sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Uma batuta mais leve

No mês passado, a demissão do maestro John Neschling levantou dúvidas sobre o futuro da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Apesar de suas trombadas com o conselho da Fundação Osesp e com os músicos, não há como negar que Neschling, em seus doze anos à frente da orquestra, consolidou-a como o mais respeitável grupo sinfônico brasileiro. Os partidários do maestro sugeriam que, com a saída de Neschling, a qualidade da orquestra poderia se perder. Tudo indica que não será assim. A orquestra não se resume ao seu diretor artístico: é formada por bons músicos, que deram prova de talento sob o comando de outros regentes. E o francês Yan Pascal Tortelier, substituto de Neschling, deve trazer a ela um atributo fundamental: leveza. A Osesp é conhecida por tocar forte, com vigor às vezes excessivo. Esse recurso até funciona na execução de compositores como Beethoven e Mahler, mas é péssimo para peças de Debussy ou Ravel, que requerem mais suavidade. Tortelier tem a sensibilidade exigida pelo repertório francês, uma de suas especialidades. Nas duas semanas em que esteve à frente da Osesp como regente convidado, em 2008, fez com que a orquestra flutuasse. "Com John Neschling, soávamos pesados. Tortelier nos deixou graciosos", diz um integrante da orquestra. O contrato de Neschling vigoraria até o fim de 2010, mas o maestro brasileiro caiu em desgraça após várias declarações públicas infelizes, nas quais desancou músicos, desafetos - e até aliados. No início de janeiro, dez dias antes da demissão oficial de Neschling, Tortelier foi convidado por membros do conselho da Osesp a ser o novo regente titular - pelo menos pelas próximas duas temporadas. Aceitou a oferta prontamente. "Fui seduzido pela qualidade dos músicos e pela oportunidade de dirigir uma orquestra latino-americana pela primeira vez em minha vida", disse, em entrevista a VEJA. Na reformulação geral que se seguiu, o chileno Victor Hugo Toro, que atuava como regente assistente, também foi demitido, e Tortelier mudou o repertório da temporada 2009, que começa nesta quinta-feira. O maestro francês vai reger oito concertos neste ano - o restante da programação será preenchido por convidados (veja quadro). Os músicos da Osesp ficaram contentes com a mudança. Neschling seguia a tradição do maestro-ditador, que distribui carraspanas nos ensaios. Essa figura do maestro divino, que teve o seu exemplo mais acabado no austríaco Herbert von Karajan, já não encontra tanto espaço no cenário musical, dominado por regentes mais "democráticos", como o inglês Simon Rattle e o holandês Bernard Haitink. Tortelier tem um estilo afável. Isso não quer dizer que não seja um regente enérgico. "O maestro tem de passar confiança para a orquestra. É claro que muitas vezes tive de brigar com músicos para mostrar minha vontade. Porém, jamais elevo o tom de voz", diz. A Osesp é a orquestra mais rica do país. Tem um orçamento anual próximo a 68 milhões de reais (43 milhões do governo do estado e 25 milhões provenientes de assinaturas, vendas de bilhetes e patrocinadores). Yan Pascal Tortelier não é um regente do primeiríssimo escalão, mas é certamente um nome respeitado. É filho de Paul Tortelier, violoncelista que ficou conhecido pelo virtuosismo e pelas convicções políticas: nos anos 60, recusou-se a tocar nos Estados Unidos, em protesto contra a Guerra do Vietnã. Yan Pascal começou seus estudos musicais aos 4 anos e uma década depois se tornou um violinista de renome. "Gravei discos, mas me sentia frustrado. Nunca me satisfiz apenas com o violino", diz. Suas primeiras experiências na regência se deram na Orquestra de Toulouse, como assistente do maestro Michel Plasson. Em 1992, assumiu a direção artística da Filarmônica da BBC, de Manchester, cargo que manteve até 2003. Divorciado, pai de dois filhos, Tortelier também foi diretor artístico da Sinfônica de Pittsburgh, nos Estados Unidos, e regeu grandes orquestras, como a Sinfônica de Londres e a Royal Concertgebouw, de Amsterdã. "É um maestro competente, culto e de um carisma impressionante", diz o crítico musical Norman Lebrecht. Mais importante, Tortelier reúne qualidades para fazer a Osesp avançar - com leveza.

