Em meados da década de 90, quando o Guns N’ Roses se desmilingüiu, o vocalista Axl Rose herdou o nome do grupo e a aura de ser o maior responsável por seu sucesso estrondoso, traduzido em vendas de 90 milhões de discos. Dali em diante, ele nutriu os fãs com a promessa de que seu próximo trabalho seria histórico. Passaram-se catorze anos e, agora, a espera acabou. Chinese Democracy, o novo disco do Guns N’ Roses, chega às lojas no dia 25. "Você já imaginou alguém dizendo para Michelangelo correr com a Capela Sistina? Não se apressa uma obra de arte", disse o empresário Andy Gould para justificar a demora (desde já, uma das frases mais estúpidas da história do rock). O veredicto? Chinese Democracy, de fato, garante um lugar na história para Axl Rose – mas apenas como um megalomaníaco que gastou 15 milhões de dólares, um valor recorde, num disco ruim, muito ruim. Melhor seria ter mantido o silêncio e o mistério. Há um punhado de histórias ruins sobre Axl Rose, hoje com 46 anos. Nos primórdios do Guns N’ Roses, ele nocauteou com uma garrafa de vinho uma vizinha que ousou reclamar do som alto. Mais tarde, foi acusado de bater em namoradas e estuprar uma fã. Uma de suas canções, One in a Million, destila preconceito contra negros, imigrantes e homossexuais. Axl disse certa vez que na infância sofreu abuso sexual do pai e do padrasto. Viriam daí a sua raiva mal contida, o abuso de bebida e drogas e a sua misantropia, que redundou no desejo de isolar-se. Desde 1996, quando sua mãe morreu de câncer, ele raramente é visto fora de sua mansão em Malibu, na Califórnia. Se vai fazer algo para divulgar o novo disco, ninguém sabe. Em sua fase áurea, o Guns N’ Roses tinha o guitarrista Slash, co-autor de sucessos como Welcome to the Jungle e Sweet Child O’ Mine, o baixista Duff McKagan e o baterista Matt Sorum. Axl brigou com todos, e mostrou-lhes o cartão vermelho. Começou então a saga para encontrar substitutos. Cada novo instrumentista que se apresentava era submetido a um "teste psicológico" ministrado pelo guru do vocalista. É sugestivo que um dos músicos de Chinese Democracy seja o guitarrista Buckethead, que sobe ao palco com um balde da rede de fast-food Kentucky Fried Chicken enfiado na cabeça e uma máscara de Jason, o maníaco da série cinematográfica Sexta-Feira 13. No total, cinco produtores desistiram de trabalhar no disco após terem sido submetidos aos métodos insanos de gravação de Axl. Como exemplo, ele gastou 300 000 dólares para ajustar o som de um único instrumento – o bumbo da bateria. Em Chinese Democracy, o hard rock do Guns N’ Roses original cedeu lugar a uma mistura de rock pesado e música eletrônica. Faixas como Catcher N’ the Rye, uma balada, talvez até toquem nas rádios, mas serão esquecidas em bem menos que catorze anos. Axl diz que o novo álbum é o primeiro de uma trilogia. A depender de sua presteza, os dois outros discos poderão ser a trilha sonora da próxima era glacial.
Até que enfim
As gravações mais sofridas da história da música pop
Álbum – Chinese Democracy
Artista – Guns N’ Roses
Quanto tempo demorou – Catorze anos (de 1994 a 2008)
Razão do atraso – A maluquice disfarçada de perfeccionista do cantor Axl Rose
Álbum – Third
Artista – Portishead
Quanto tempo demorou – Dez anos (de 1998 a 2008)
Razão do atraso – Geoff Barrow, o líder do grupo, se desiludiu com a musica e mudou-se para a Austrália
Álbum – Smile
Artista – Brian Wilson
Quanto tempo demorou – 37 anos (de 1967 a 2004)
Razão do atraso – Wilson entrou em depressão
Álbum – St. Anger
Artista – Metallica
Quanto tempo demorou – Dois anos (de 2001 a 2003)
Razão do atraso – As brigas do grupo e os problemas do cantor James Hetfield com o álcool
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Boas de jazz, mas discriminadas
A cantora e compositora americana Esperanza Spalding foi um dos destaques de um festival de jazz e pop realizado no fim de outubro em São Paulo e no Rio de Janeiro. Esperanza interpretou canções de sua autoria e fez uma releitura de Ponta de Areia, de Milton Nascimento e Fernando Brant; alternou-se entre o baixo elétrico e o acústico e se esmerou no scat, aquele improviso vocal celebrizado por Ella Fitzgerald. Mas um detalhe chamou tanta atenção quanto seu incontestável talento: a jazzista comandou uma banda de quatro instrumentistas, todos homens. No mundo do jazz, isso ainda é raridade. "Há músicos que pensam duas vezes antes de admitir que sou uma boa baixista. Convencê-los das minhas qualidades como líder de banda é ainda mais complicado", disse Esperanza a VEJA. Vanguarda musical por definição, os jazzistas são um bocado antiquados no que toca à presença feminina em seu meio. Cantoras sempre foram bem-vindas, e cantoras-pianistas também são toleradas, em especial quando fazem o gênero sexy – regra bem ilustrada pelo sucesso da canadense Diana Krall, que até a semana passada vinha se apresentando no Brasil. Mas a mulher que se arrisca a trabalhar como instrumentista corre o risco de ser rechaçada. O argumento mais comum – e tacanho – é que as moças não têm a mesma "pegada". A tese cai por terra quando se revê a história. Nos anos 30, já havia bandas de sopro femininas que tocavam com a mesma assiduidade e força que as masculinas. As mulheres também contribuíram para a evolução do gênero. Tome-se como exemplo a compositora e arranjadora Mary Lou Williams (1910-1981), autora de clássicos do repertório das orquestras de Benny Goodman e Tommy Dorsey, entre outros mestres do suingue. Aliás, hoje em dia, as mulheres são as grandes inovadoras do jazz. Entre elas, a regente e compositora Maria Schneider, que recentemente musicou os poemas de Carlos Drummond de Andrade; a trompetista Ingrid Jensen, que mistura jazz e música eletrônica; e a própria Esperanza, que combina soul music e MPB. Mas os comentários que elas ouvem continuam velhíssimos. Quando têm um bom desempenho, seus colegas dizem que até que tocaram bem para uma mulher. Já numa noite ruim, o veredicto é que, claro, tinha de ser uma mulher a estragar a apresentação. Muitas jazzistas driblam esse machismo falando grosso e desafiando os companheiros de banda. Diana Krall é conhecida pela ferocidade com que cobra empenho dos seus músicos. No ano passado, num festival de jazz em Ouro Preto, Ingrid deu um nó em um naipe de trompetistas. "Ela estava ali como convidada. Ainda assim, ficou nos sabatinando para ver se estávamos no mesmo nível dela", diz o trompetista Junior Galante. Outras, como Maria, recorrem ao estilo maternal, persuadindo seus músicos com fala mansa e termos suaves – e arranjos intrincados. A desvantagem é que a moça banca a mãe deles também fora dos ensaios. "Tenho de lembrá-los das coisas mais banais, como levar o passaporte em uma viagem internacional", diz ela. Esperanza alterna estilos conforme a ocasião. Como líder, faz a linha durona e trabalha o dobro do que qualquer um de seus músicos. No palco, a atitude de general da banda dá lugar à de menina sorridente, sensual e companheira dos músicos. "Meu desejo é que as pessoas reconheçam meu trabalho, independentemente de eu ser mulher", diz. Pelo que mostrou na turnê brasileira, ela está longe de ficar só na vontade.
