem um exímio instrumentista e um cantor acima da média - Wainwright não é uma coisa nem outra. Sim, é muito engraçado, faz piadas o tempo todo, o que nos faz lembrar os entertainers do showbiz americano. Mas depois de meia-hora, esse excesso de piadas dá sinais de cansaço. A entrevista, porém, foi uma das mais engraçadas eu que já fiz. Ei-la:
Veja – A cantora canadense Diana Krall declarou recentemente que o senhor é um dos últimos bastiões da música popular americana. O que o senhor acha dessa responsabilidade?
Em primeiro lugar, Diana Krall é uma fofa. Amei o que ela disse. Creio que a minha missão é recuperar a qualidade da música americana, que nas últimas décadas andava muito estagnada. Sou um compositor moderno, mas as minhas inspirações datam do final do século passando, quando artistas como Cole Porter e Irving Berlin davam as cartas no cenário musical.
Veja – No final do ano passado, o senhor lançou um disco em que recriou uma apresentação da cantora Judy Garland de 1956. O álbum faz parte dessa tentativa de recuperar a música americana?
Sempre fui fã de Judy Garland. Nos meus melhores dias, sonhava em ser a Dorothy de O Mágico de Oz. Nos piores, queria mesmo ser a Bruxa Má do Oeste. O que me encanta naquele disco, além do repertório é que Judy estava completamente drogada quando gravou o disco – ou seja, é um milagre que tenha saído tão bom.
Veja – Na época houve boatos que Liza Minelli, filha de Judy, participaria da apresentação – o que acabou não acontecendo? Por que ela desistiu?
Liza Minelli é bastante sensível a tudo que envolve a mãe. Mesmo porque existia uma competição entre elas. Liza soube do projeto, ficou horrorizada e evitou qualquer contato comigo. O que foi ótimo, sabia? Vai que ela topasse participar, desse um piti e saísse no meio da apresentação...
Veja – Em suas apresentações, o senhor costuma encarnar como poucos a figura do entertainer – canta, toca, dança, conversa com o público. Concorda que é uma arte que anda em falta no cenário pop?
Sim, claro. Mas veja bem, meu querido, venho de uma família de músicos. Minhas refeições, roupas, meu estilo de vida, dependiam do que eles conseguiam trazer para casa. Posso afirmar que as apresentações deles valiam cada centavo gasto pelo público. As minhas também, apesar de cometer alguns erros de vez em quando. Mesmo assim, o público me adora. Talvez o erro me torne mais humano...
Veja – O senhor preparou algo especial para as suas apresentações no Brasil?
Desde que eu disse “sim” para o Brasil, tenho feito um curso sobre o país. Conversei com Bebel Gilberto e Paula Lavigne, duas grandes amigas minhas, e tenho estudado música brasileira. Mas nada irá se comparar com a emoção de ver os brasileiros ao vivo e em cores. Vocês são tão bonitos, tão gentis... tão perigosos!
Veja – Tudo bem, mas o senhor poderia dizer algo sobre o repertório?
Vou tocar piano e serei acompanhado pela minha irmã, a cantora e compositora Martha Wainwright, e minha mãe, a cantora Kate McGarrigle. O repertório será baseado nos meus discos, releituras, e algumas coisas do meu próximo CD, que será gravado na base de piano e voz. Seria algo como Rufus Wainwright nu e cru. Pensando bem, acho que irei tocar sem roupa!
Veja – O senhor já declarou que sente inveja do talento de sua irmã, Martha Wainwright. Por que então está trazendo ela ao Brasil?
Porque ela é muito talentosa! Dentro de mim, existe um ser mesquinho e egomaníaco, que tem inveja do que ela escreve, do talento dela como cantora... Por outro lado, dentro de mim existe um ser generoso que torce pela irmã. Foi minha personalidade boazinha que a convidou.
Veja – Como anda o seu projeto de escrever uma ópera?
Está a todo vapor. Ela irá se chamar Prima Donna e irá contar um dia na vida de uma diva do canto. Mas não, querido, eu não irei interpretar a prima dona. Penso em cantoras mais experientes, como a finlandesa Karita Matilla e a americana Deborah Voight. Estou cuidando de tudo – da partitura ao libreto.
Veja – O senhor está mostrando uma empolgação incomum com o povo brasileiro. Por acaso irá trazer o seu namorado?