Maestro: Yan Pascal Tortelier, francês, 61 anos
Currículo: foi diretor artístico da Filarmônica da BBC, de Manchester, e da Sinfônica de Pittsburgh, nos Estados Unidos
Especialidade: o repertório francês, especialmente Henri Dutilleux e César Franck
O que pode acrescentar à Osesp: além de um repertório mais variado, pode conferir mais sutileza à orquestra

O preferido dos músicos
Duas semanas atrás, o paulistano Fabio Mechetti deu início à sua segunda temporada como diretor artístico da Filarmônica de Minas Gerais, com peças de Dvorak, Katchaturian e Rimsky Korsakov. O concerto da filarmônica desperta atenção por dois motivos. Primeiro, porque desde a sua criação, em 2007, a orquestra tem mostrado uma considerável evolução - e boa parte dos méritos se deve ao diretor artístico, que contratou bons músicos (e demitiu os que não conseguiram provar competência). Segundo, Mechetti é provavelmente o único brasileiro com chance de assumir o comando da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) depois de 2010, quando se encerrará o contrato de Yan Pascal Tortelier (nada impede que o maestro francês renove o contrato). "Minha prioridade é construir uma grande orquestra em Minas Gerais", desconversa Mechetti. Seu contrato com a filarmônica vai até 2011. Fabio Mechetti possui um respeitável currículo internacional. Na década de 80, estudou na prestigiada Escola Juilliard, em Nova York. Esses primeiros anos nos Estados Unidos renderam uma gafe: durante uma aula de regência no Festival de Tanglewood, em Massachusetts, Mechetti chamou o fagotista da orquestra de "fagot". O maestro Leonard Bernstein, seu professor, puxou Mechetti de lado para explicar que fagote em inglês era "bassoon" - e que "fagot" era um feio palavrão. Anos depois, já familiarizado com o inglês, Fabio Mechetti comandou a Sinfônica de Spokane, em Washington, e foi assistente do celista e maestro Mstislav Rostropovich na Orquestra Sinfônica Nacional de Washington. Atualmente, além de comandar a Filarmônica de Minas Gerais, Mechetti é diretor artístico da Orquestra de Jacksonville, na Flórida. Regente versátil, que vai do clássico ao contemporâneo, é também um especialista em ópera. Apresentou recentemente uma récita de Turandot, de Puccini, com a Orquestra de Jacksonville. Neste ano, será - como Isaac Karabtchevsky e a portuguesa Joana Carneiro - um dos regentes convidados da Osesp. Seu cartaz com os integrantes da orquestra está alto: foram os músicos que sugeriram seu nome como possível regente titular.

Maestro: Fabio Mechetti, brasileiro, 51 anos
Currículo: foi assistente do Mstislav Rostropovich na Sinfônica Nacional de Washington. Dirige a Sinfônica de Jacksonville, na Flórida, e a Filarmônica de Minas Gerais
Especialidades: os cânones da música erudita (Bach, Beethoven, Brahms) e o repertório clássico americano (Bernstein, Copland, Gershwin)
O que pode acrescentar à Osesp: a versatilidade comum aos grupos sinfônicos americanos