A longa vida do tango
Em 1931, Aníbal Arias tinha 9 anos e estudava violão erudito quando pregou uma peça em seu professor: trocou as escalas de um concerto de Beethoven por um tango que escutara a caminho da escola. "Toque outra nota dessa canção degenerada e eu nunca mais darei aulas a você", rosnou o mestre. O tango, então, acabara de passar por uma de suas primeiras mutações. As letras pornográficas, que limitavam sua execução às casas de má fama de Buenos Aires, haviam dado lugar a letras sobre desilusões amorosas. Mas os músicos ainda não se convenciam de sua qualidade. A ironia é que, hoje, poucos gêneros são tão representativos do espírito de um país quanto o tango o é da Argentina. Sua influência está presente na literatura (o ritmo já foi abordado por escritores como Jorge Luis Borges e Tomás Eloy Martínez) e na maneira como os platinos encaram a vida. "O tango é a cultura da vítima e a única ocasião em que nós, argentinos, somos intensos", disse o escritor Alan Pauls. O tango nunca morreu, mas ganhou um novo fôlego com o lançamento, em 2005, de Café de los Maestros, disco duplo em que os produtores Gustavo Santaolalla e Gustavo Mozzi levaram de volta ao estúdio de gravação artistas dos anos 30, 40 e 50. Do disco passou-se a um livro e agora também a um documentário, que foi visto por mais de 50 000 pessoas em Buenos Aires e deve estrear no Brasil ainda neste ano. Os planos incluem ainda uma turnê. "É a prova de que o tango é a música clássica da Argentina", diz Arias, que, a despeito das carraspanas do professor, se tornou músico e arranjador de orquestras – de tango, claro. As origens do tango são nebulosas. Ele teria surgido no fim do século XIX da mistura de gêneros como candombe, habanera e milonga. O nome "tango" seria uma corruptela de "tambo", ou "batuque". O tom melancólico (não existe tango alegre) teria sido uma colaboração dos imigrantes italianos, saudosos de sua terra natal. De início, o novo estilo não escapava dos cabarés, onde era dançado por homens. A partir dos anos 20, porém, quando Carlos Gardel popularizou o tango-canção, ele sofreu seguidas revoluções. Na década de 40, os intérpretes passaram a cantar acompanhados por uma orquestra (e muitas delas dispensaram a figura do cantor); nos anos 60, Astor Piazzolla o levou para as salas de concerto. O gênero passou por um período de baixa na década de 70, quando foi associado ao regime militar (Piazzolla teve o desplante de jantar com o general Jorge Videla) e tachado de machista. "As letras de fato retratavam a mulher como uma figura fútil", diz o co-produtor Mozzi. "Anos depois, no entanto, percebi a riqueza dos arranjos daquelas canções." No início desta década, o gênero ganhou até uma vertente eletrônica. Mas é nas orquestras típicas, formadas por jovens cabeludos que empunham bandoneons e violinos, que o tango dá suas mostras mais nítidas de vigor. "Existe uma nova geração de meninos talentosos, que cria seu próprio material em vez de imitar os antigos artistas. São o futuro do tango", diz o bandoneonista Leopoldo Federico. Café de los Maestros, a despeito das aparências, não é um projeto de inspiração saudosista. Melhor dizer que ele é museológico. Apresenta quatro "escolas" do tango pré-Piazzolla (as iniciadas por Aníbal Troilo, Carlos Di Sarli, Juan D’Arienzo e Osvaldo Pugliese), em alguns casos com interpretação dos artistas originais. O trabalho incluiu a recuperação das partituras. Como muitas se haviam perdido, coube aos maestros escutar os discos e tirar nota por nota. O projeto também não deve ser confundido com Buena Vista Social Club, trabalho em que o guitarrista americano Ry Cooder recuperou a arte de músicos e cantores cubanos que havia muito tinham trocado a vida artística por subempregos. Os maestros tinham uma agenda agitada antes de aceitar o convite de Santaolalla e Mozzi. O bandoneonista Federico, de 81 anos, tem seu próprio grupo e é presidente da Associação Argentina de Intérpretes. "Comecei aos 8 anos e toquei com todos os mestres. Sou da época áurea do gênero, quando a Rua Corrientes era repleta de confeitarias. E todas elas tinham orquestras de tango em sua programação." Os cantores Virginia Luque e Juan Carlos Godoy também se mantêm na ativa. Virginia, de 81 anos, fez sucesso como atriz de cinema na década de 40. É uma cantora talentosa e uma das raras intérpretes do sexo feminino (afinal, a maioria das letras de tango fala de mulheres ingratas e interesseiras). "Certa vez, me vesti de compadrito e cantei um desses tangos apenas para mostrar que também compreendia o sofrimento dos homens", diz. Hoje, Virginia é uma das atrações do El Viejo Almacén, no bairro de San Telmo. Ali, em meio a fotos da mãe, da filha e figuras de santos, ela teoriza sobre a importância do tango. "É uma música especial porque traz o melhor de cada povo: o batuque negro, o bandoneon dos alemães, o canto da França...", enumera, fazendo menção à suposta nacionalidade francesa de Carlos Gardel (que muitos historiadores afirmam ter sido uruguaio). Virginia também é um dos poucos motivos para enfrentar o Viejo Almacén, casa de espetáculos para turistas. Ela canta duas músicas, nas quais derrama dramaticidade. Na primeira, encarna uma mulher desprezada. Depois, interpreta La Canción de Buenos Aires, sucesso de Azucena Maizani, sua madrinha artística. Juan Carlos Godoy é responsável por um dos momentos mais divertidos do documentário Café de los Maestros. Depois de ser filmado no hipódromo de Buenos Aires, ele confessa que gastou toda a sua fortuna nos cavalos. "Dinheiro vai, dinheiro vem", diz. "Tenho 86 anos bem vividos e não me arrependo de nada." Godoy é outro que começou na infância, cantando tangos em bares portenhos por alguns vinténs. Na adolescência, chegou a trabalhar na prefeitura de Buenos Aires, mas largou o emprego porque o salário ia mesmo parar inteiro no jogo. Godoy cantou nas principais orquestras do país e fez sucesso na Colômbia, onde, jura ele, vendeu 3 milhões de discos. Também excursionou pelos Estados Unidos. "Fui catorze vezes a Nova York. É uma cidade linda, mas nada se compara àquele hipódromo", diz. Godoy, atualmente, não apenas canta nos bares de Buenos Aires como faz recitais especiais – sem brincadeira – para cavalos. "Um tango bem cantado por mim é vitória na certa." O caçula de Café de los Maestros é o violinista Fernando Suárez Paz, de 68 anos, que teve seu período mais produtivo quando integrou o grupo de Astor Piazzolla, de 1978 a 1988. "Ele era um gênio, mas tinha temperamento difícil e era odiado pelos concorrentes, que tinham ciúme de seu talento", diz. Suárez Paz mantém um quinteto com o qual cumpre aquela que considera sua missão – "levar adiante a obra de Piaz-zolla" –, mas acha tempo para excursionar com o violoncelista sino-americano Yo-Yo Ma. "Sou o professor de tango dele", orgulha-se. O momento mais emocionante do documentário Café de Los Maestros se dá quando os músicos se apresentam no Teatro Colón, em Buenos Aires, numa das raras vezes em que esse santuário da música erudita abriu espaço para um gênero popular. "Para mim, foi a consagração do tango", diz Federico. Pelo êxito da récita, é provável que outras salas clássicas sigam o exemplo. "Meu filho, neste período tão difícil em que estamos vivendo, é natural que as pessoas queiram cada vez mais ouvir tango", encerra Virginia. Não é só Gardel que canta cada vez mejor.