Ele não virá. Graças a Deus! Mas que maldade, eu sou um menino bonzinho e apaixonado. E prometi me comportar.
Veja – A cantora canadense Diana Krall declarou recentemente que o senhor é um dos últimos bastiões da música popular americana. O que o senhor acha dessa responsabilidade?
Em primeiro lugar, Diana Krall é uma fofa. Amei o que ela disse. Creio que a minha missão é recuperar a qualidade da música americana, que nas últimas décadas andava muito estagnada. Sou um compositor moderno, mas as minhas inspirações datam do final do século passando, quando artistas como Cole Porter e Irving Berlin davam as cartas no cenário musical.
Veja – No final do ano passado, o senhor lançou um disco em que recriou uma apresentação da cantora Judy Garland de 1956. O álbum faz parte dessa tentativa de recuperar a música americana?
Sempre fui fã de Judy Garland. Nos meus melhores dias, sonhava em ser a Dorothy de O Mágico de Oz. Nos piores, queria mesmo ser a Bruxa Má do Oeste. O que me encanta naquele disco, além do repertório é que Judy estava completamente drogada quando gravou o disco – ou seja, é um milagre que tenha saído tão bom.
Veja – Na época houve boatos que Liza Minelli, filha de Judy, participaria da apresentação – o que acabou não acontecendo? Por que ela desistiu?
Liza Minelli é bastante sensível a tudo que envolve a mãe. Mesmo porque existia uma competição entre elas. Liza soube do projeto, ficou horrorizada e evitou qualquer contato comigo. O que foi ótimo, sabia? Vai que ela topasse participar, desse um piti e saísse no meio da apresentação...
Veja – Em suas apresentações, o senhor costuma encarnar como poucos a figura do entertainer – canta, toca, dança, conversa com o público. Concorda que é uma arte que anda em falta no cenário pop?
Sim, claro. Mas veja bem, meu querido, venho de uma família de músicos. Minhas refeições, roupas, meu estilo de vida, dependiam do que eles conseguiam trazer para casa. Posso afirmar que as apresentações deles valiam cada centavo gasto pelo público. As minhas também, apesar de cometer alguns erros de vez em quando. Mesmo assim, o público me adora. Talvez o erro me torne mais humano...
Veja – O senhor preparou algo especial para as suas apresentações no Brasil?
Desde que eu disse “sim” para o Brasil, tenho feito um curso sobre o país. Conversei com Bebel Gilberto e Paula Lavigne, duas grandes amigas minhas, e tenho estudado música brasileira. Mas nada irá se comparar com a emoção de ver os brasileiros ao vivo e em cores. Vocês são tão bonitos, tão gentis... tão perigosos!
Veja – Tudo bem, mas o senhor poderia dizer algo sobre o repertório?
Vou tocar piano e serei acompanhado pela minha irmã, a cantora e compositora Martha Wainwright, e minha mãe, a cantora Kate McGarrigle. O repertório será baseado nos meus discos, releituras, e algumas coisas do meu próximo CD, que será gravado na base de piano e voz. Seria algo como Rufus Wainwright nu e cru. Pensando bem, acho que irei tocar sem roupa!
Veja – O senhor já declarou que sente inveja do talento de sua irmã, Martha Wainwright. Por que então está trazendo ela ao Brasil?
Porque ela é muito talentosa! Dentro de mim, existe um ser mesquinho e egomaníaco, que tem inveja do que ela escreve, do talento dela como cantora... Por outro lado, dentro de mim existe um ser generoso que torce pela irmã. Foi minha personalidade boazinha que a convidou.
Veja – Como anda o seu projeto de escrever uma ópera?
Está a todo vapor. Ela irá se chamar Prima Donna e irá contar um dia na vida de uma diva do canto. Mas não, querido, eu não irei interpretar a prima dona. Penso em cantoras mais experientes, como a finlandesa Karita Matilla e a americana Deborah Voight. Estou cuidando de tudo – da partitura ao libreto.
Veja – O senhor está mostrando uma empolgação incomum com o povo brasileiro. Por acaso irá trazer o seu namorado?
Ele não virá. Graças a Deus! Mas que maldade, eu sou um menino bonzinho e apaixonado. E prometi me comportar.
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