O balanço do vovô

Em abril, um dos músicos mais sexy dos Estados Unidos - segundo a revista de celebridades People desembarca no Brasil. Errou quem pensou em Justin Timberlake ou qualquer outro garotão do pop. O símbolo sexual em questão é o maestro e compositor Burt Bacharach, de 80 anos. "Fico lisonjeado ao saber que sou desejado, mas prefiro ser reconhecido pelo meu talento musical", disse Bacharach em entrevista a VEJA. (Puro jogo de cena: numa reportagem recente do jornal inglês The Times, ele fez questão de conversar com o repórter na piscina de sua mansão de 8 milhões de dólares, besuntado de protetor solar e trajando uma sunga diminuta.) O compositor vai se apresentar em Curitiba, Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. O repertório dos shows será calcado no disco Live at The Sydney Opera House, lançado no fim de 2008. Bacharach tem formação clássica. Foi aluno do compositor francês Darius Milhaud na década de 40. "Milhaud me ensinou duas coisas: não ter vergonha de criar melodias que as pessoas possam assobiar e apreciar a comida mexicana", diz ele. Melodista de primeira categoria, Bacharach dominou a parada americana na década de 60 com sucessos como I Say a Little Prayer, Walk on By e The Look of Love (as duas primeiras, interpretadas por Dionne Warwick; a outra, cantada magistralmente pela inglesa Dusty Springfield). Começou a perder fôlego na segunda metade dos anos 70 e nas décadas seguintes virou sinônimo de música para elevadores e salas de espera. Sua obsessão pelo flugehorn, um instrumento de sopro que marca presença em 90% dos seus arranjos, só reforçava a aura de artista ultrapassado. Em 1997, contudo, Bacharach foi tirado desse limbo. Cruzou a linha que separa o cafona do cult. Apareceu na comédia Austin Powers e suas canções embalaram O Casamento do Meu Melhor Amigo, estrelado por Julia Roberts. No ano seguinte, uniu-se ao roqueiro inglês Elvis Costello para lançar o disco Painted from Memory. Desde então, seu trabalho foi revisitado por roqueiros de várias vertentes - de Noel Gallagher, do Oasis, ao duo The White Stripes. "Esses meninos mostraram que as boas canções não envelhecem", diz Bacharach, que atualmente compõe com outro "menino" (sob o seu ponto de vista): Brian Wilson, dos lendários Beach Boys, hoje com 66 anos. Retornos como o de Bacharach são um fenômeno relativamente raro na indústria musical. Não têm a ver propriamente com nostalgia, uma vez que o público que passa a reverenciar o veterano é jovem demais para se lembrar de quando ele estava no auge. São, antes, explorações da pré-história do pop e do rock. Por isso costuma haver um patrono do ressurgimento - alguém de idade intermediária, com autoridade para reapresentar ao mundo o "gênio esquecido". Elvis Costello desempenhou esse papel em relação a Burt Bacharach. Em 1993, Bono, do U2, fez o mesmo com Johnny Cash, que estava relegado ao mercado country. No caso de Tony Bennett, coube à MTV realizar a mágica do rejuvenescimento: em 1994, o canal de televisão convidou o jazzista a gravar um de seus especiais acústicos. Conhecido pela voz mansa e por seu sorriso largo, Bacharach é um homem charmoso. Embora ele próprio nunca tenha confirmado, reza a lenda que namorou ninguém menos do que a atriz alemã Marlene Dietrich na juventude (com a qual chegou a visitar o Brasil nos anos 50, quando ainda era um rapagão). Casado pela quarta vez, com Jane - professora de esqui que conheceu nas pistas de Aspen, nos Estados Unidos -, Bacharach é pai de um casal de adolescentes de 13 e 16 anos. Há dois anos, perdeu de forma trágica sua primogênita. Fruto de seu casamento com a atriz Angie Dickinson (uma espécie de Pamela Anderson dos anos 70), a filha Nikki sofria de um transtorno semelhante ao autismo. Mas nem seu suicídio, aos 40 anos, tirou de Bacharach o prazer de rodar o mundo com sua música.

Concerto encerrado

Depois de doze anos de trabalho, o ciclo do maestro John Neschling à frente da principal orquestra brasileira, a Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), chegou ao fim. Na quarta-feira passada, ele foi demitido pelo conselho que administra a instituição. Seu substituto para as temporadas de 2009 e 2010 deverá ser o francês Yan Pascal Tortelier, que esteve à frente da Filarmônica da BBC, na Inglaterra, e causou excelente impressão entre os músicos da Osesp no ano passado, ao conduzi-los numa série de concertos. Estuda-se a contratação de um regente brasileiro para dividir as datas com Tortelier. Um novo diretor artístico ¿ cargo que Neschling acumulava ¿ só deverá ser empossado em 2011. Um comitê formado por músicos, conselheiros da orquestra e dois consultores internacionais foi criado para chegar ao nome. O contrato de Neschling com a Osesp terminaria em 2010. Em junho do ano passado ele anunciou que, naquela data, deixaria de fato a orquestra. Foi uma cartada política ¿ uma tentativa de angariar apoios que o levassem a um "dia do fico". A administração da orquestra, contudo, começou realmente a programar sua saída. Concluiu que, depois de uma gestão brilhante, Neschling estava desgastado politicamente e, mesmo no âmbito do trabalho artístico, já não contava com o apoio incondicional dos músicos. A gota-d¿água para que o demitissem foi uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo na qual o maestro criticou o conselho da orquestra e o plano para substituí-lo. As declarações o deixaram isolado. Sua demissão foi assinada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que encabeça o conselho da Osesp e foi, por muito tempo, seu principal apoiador. "Estou em conferência com meus advogados para decidir o que faremos em seguida", disse Neschling a VEJA na semana passada. O processo de reestruturação da Osesp é ambicioso, a começar pela escolha dos consultores internacionais. Henry Fogel, ex-presidente da Liga das Orquestras Americanas, e Timothy Walker, diretor artístico da Filarmônica de Londres, gozam de grande respeito no mundo erudito. O diagnóstico inicial da dupla foi que a Osesp, no atual estágio de seu desenvolvimento, deveria trocar de diretor artístico a cada quatro anos, em média. A rotatividade faria com que o grupo ganhasse versatilidade. Os músicos também procuram influir no processo de renovação. Produziram uma lista de maestros-visitantes que, em anos recentes, brilharam à frente da Osesp. Entre os nomes brasileiros, destaca-se apenas o de Fabio Mechetti, atual diretor musical da Filarmônica de Minas Gerais. Mechetti, hoje com 51 anos, estava cotado para assumir a Osesp em 1996 ¿ quando o cargo foi entregue a Neschling.