Quando elas querem ser abusadas
A canção mais picante do pop atual foi escrita por uma ex-artista gospel. Katy Perry, que nos tempos de moça carola atendia pelo nome de Katy Hudson, é autora de I Kissed a Girl, que traz os versos: “Eu beijei uma garota e gostei/ Do gosto do seu brilho de cereja/ Eu espero que meu namorado não fique cha-teado”. A música ficou dois meses no topo da parada dos Estados Unidos — e ganhou inimigos. Os moralistas a odeiam porque estaria levando as moças para o mau caminho. A comunidade gay torce o nariz porque Katy a teria composto para faturar alguns trocados, e não em nome da causa lésbica (o que ela não é). As reações mostram que a canção é provocante, ainda que de maneira bem pouco arriscada. O jeito de cantar de Katy Perry não força na sensualidade e o videoclipe de I Kissed a Girl é de uma pureza ímpar — em nenhum momento a cantora chega a realizar sua fantasia. A ousadia das mulheres cantoras, contudo, cobre um espectro bem mais amplo ao longo da história. Muitas vezes, elas se viram de fato em apuros apenas por interpretar uma canção. O quadro que ilustra esta reportagem propõe uma forma de medir o grau de ousadia dessas músicas. Há uma diferença entre interpretar uma canção provocadora ou escandalosa. No primeiro grupo, incluem-se aquelas que tocam em temas espinhosos, mas de forma leve — as armas são quase sempre a ironia e a sensualidade marota. Aí cabe I Kissed a Girl. E ainda Smile, lançada pela inglesa Lily Allen em 2006 — a letra descreve sua vingança contra um ex-namorado que a trocou por outra. O máximo de provocação que Lily se permite é incluir um palavrão na letra. Já as canções escandalosas são agressivas — investem contra os tabus de maneira incendiária e muitas vezes vêm recheadas de termos chulos. I’m a Slave 4 U, em que a até então comportada Britney Spears assume seu lado vadia, é um exemplo. You Oughta Know, de Alanis Morissette, também se encaixa aí: trata-se de um rock raivoso em que ela destila ódio por um ex-namorado. Nessa escala da ousadia feminina, há ainda outro parâmetro para levar em conta: quanto uma música oferece de risco para sua intérprete. Os sucessos de Katy Perry e Lily Allen podem até lhes render alguma bronca. Embora mais contundentes, as canções de Britney e Alanis também só provocaram um efeito de choque providencial para as vendagens das artistas. Mas a história da música popular americana também registra exemplos mais duros. Strange Fruit, clássico que Billie Holiday lançou em 1939, aborda um assunto doloroso — o linchamento de dois homens negros no sul dos Estados Unidos. A platéia debandava quando Billie a cantava — e a companhia pela qual ela gravava seus discos se recusou a lançá-la. Love for Sale, composta por Cole Porter em 1930 e famosa na voz de Ella Fitzgerald nos anos 50, também causava esse tipo de mal-estar. Narrada sob o ponto de vista de uma prostituta, a letra misturava libertinagem com alusão às drogas: “Quem vai comprar/ Sentir um gostinho do meu produto/ Quem está disposto a pagar o preço/ Por uma viagem ao paraíso”. Também uma clara apologia das substâncias ilícitas, Rehab (2006), de Amy Winehouse, é outra viagem arriscada — inclusive para a saúde da intérprete, como se verifica pelo seu histórico de internações. Madonna é das raras artistas que sabem ser tanto provocadoras quanto escandalosas. Material Girl, sucesso de 1985 que fala de uma garota que só sai com rapazes cheios da grana, era uma provocação água-com-açúcar. Pouco depois, contudo, ela causou escândalo real com Papa Don’t Preach, canção em que oferece uma visão incômoda da gravidez na adolescência. Madonna, aliás, é uma referência inescapável quando o assunto é a ousadia no pop. Antes de seu surgimento, no começo dos anos 80, eram raras as cantoras brancas que falavam de sexo de maneira explícita. Até então, as artistas brancas assumiam dois tipos de figurino: havia moças castas como Karen Carpenter, do duo Carpenters, e as que apostavam em letras existenciais e feministas, a exemplo de Carole King e Carly Simon. “Madonna pavimentou o caminho para minha geração”, derreteu-se Katy Perry em entrevista a VEJA. “Por meio de suas músicas, eu me senti segura para criar letras sob o ponto de vista da mulher.” A ex-carola aprendeu ainda outra lição com seu ídolo. Provocação e escândalo anabolizam a carreira de uma cantora — desde que usados em doses seguras.
O mandarim do piano
O pianista Lang Lang, de 26 anos, foi um dos grandes vencedores da Olimpíada de Pequim. Lang, claro, não participou das competições, mas firmou-se no papel de ícone da nova China. Na cerimônia de abertura, tocou num horrendo piano branco (sugestão do cineasta e diretor do espetáculo, Zhang Yimou, para quem a cor branca simbolizaria o futuro do país). Durante a festa de encerramento, atuou como comentarista para várias emissoras de TV do exterior. Lang destacou-se em meio a 1,3 bilhão de chineses tocando música erudita, um gênero que nos tempos de Mao Tsé-tung era tido como "decadente". Faz cerca de 120 concertos por ano a um cachê médio de 50 000 dólares (quantia que pode aumentar até cinco vezes, dependendo de quem o contrata). Mora em Nova York, tem uma coleção de carros de luxo e atua como garoto-propaganda de celulares, canetas e carros esporte. Ainda assim, é um orgulho da China comunista. "Estamos em meio a outra revolução cultural. Mas uma revolução cultural do bem", diz o pianista, em entrevista exclusiva a VEJA. Nascido na cidade de Shenyang, Lang descobriu o piano aos 3 anos de idade, assistindo a um desenho de Tom e Jerry que tinha como trilha sonora a Rapsódia Húngara Nº 2, do compositor Franz Liszt. Dois anos mais tarde, ganhou seu primeiro concurso no instrumento. Seu pai, Lang Guoren, um ex-violinista que, durante a Revolução Cultural, foi forçado a trabalhar numa fábrica de peças para bicicleta, viu no filho a oportunidade para escapar de uma vida cinzenta. Os dois migraram para Pequim, onde viveram sob condições miseráveis. Moravam num cortiço infestado de ratos e sem rede de esgoto. Os exercícios diários de Lang ao piano eram o terror dos vizinhos. "Imagine um garoto tocar Beethoven e Schumann para pessoas acostumadas à música folclórica chinesa. Elas batiam na parede, faziam ameaças." Lang Guoren exercia sobre o filho uma pressão brutal. Quando o menino tinha 9 anos, seu pai suspeitou que ele havia cabulado uma sessão de estudos e deu a isso a dimensão de uma tragédia: "Tudo está acabado. Você é um preguiçoso, um mentiroso e não merece viver". Guoren deu ao filho um vidro de remédios e ordenou que ele engolisse trinta cápsulas. Depois, mandou que ele saltasse do alto do edifício. Lang, desesperado, esmurrou as paredes até que suas mãos começassem a sangrar. Foi quando seu pai caiu em si: "Eu não quero que você morra. Só quero que você pratique!". Em 1997, Lang Lang mudou-se para os Estados Unidos, para aprimorar sua técnica. Dois anos depois, atendeu a um chamado de última hora para substituir o pianista André Watts num recital. Tocou o Concerto para Piano, de Tchaikovsky, ao lado da Sinfônica de Chicago. Desde então, tem se apresentado com as principais orquestras do mundo. O pianista passa a falsa impressão de que determinadas obras eruditas são fáceis de ser tocadas (no YouTube, existe um vídeo em que ele interpreta uma peça de Chopin deslizando uma laranja sobre as teclas do piano). Por outro lado, sofre do defeito que acomete jovens concertistas: muitas de suas interpretações são exercícios de técnica desprovidos de sensibilidade. Mas Lang Lang trabalha para corrigir essa limitação. Hoje, estuda com Daniel Barenboim, outro ex-menino prodígio que se tornou um instrumentista e um maestro de alto gabarito. "Daniel ajuda a focar minha atenção na música." Outras mudanças de estilo chegam com a vivência. Nesta semana, as lojas da Europa e dos Estados Unidos recebem o disco em que Lang Lang interpreta os Concertos para Piano, do compositor polonês Frédéric Chopin. Escudado pela Filarmônica de Viena e pelo regente indiano Zubin Mehta, Lang relê uma obra que gravou pela primeira vez aos 13 anos de idade. "Na época, a única mulher em que podia pensar era minha mãe. Agora, sou capaz de compreender a sensualidade e o amor presentes na música de Chopin. Meu toque, meu fraseado e minha emoção denunciam isso." Com seu estilo flamboyant e cabelo espetado de roqueiro, Lang Lang diz que representa o povo chinês, mas não os seus governantes. De sua fala, contudo, transborda um nacionalismo exultante que certamente soa como música aos ouvidos dos dirigentes do Partido Comunista chinês. "Em vinte anos, a China será referência da música erudita mundial." Lang Lang já está na vanguarda dessa revolução.
A bossa obscura
As comemorações dos cinqüenta anos da bossa nova renderam exposições, shows e um filme - OsDesafinados. Mas o gênero ainda guarda segredos
Em cartaz nos cinemas desde sexta-feira, Os Desafinados (Brasil, 2008) narra a trajetória de Joaquim (Rodrigo Santoro), Davi (Ângelo Paes Leme), Geraldo (Jair de Oliveira) e PC (André Moraes), músicos que em 1962, período de maior ebulição da bossa nova, vão para Nova York em busca de fama e fortuna. O filme deixa claro que o quarteto jamais conseguiu realizar esse sonho – e o personagem Joaquim é inspirado no pianista Tenório Jr., que, durante uma excursão por Buenos Aires, nos anos 70, saiu para comprar cigarros e desapareceu, seqüestrado por oficiais do Exército argentino. Os Desafinados faz parte do festival de comemorações em torno do cinqüentenário da bossa nova, que neste ano ganhou duas exposições em São Paulo, shows de João Donato, João Gilberto e da dupla formada por Caetano Veloso e Roberto Carlos (numa homenagem a Tom Jobim) e relançamentos em CD. Filme desigual, que alterna passagens enfadonhas com outras bem costuradas, ele tem o mérito de relembrar que a bossa nova não se limitou a João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes: houve diversos Joaquins, Davis, PCs e Geraldos, muitos merecedores de reconhecimento. Existem "desafinados" de dois tipos. Houve aqueles que influenciaram os nomes centrais da bossa nova, mas por motivos diversos ficaram de fora do panteão. Tito Madi, intérprete de canto suave, era um dos prediletos de João Gilberto e Roberto Carlos. O mesmo se pode dizer de Marisa Gata Mansa, ex-namorada de Gilberto e uma das primeiras a gravar suas composições. Em vez de adotar o rótulo "bossa nova", eles preferiram se definir como artistas de samba-canção. Madi ainda rompeu com João Gilberto, depois de receber uma violonada na cabeça, durante uma discussão. Sylvia Telles, por seu turno, foi a primeira cantora a gravar uma canção de Carlos Lyra – Menino, em 1955 – e a primeira a gravar uma parceria de Tom Jobim com Newton Mendonça (Foi a Noite, de 1956, tida como um dos marcos da bossa nova). Sylvia morreu num acidente de carro em 1966. Outros ficaram de fora por um capricho geográfico. Johnny Alf era reverenciado pelos músicos cariocas quando se apresentava na boate Plaza, em meados da década de 50. Canções como Rapaz de Bem anteciparam o que viria a ser a bossa nova – um estilo musical elegante, calcado no cool jazz americano, com vocais sussurrantes no lugar do estilo "estoura-peito" dos cantores de bolero e de samba-canção que apinhavam as rádios brasileiras. Anos depois, quando a bossa nova finalmente ganhou os holofotes, Alf morava e tocava em São Paulo – e desfrutou muito pouco a popularidade colossal alcançada pelo gênero. "É uma pena, porque suas harmonias são tão ricas quanto as de Tom Jobim", diz Amilton Godoy, pianista do Zimbo Trio, um dos principais grupos de samba-jazz (outra vertente da bossa). Outra categoria de "desafinado" é formada por bossa-novistas que lançaram discos significativos, mas que foram ofuscados pela tríade formada por Vinicius de Moraes, Tom