A melhor expressão do jazz

Em 1958, o baterista Jimmy Cobb estava em sua casa em Nova York quando recebeu um telefonema de Miles Davis. "Você quer fazer parte do meu grupo? Estamos em Boston e tocamos daqui a três horas", perguntou o trompetista. Cobb bem que tentou explicar que Boston ficava a 350 quilômetros de distância de Nova York e que ele gastaria mais de três horas só para chegar ao local da apresentação. Mas, diante da ordem de Davis, preferiu jogar sua bateria dentro do táxi, rumar para o aeroporto e chegar a tempo de tocar Round Midnight, a canção que abria o show. Integrado ao conjunto de Davis, um ano mais tarde ele participaria das gravações de Kind of Blue, o disco mais célebre da história do jazz ¿ e um dos mais sublimes da música popular. É de Cobb, aliás, a frase que melhor define a atmosfera do álbum, para gerações de leigos e especialistas igualmente apaixo-nados: "Ele foi feito no céu". O baterista, que completou 80 anos na semana passada, é o último remanescente do grupo que gravou Kind of Blue. Nos dias 14 e 15 de maio, ele e os integrantes da So What Band, formada por discípulos de Davis, deverão tocar em São Paulo o repertório que, em 2009, completa cinquenta anos. Antes disso, edições comemorativas do álbum chegarão às lojas brasileiras. "As composições de Kind of Blue são de um momento especial, quando cada um de nós queria mudar os rumos da música", disse o baterista em entrevista a VEJA. Gravado nos dias 2 de março e 22 de abril de 1959 em Nova York, numa antiga igreja armênia transformada em estúdio, Kind of Blue é para muitos a melhor expressão do jazz ¿ pois nele se unem melodia e improvisação. Pouco antes, o jazz havia sido chacoalhado pela ventania do bebop, um estilo que buscava ousados saltos de oitavas e notas inesperadas. Pouco mais tarde, com o advento do free jazz, os músicos abraçariam a cacofonia. Kind of Blue foi um exercício de "jazz modal", no qual os solistas improvisavam sem jamais perder de vista a linha melódica e a harmonia. Além de Davis e Cobb, participaram da gravação os pianistas Bill Evans e Wynton Kelly, os saxofonistas John Coltrane e Julian "Cannonball" Adderley e o baixista Paul Chambers, todos supremamente entrosados. Quase todas as músicas foram gravadas numa única tomada. "Miles adorava quando improvisávamos. A única ordem que ele me deu foi para que fizesse a bateria flutuar em Blue in Green", diz Cobb. Estima-se que Kind of Blue já tenha vendido 5 milhões de unidades no mundo inteiro. Mais importante que a vendagem, contudo, é a sua influência. Tornou-se a bíblia de grandes nomes do jazz, como o maestro Quincy Jones, que certa vez declarou: "Eu ouço Kind of Blue todo dia. É o suco de laranja do meu café-da-manhã". No rock, Carlos Santana e Duane Allman, dois gênios da guitarra, desenvolveram seu estilo de improvisação graças às composições de Davis, e Rick Wright, tecladista do Pink Floyd, "surrupiou" temas desse disco clássico em The Dark Side of the Moon. Talvez a melhor definição do impacto causado pelo disco seja a de Herbie Hancock, outro pupilo de Davis: "Quem é tocado por essa música muda para sempre. E se torna melhor do que é".