Jobim e João Gilberto. Fazem parte dessa turma compositores do quilate de Carlos Lyra e Roberto Menescal e instrumentistas que ultrapassaram os limites da bossa nova – caso de João Donato e Marcos Valle. Lyra foi parceiro de Tom Jobim, de Vinicius de Moraes e de Ronaldo Bôscoli. Em 1961, passou a cobrar letras politicamente engajadas da turma da bossa nova e flertou com os sambistas dos morros cariocas. Passou ainda temporadas longe do país – primeiro no México, depois nos Estados Unidos – e hoje em dia goza de um prestígio infinitamente inferior ao seu talento. O pecado de Donato e Valle foi combinar a batida da bossa nova com outros gêneros musicais, como o funk. Essa ousadia lhes rendeu narizes torcidos entre os críticos da época e fez com que ficassem à margem do "cânone" (ainda que hoje sejam bastante reverenciados por DJs e produtores do exterior). A bossa nova foi uma das últimas revoluções da música brasileira. "Ela abriu as portas para a MPB atual", diz o pesquisador Jairo Severiano. É também um dos gêneros musicais mais copiados em todo o mundo: astros da música pop internacional tentaram, em vão, copiar sua batida, DJs cruzaram o violão e o batuque da bossa com ritmos eletrônicos (o popular drum’n’bossa) e surgiram projetos de gosto duvidoso, como versões bossa para sucessos dos Beatles, dos Rolling Stones e até dos Ramones. A bossa virou fórmula e ganhou um rótulo de "música para relaxar". Daí o interesse de redescobrir os "desafinados" para o grande público e ampliar a história do gênero para além do que já virou clichê.
Os esquecidos
Quem ficou de fora do panteão da bossa nova
Tito Madi O que fez: foi um dos primeiros artistas a interpretar samba-canção de maneira delicada, quando era o canto "estoura-peito" que predominava. Esse modo de cantar influenciou João Gilberto e Roberto Carlos Por que ficou para trás: por causa de problemas de relacionamento (João Gilberto quebrou um violão em sua cabeça) e porque se dedicou mais à carreira de cantor da noite do que de intérprete de bossa nova Johnny Alf O que fez: suas harmonias e improvisos jazzísticos ao piano atraíam fãs como Tom Jobim e João Gilberto. Para muitos críticos e artistas, foi o primeiro a burilar a linguagem da bossa nova, ainda no início dos anos 50 Por que ficou para trás: quando a bossa nova estourou, no Rio de Janeiro, ele já se havia mudado para São Paulo – e perdeu o bonde da história. De comportamento tímido, deixou passar várias oportunidades de mostrar seu trabalho no exterior Carlos Lyra O que fez: foi um dos articuladores da bossa nova, ao lado de Tom Jobim e João Gilberto. É um melodista de primeira linha, com um repertório que vai da valsa e do samba-canção a composições calcadas em música clássica Por que ficou para trás: rompeu com a turma da bossa nova em 1961 e pediu letras mais engajadas. Em 1966, partiu para um auto-exílio no México, que durou cinco anos
Em cartaz nos cinemas desde sexta-feira, Os Desafinados (Brasil, 2008) narra a trajetória de Joaquim (Rodrigo Santoro), Davi (Ângelo Paes Leme), Geraldo (Jair de Oliveira) e PC (André Moraes), músicos que em 1962, período de maior ebulição da bossa nova, vão para Nova York em busca de fama e fortuna. O filme deixa claro que o quarteto jamais conseguiu realizar esse sonho – e o personagem Joaquim é inspirado no pianista Tenório Jr., que, durante uma excursão por Buenos Aires, nos anos 70, saiu para comprar cigarros e desapareceu, seqüestrado por oficiais do Exército argentino. Os Desafinados faz parte do festival de comemorações em torno do cinqüentenário da bossa nova, que neste ano ganhou duas exposições em São Paulo, shows de João Donato, João Gilberto e da dupla formada por Caetano Veloso e Roberto Carlos (numa homenagem a Tom Jobim) e relançamentos em CD. Filme desigual, que alterna passagens enfadonhas com outras bem costuradas, ele tem o mérito de relembrar que a bossa nova não se limitou a João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes: houve diversos Joaquins, Davis, PCs e Geraldos, muitos merecedores de reconhecimento. Existem "desafinados" de dois tipos. Houve aqueles que influenciaram os nomes centrais da bossa nova, mas por motivos diversos ficaram de fora do panteão. Tito Madi, intérprete de canto suave, era um dos prediletos de João Gilberto e Roberto Carlos. O mesmo se pode dizer de Marisa Gata Mansa, ex-namorada de Gilberto e uma das primeiras a gravar suas composições. Em vez de adotar o rótulo "bossa nova", eles preferiram se definir como artistas de samba-canção. Madi ainda rompeu com João Gilberto, depois de receber uma violonada na cabeça, durante uma discussão. Sylvia Telles, por seu turno, foi a primeira cantora a gravar uma canção de Carlos Lyra – Menino, em 1955 – e a primeira a gravar uma parceria de Tom Jobim com Newton Mendonça (Foi a Noite, de 1956, tida como um dos marcos da bossa nova). Sylvia morreu num acidente de carro em 1966. Outros ficaram de fora por um capricho geográfico. Johnny Alf era reverenciado pelos músicos cariocas quando se apresentava na boate Plaza, em meados da década de 50. Canções como Rapaz de Bem anteciparam o que viria a ser a bossa nova – um estilo musical elegante, calcado no cool jazz americano, com vocais sussurrantes no lugar do estilo "estoura-peito" dos cantores de bolero e de samba-canção que apinhavam as rádios brasileiras. Anos depois, quando a bossa nova finalmente ganhou os holofotes, Alf morava e tocava em São Paulo – e desfrutou muito pouco a popularidade colossal alcançada pelo gênero. "É uma pena, porque suas harmonias são tão ricas quanto as de Tom Jobim", diz Amilton Godoy, pianista do Zimbo Trio, um dos principais grupos de samba-jazz (outra vertente da bossa). Outra categoria de "desafinado" é formada por bossa-novistas que lançaram discos significativos, mas que foram ofuscados pela tríade formada por Vinicius de Moraes, Tom Jobim e João Gilberto. Fazem parte dessa turma compositores do quilate de Carlos Lyra e Roberto Menescal e instrumentistas que ultrapassaram os limites da bossa nova – caso de João Donato e Marcos Valle. Lyra foi parceiro de Tom Jobim, de Vinicius de Moraes e de Ronaldo Bôscoli. Em 1961, passou a cobrar letras politicamente engajadas da turma da bossa nova e flertou com os sambistas dos morros cariocas. Passou ainda temporadas longe do país – primeiro no México, depois nos Estados Unidos – e hoje em dia goza de um prestígio infinitamente inferior ao seu talento. O pecado de Donato e Valle foi combinar a batida da bossa nova com outros gêneros musicais, como o funk. Essa ousadia lhes rendeu narizes torcidos entre os críticos da época e fez com que ficassem à margem do "cânone" (ainda que hoje sejam bastante reverenciados por DJs e produtores do exterior). A bossa nova foi uma das últimas revoluções da música brasileira. "Ela abriu as portas para a MPB atual", diz o pesquisador Jairo Severiano. É também um dos gêneros musicais mais copiados em todo o mundo: astros da música pop internacional tentaram, em vão, copiar sua batida, DJs cruzaram o violão e o batuque da bossa com ritmos eletrônicos (o popular drum’n’bossa) e surgiram projetos de gosto duvidoso, como versões bossa para sucessos dos Beatles, dos Rolling Stones e até dos Ramones. A bossa virou fórmula e ganhou um rótulo de "música para relaxar". Daí o interesse de redescobrir os "desafinados" para o grande público e ampliar a história do gênero para além do que já virou clichê.