"Eu me sentia rejeitado"

Na sexta-feira passada, a Rede Globo exibiu o último capítulo da minissérie Maysa ¿ Quando Fala o Coração. Biografia romanceada da cantora carioca Maysa (1936-1977), ela obteve a excelente média de audiência de 29 pontos ¿ mas foi também uma vitória pessoal de seu idealizador, o diretor Jayme Monjardim. Filho de Maysa com o industrial André Matarazzo, Monjardim nasceu em maio de 1956 na cidade de São Paulo. No ano seguinte, seus pais se separaram. Com a morte de Matarazzo, em 1964, Maysa colocou Jayme num colégio interno na Espanha. A decisão deixou profundas marcas no filho. Jayme se sentiu rejeitado e passou anos sem falar com a mãe. Ele e Maysa se reconciliaram em 1975, dois anos antes da morte da cantora. No fim dos anos 70, ele ingressou no mundo artístico. De seu currículo constam sucessos de audiência como Pantanal, na extinta Rede Manchete, e O Clone, na Rede Globo. Cinco anos atrás, fez sua estreia no cinema com o filme Olga, que teve mais de 3 milhões de espectadores. Monjardim falou com a reportagem de VEJA em sua casa no Rio de Janeiro.

Depois da morte de seu pai, sua mãe o deixou num internato na Espanha. O senhor ficou lá dos 7 aos 17 anos. Qual foi o peso dessa experiência?
Em quase dez anos, minha mãe nunca me visitou e me mandou apenas duas cartas. Nas vezes em que saí do colégio para encontrá-la, fui incorporado à equipe que a acompanhava em seus shows. Fiquei noites intermináveis sentado em banquinhos, esperando o fim de uma apresentação. Ou então trancado num quarto de hotel. Lembro de dizerem: "Fechem a porta para o Jayminho não fugir". Foi um período terrível, de muita angústia.

Sua mãe chegou a lhe explicar a razão de um afastamento tão prolongado?
No fim da vida de minha mãe, toquei nesse assunto. Ela não soube responder. Disse que já não lembrava o motivo de me deixar na Espanha, longe da família e do Brasil. Ela mesma, quando criança, foi para um colégio interno ¿ mas por apenas dois anos. Gosto de pensar que entre as motivações, fossem quais fossem, houve algumas positivas. Minha mãe queria que eu tivesse uma cultura europeia para, quem sabe, assumir a administração dos negócios deixados por meu pai. Suponho que também quis, de alguma forma, me preservar de seus próprios problemas ¿ com álcool, por exemplo.

O senhor chegou a odiar sua mãe?
Ódio é uma palavra forte demais. Houve um período na infância em que o sentimento dominante foi de rejeição. Eu me perguntava cotidianamente o que havia feito de errado para ser esquecido tão longe, num colégio interno em outro país. Depois veio a revolta. A gota d¿água se deu em 1970, quando voltei ao Brasil ¿ e ela não foi me buscar no aeroporto. Fui para a casa dela e tivemos uma briga homérica. Tempos depois, fui morar em São Paulo com os meus tios. Nosso afastamento parecia irremediável. Mas então, cerca de dois anos antes de sua morte, fui visitá-la em sua casa em Maricá, no litoral do Rio de Janeiro, e criamos um novo laço.

O que aconteceu nesse reencontro?
Eu estava partindo para uma viagem quando senti o impulso de visitar minha mãe. De repente, eu me dei conta de que ela tinha se tornado uma mulher muito solitária ¿ e eu nem sequer falava com ela. Tivemos uma linda conversa e segui viagem. Quando voltei, retomei o contato. Em um ano e meio, recuperamos dezoito anos de estranhamento. Viajamos juntos, rimos e sofremos juntos. A partir daquele encontro, eu passei a defender minha mãe na imprensa e briguei com inúmeras pessoas que insistiam em lhe oferecer bebida.