Os esquecidos
Quem ficou de fora do panteão da bossa nova
Tito Madi O que fez: foi um dos primeiros artistas a interpretar samba-canção de maneira delicada, quando era o canto "estoura-peito" que predominava. Esse modo de cantar influenciou João Gilberto e Roberto Carlos Por que ficou para trás: por causa de problemas de relacionamento (João Gilberto quebrou um violão em sua cabeça) e porque se dedicou mais à carreira de cantor da noite do que de intérprete de bossa nova Johnny Alf O que fez: suas harmonias e improvisos jazzísticos ao piano atraíam fãs como Tom Jobim e João Gilberto. Para muitos críticos e artistas, foi o primeiro a burilar a linguagem da bossa nova, ainda no início dos anos 50 Por que ficou para trás: quando a bossa nova estourou, no Rio de Janeiro, ele já se havia mudado para São Paulo – e perdeu o bonde da história. De comportamento tímido, deixou passar várias oportunidades de mostrar seu trabalho no exterior Carlos Lyra O que fez: foi um dos articuladores da bossa nova, ao lado de Tom Jobim e João Gilberto. É um melodista de primeira linha, com um repertório que vai da valsa e do samba-canção a composições calcadas em música clássica Por que ficou para trás: rompeu com a turma da bossa nova em 1961 e pediu letras mais engajadas. Em 1966, partiu para um auto-exílio no México, que durou cinco anos
Chris Martin: O Deus tímido do rock
Alguns o odeiam. Milhões o amam. O que o cantor inglês Chris Martin, líder do fenômeno Coldplay, pensa da crítica, da fama - e até do comércio entre as nações
Sérgio Martins, de San Jose
Na semana passada, o roqueiro inglês Chris Martin cumpriu mais uma etapa da turnê de lançamento do novo álbum de sua banda, o Coldplay. Ao fim da passagem de som para a apresentação no HP Pavillion, na cidade americana de San Jose, na Califórnia, Martin concedeu uma entrevista exclusiva a VEJA. Com o mesmo fardão militar estilizado que enverga nas apresentações, ele se sentou no chão e abraçou as pernas. Uma pose que resume bem o personagem: Martin, de 31 anos, é um tímido que pratica o vegetarianismo e se engaja em causas como a da organização Fairtrade, que defende benefícios aos países pobres no comércio mundial. O mesmo Martin é líder da maior banda de rock da atualidade. Os três primeiros discos do Coldplay venderam mais de 30 milhões de cópias. Viva la Vida or Death and All His Friends amplia esse número já vistoso. Lançado no início do mês, está em primeiro lugar nas paradas de 36 países. Só nos Estados Unidos foram 700 000 cópias comercializadas na semana de lançamento (no Brasil, as vendas de 34 000 unidades já representam um disco de ouro). Na apresentação em San Jose, poucas horas depois da entrevista, o Coldplay mostrou por que galvaniza uma massa de ouvintes que vai dos adolescentes aos quarentões. A banda executou com brilho as canções do novo CD (produzido por Brian Eno, o homem por trás de alguns dos maiores sucessos dos irlandeses do U2, Viva la Vida traz um Coldplay que flerta com ritmos indianos e africanos). E Martin mostrou seu carisma: durante uma hora e meia, hipnotizou 15 000 pessoas com seu gestual desengonçado, suas brincadeiras e seu jeito peculiar de socar as teclas de seus pianos. Ele ironizou ainda a legião de pessoas que odeiam sua banda. "Gostaria que todos os críticos que falam mal de nós estivessem aqui vendo vocês cantarem essa música comigo", discursou antes de interpretar o sucesso Yellow (que, recentemente, virou caso de polícia em Seattle, nos Estados Unidos: farta de ouvir a música, a freqüentadora de um karaokê partiu para cima de um incauto que a interpretava). Martin só perde o jeitão tranqüilo quando tem a intimidade de sua família invadida pelos paparazzi ¿ ele é casado com a atriz americana Gwyneth Paltrow, com quem tem os filhos Apple e Moses, de 4 e 2 anos. O cantor falou sobre o assunto na conversa com VEJA ¿ e anunciou que o Coldplay deverá se apresentar no Brasil em março de 2009.
Viva la Vida estreou em primeiro lugar em 36 países. O Coldplay é a maior banda de rock da atualidade?
Sim, somos os maiores do rock atual, mas num sentido bem limitado. Só porque o U2 e o Green Day não lançaram discos neste ano. É como vencer um torneio de golfe de que (o golfista americano) Tiger Woods não participou. Diria que estamos entre as dez melhores bandas. Mas você sabe que não ouço os discos do Coldplay? Eles me fazem ter pesadelos.
Por quê? São discos ruins?
Trabalho duro em cada disco que faço. Mas, quando os escuto, sempre penso que poderia ter feito melhor. No fundo, isso não é defeito, é a busca pela perfeição. Um dia prometo que vou escutar os discos do Coldplay. Quando estiver com 90 anos e não tiver nada melhor para fazer, quem sabe.
O Coldplay desperta reações extremas. Muitos os endeusam, outros os odeiam. Como encara isso?
Eu me assusto com o ódio. Sempre acreditei que formamos uma banda autêntica, pela química que há entre os integrantes. Somos quatro almas que se completam e temos um trabalho em que botamos fé. Não entendo a causa de tanta animosidade.
As críticas o ferem?
Procuro simplesmente não lê-las. Só presto atenção quando alguém me alerta sobre uma observação pertinente. Nas críticas aos shows da nova turnê, jornalistas apontaram alguns exageros no palco, o que nos levou a mudar nossa atuação. Agora, se as pessoas odeiam a banda por nada, paciência. Tem gente que precisa destilar seu ódio. Se me escolhem como saco de pancadas, que assim seja.
Você colabora com a organização Fairtrade, que prega a derrubada das barreiras comerciais entre países ricos e pobres. Como se envolve no projeto?
Já tive participação mais ativa. Deixei a Fairtrade de lado para me dedicar ao novo disco do Coldplay. Ou seja, hoje sou só um entusiasta silencioso da organização. Continuo acreditando que esse projeto pode reduzir a miséria em vários países, inclusive no Brasil.
Não é contraditório seu apoio ao democrata Barack Obama para a Presidência dos Estados Unidos? Ele defende políticas protecionistas para certos setores da economia americana, o que vai de encontro às teses da Fairtrade.
Apóio Obama porque sou inteligente. Na última frase de sua autobiografia, ele escreve: "Meu coração está cheio de amor pelo meu país". Isso soa nacionalista demais ¿ mas Obama está tentando ser eleito presidente de um país cujo nacionalismo é exacerbado. Ao ler o restante do livro, nota-se que ele tem uma visão de mundo mais aberta que a do republicano John McCain. Por mais que se diga protecionista, vai pensar nos outros países. Podem me acusar de ingenuidade, mas acredito que os políticos de hoje são melhores que os de ontem. E serão cada vez melhores.
Quando você descobriu que queria ser músico?
Sou da cidade de Devon, no sul da Inglaterra. Talvez o leite daquela região tenha algo especial, pois produziu outros artistas interessantes, como Joss Stone. Minha descoberta musical se deu na escola. Ela era bem tradicional em relação à música, no máximo abria espaço para corais e pequenas orquestras ¿ que têm seu valor, mas podem ser aborrecidos para um adolescente. Certo dia, um novo professor apareceu com vários teclados. Eles estavam um tanto gastos, mas ainda funcionavam. Foram uma revelação para mim. Comecei a cantar bem mais tarde. Estava na Tunísia com um amigo e havia um bar na cidade que promovia concursos de karaokê. O vencedor ganhava uma garrafa de uísque. Ganhei várias. E nem bebia na época.
Canções como Clocks denotam certa influência da música clássica. Você aprecia o gênero?
Como todo pianista, adoro ouvir Chopin. Mas ainda não consegui tocar nada dele, porque é rápido demais. Também gosto de Beethoven. Aliás, li recentemente que Because, dos Beatles, é a sonata Moonlight tocada ao contrário. Estou doido para checar se é verdade.
O assédio aos popstars pode ser brutal. O que você faz para se livrar dos fãs indesejados?
Não faço nada, pois raramente sou reconhecido nas ruas. Muitos que vêm falar comigo acham que sou James Blunt, que fez um sucesso enorme com a canção You're Beautiful.
Não dá para negar que você é perseguido pelos paparazzi...
Acho "perseguido" uma expressão forte demais. O máximo de chateação é não poder fazer compras com minha mulher (a atriz Gwyneth Paltrow), que também é famosa. Nem eu nem ela encorajamos esse tipo de assédio. Mas não é o fim do mundo. Se for o preço a pagar para dar uma vida confortável à minha família, tudo bem. Outras pessoas sofrem mais com isso.
Como suas colegas de profissão Britney Spears e Amy Winehouse?
Se existe uma pessoa cuja vida foi arruinada por essa gente é Britney. Eu me considero um sujeito de sorte porque pertenço a uma banda e sou homem (eles costumam perseguir mais as mulheres). Britney tem de lidar com esses pilantras diariamente. O caso de Amy também é triste. Jonny, nosso guitarrista, é vizinho dela e todos os dias depara com um batalhão de paparazzi. Amy é um anjo. Odeio saber que causam mal a ela.
Por que você costuma falar de si próprio com humor depreciativo?
Porque sou honesto. E também há um quê de Woody Allen nisso: ele é meu cineasta predileto e está sempre fazendo piadas sobre si mesmo. Muitas letras do Coldplay são inspiradas pelas visões de Woody sobre sexo, vida e amizade. Só uma piada do filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa já renderia um disco inteiro do Coldplay. Duas senhoras estão num restaurante e uma delas diz: "A comida aqui é horrível". A outra responde: "Horrível e vem em pequenas porções". Com isso, Woody quis dizer que a vida é dolorosa ¿ e também que passa rápido demais.
Você é inseguro?
Quando estou com a banda, nunca. Quando estou sozinho, eu me questiono continuamente. Para ser sincero, acho que a única pessoa no mundo que não é insegura é (o presidente americano) George W. Bush. Ele é tão maluco que não tem tempo para isso.
Sérgio Martins, de San Jose
Na semana passada, o roqueiro inglês Chris Martin cumpriu mais uma etapa da turnê de lançamento do novo álbum de sua banda, o Coldplay. Ao fim da passagem de som para a apresentação no HP Pavillion, na cidade americana de San Jose, na Califórnia, Martin concedeu uma entrevista exclusiva a VEJA. Com o mesmo fardão militar estilizado que enverga nas apresentações, ele se sentou no chão e abraçou as pernas. Uma pose que resume bem o personagem: Martin, de 31 anos, é um tímido que pratica o vegetarianismo e se engaja em causas como a da organização Fairtrade, que defende benefícios aos países pobres no comércio mundial. O mesmo Martin é líder da maior banda de rock da atualidade. Os três primeiros discos do Coldplay venderam mais de 30 milhões de cópias. Viva la Vida or Death and All His Friends amplia esse número já vistoso. Lançado no início do mês, está em primeiro lugar nas paradas de 36 países. Só nos Estados Unidos foram 700 000 cópias comercializadas na semana de lançamento (no Brasil, as vendas de 34 000 unidades já representam um disco de ouro). Na apresentação em San Jose, poucas horas depois da entrevista, o Coldplay mostrou por que galvaniza uma massa de ouvintes que vai dos adolescentes aos quarentões. A banda executou com brilho as canções do novo CD (produzido por Brian Eno, o homem por trás de alguns dos maiores sucessos dos irlandeses do U2, Viva la Vida traz um Coldplay que flerta com ritmos indianos e africanos). E Martin mostrou seu carisma: durante uma hora e meia, hipnotizou 15 000 pessoas com seu gestual desengonçado, suas brincadeiras e seu jeito peculiar de socar as teclas de seus pianos. Ele ironizou ainda a legião de pessoas que odeiam sua banda. "Gostaria que todos os críticos que falam mal de nós estivessem aqui vendo vocês cantarem essa música comigo", discursou antes de interpretar o sucesso Yellow (que, recentemente, virou caso de polícia em Seattle, nos Estados Unidos: farta de ouvir a música, a freqüentadora de um karaokê partiu para cima de um incauto que a interpretava). Martin só perde o jeitão tranqüilo quando tem a intimidade de sua família invadida pelos paparazzi ¿ ele é casado com a atriz americana Gwyneth Paltrow, com quem tem os filhos Apple e Moses, de 4 e 2 anos. O cantor falou sobre o assunto na conversa com VEJA ¿ e anunciou que o Coldplay deverá se apresentar no Brasil em março de 2009.
Viva la Vida estreou em primeiro lugar em 36 países. O Coldplay é a maior banda de rock da atualidade?
Sim, somos os maiores do rock atual, mas num sentido bem limitado. Só porque o U2 e o Green Day não lançaram discos neste ano. É como vencer um torneio de golfe de que (o golfista americano) Tiger Woods não participou. Diria que estamos entre as dez melhores bandas. Mas você sabe que não ouço os discos do Coldplay? Eles me fazem ter pesadelos.
Por quê? São discos ruins?
Trabalho duro em cada disco que faço. Mas, quando os escuto, sempre penso que poderia ter feito melhor. No fundo, isso não é defeito, é a busca pela perfeição. Um dia prometo que vou escutar os discos do Coldplay. Quando estiver com 90 anos e não tiver nada melhor para fazer, quem sabe.
O Coldplay desperta reações extremas. Muitos os endeusam, outros os odeiam. Como encara isso?
Eu me assusto com o ódio. Sempre acreditei que formamos uma banda autêntica, pela química que há entre os integrantes. Somos quatro almas que se completam e temos um trabalho em que botamos fé. Não entendo a causa de tanta animosidade.
As críticas o ferem?
Procuro simplesmente não lê-las. Só presto atenção quando alguém me alerta sobre uma observação pertinente. Nas críticas aos shows da nova turnê, jornalistas apontaram alguns exageros no palco, o que nos levou a mudar nossa atuação. Agora, se as pessoas odeiam a banda por nada, paciência. Tem gente que precisa destilar seu ódio. Se me escolhem como saco de pancadas, que assim seja.
Você colabora com a organização Fairtrade, que prega a derrubada das barreiras comerciais entre países ricos e pobres. Como se envolve no projeto?
Já tive participação mais ativa. Deixei a Fairtrade de lado para me dedicar ao novo disco do Coldplay. Ou seja, hoje sou só um entusiasta silencioso da organização. Continuo acreditando que esse projeto pode reduzir a miséria em vários países, inclusive no Brasil.
Não é contraditório seu apoio ao democrata Barack Obama para a Presidência dos Estados Unidos? Ele defende políticas protecionistas para certos setores da economia americana, o que vai de encontro às teses da Fairtrade.
Apóio Obama porque sou inteligente. Na última frase de sua autobiografia, ele escreve: "Meu coração está cheio de amor pelo meu país". Isso soa nacionalista demais ¿ mas Obama está tentando ser eleito presidente de um país cujo nacionalismo é exacerbado. Ao ler o restante do livro, nota-se que ele tem uma visão de mundo mais aberta que a do republicano John McCain. Por mais que se diga protecionista, vai pensar nos outros países. Podem me acusar de ingenuidade, mas acredito que os políticos de hoje são melhores que os de ontem. E serão cada vez melhores.
Quando você descobriu que queria ser músico?
Sou da cidade de Devon, no sul da Inglaterra. Talvez o leite daquela região tenha algo especial, pois produziu outros artistas interessantes, como Joss Stone. Minha descoberta musical se deu na escola. Ela era bem tradicional em relação à música, no máximo abria espaço para corais e pequenas orquestras ¿ que têm seu valor, mas podem ser aborrecidos para um adolescente. Certo dia, um novo professor apareceu com vários teclados. Eles estavam um tanto gastos, mas ainda funcionavam. Foram uma revelação para mim. Comecei a cantar bem mais tarde. Estava na Tunísia com um amigo e havia um bar na cidade que promovia concursos de karaokê. O vencedor ganhava uma garrafa de uísque. Ganhei várias. E nem bebia na época.
Canções como Clocks denotam certa influência da música clássica. Você aprecia o gênero?
Como todo pianista, adoro ouvir Chopin. Mas ainda não consegui tocar nada dele, porque é rápido demais. Também gosto de Beethoven. Aliás, li recentemente que Because, dos Beatles, é a sonata Moonlight tocada ao contrário. Estou doido para checar se é verdade.
O assédio aos popstars pode ser brutal. O que você faz para se livrar dos fãs indesejados?
Não faço nada, pois raramente sou reconhecido nas ruas. Muitos que vêm falar comigo acham que sou James Blunt, que fez um sucesso enorme com a canção You're Beautiful.
Não dá para negar que você é perseguido pelos paparazzi...
Acho "perseguido" uma expressão forte demais. O máximo de chateação é não poder fazer compras com minha mulher (a atriz Gwyneth Paltrow), que também é famosa. Nem eu nem ela encorajamos esse tipo de assédio. Mas não é o fim do mundo. Se for o preço a pagar para dar uma vida confortável à minha família, tudo bem. Outras pessoas sofrem mais com isso.
Como suas colegas de profissão Britney Spears e Amy Winehouse?
Se existe uma pessoa cuja vida foi arruinada por essa gente é Britney. Eu me considero um sujeito de sorte porque pertenço a uma banda e sou homem (eles costumam perseguir mais as mulheres). Britney tem de lidar com esses pilantras diariamente. O caso de Amy também é triste. Jonny, nosso guitarrista, é vizinho dela e todos os dias depara com um batalhão de paparazzi. Amy é um anjo. Odeio saber que causam mal a ela.
Por que você costuma falar de si próprio com humor depreciativo?
Porque sou honesto. E também há um quê de Woody Allen nisso: ele é meu cineasta predileto e está sempre fazendo piadas sobre si mesmo. Muitas letras do Coldplay são inspiradas pelas visões de Woody sobre sexo, vida e amizade. Só uma piada do filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa já renderia um disco inteiro do Coldplay. Duas senhoras estão num restaurante e uma delas diz: "A comida aqui é horrível". A outra responde: "Horrível e vem em pequenas porções". Com isso, Woody quis dizer que a vida é dolorosa ¿ e também que passa rápido demais.
Você é inseguro?
Quando estou com a banda, nunca. Quando estou sozinho, eu me questiono continuamente. Para ser sincero, acho que a única pessoa no mundo que não é insegura é (o presidente americano) George W. Bush. Ele é tão maluco que não tem tempo para isso.
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