O senhor viu sua mãe alcoolizada?
Infelizmente, sim. Nada é mais desagradável do que ver seu pai ou sua mãe tendo uma crise de alcoolismo. Eles perdem a razão e às vezes tomam atitudes para as quais você não está preparado ¿ por exemplo, pular de um carro em movimento. Até hoje me lembro em detalhes de alguns desses momentos terríveis. Os cheiros, os sons estão marcados a fogo na minha cabeça. Havia duas Maysas. A primeira era uma pessoa alegre, amorosa e descontraída. A segunda era a Maysa que bebia e ficava agressiva e temperamental.

Há um momento da infância que o senhor relembre com carinho?
A melhor lembrança que tenho é de quando ela cantava para mim. Eu estava ali, sentado na coxia de um teatro, e de repente minha mãe saía do palco e cantava A Noite do Meu Bem olhando para mim. Ela me encarava de tal maneira que eu ficava numa confusão de sentimentos. Muito emocionado ¿ a tal ponto que, às vezes, chegava a sentir medo.

É verdade que sua iniciação sexual ocorreu com a ajuda de sua mãe?
A escola em que estudei era extremamente rigorosa. Era simpática ao ditador espanhol Franco e os professores nos batiam por qualquer motivo. Nesse ambiente repressor, era difícil até olhar para uma mulher. Para dar uma ideia da situação, nós íamos à loucura ao ver os joelhos das meninas que arrumavam nossos quartos e limpavam nossos sapatos antes da hora de dormir. Então, aos 13 anos, eu fiz uma das minhas visitas ao Brasil. Numa conversa, minha mãe me perguntou se eu já tinha tido alguma espécie de contato com uma mulher. Eu disse que não. Ela então me disse: "Tenho uma amiga que quer te levar para passear, conhecer os lugares bonitos do Rio". Saí com essa mulher e aconteceu. Não foi uma relação profissional. E também não foi uma atitude constrangedora por parte de minha mãe. Foi uma das boas coisas que ela fez por mim.

Sua mãe foi uma transgressora?
Sim. E essa foi uma das características de sua história que me motivaram a fazer a minissérie. Maysa foi transgressora porque ousou viver com prazer e sofreu profundamente. Muitas pessoas sonham em ser como ela, mas lhes falta coragem para isso. Minha mãe falava o que pensava, nunca teve meias palavras e foi intensa em todos os sentidos. Isso é raro. Todo mundo se esconde atrás de uma máscara. Maysa, não. Nunca teve vergonha de assumir o que era e sabia que despertava nas pessoas à sua volta uma sensação de preocupação e medo.

Qual a importância musical de Maysa?
Ela representou a transição do período das cantoras do rádio para a bossa nova. Começou como uma mulher que, ousadamente, despejava seus sentimentos na canção. Quando a bossa surgiu, aderiu ao novo gênero. O disco Barquinho, de 1961, foi um dos primeiros lançamentos de uma grande cantora a trazer compositores de bossa nova. Ela também foi a primeira artista a levar a bossa nova para os palcos internacionais. No exterior, era acompanhada pelo Tamba Trio. O escândalo é que os artistas de bossa nova mal tocam no nome da minha mãe. Somente o Roberto Menescal lhe dá o devido valor. A maioria se refere a ela como "a cantora que namorou o Ronaldo Bôscoli". Ninguém diz que Barquinho teve uma repercussão maior do que a de qualquer outro disco de bossa nova lançado naquele momento, muito menos que foi ela quem levou João Gilberto para cantar na televisão pela primeira vez. Minha mãe foi injustiçada.

A série transmite a ideia de que o grande amor de Maysa foi seu pai, André Matarazzo. Foi isso mesmo?
Não tenho dúvida de que ela morreu apaixonada pelo meu pai. Ela estabelece isso muito bem em seu diário. No dia em que conheceu meu pai, escreveu: "Hoje eu encontrei o homem da minha vida". Minha mãe era obcecada pela ideia de ser muito feliz, de se relacionar com um homem que a aceitasse como ela era. E se sentiu muito frustrada em não poder realizar essa ideia com o André. Durante muitos anos, procurou em outros homens uma relação de amor como ela encontrara com meu pai. Para mim, ela morreu amando meu pai. E o Manoel Carlos, que escreveu a minissérie, também acha isso.

Por que o senhor aboliu o sobrenome Matarazzo?
Porque quando eu comecei a trabalhar como cineasta as pessoas implicavam com o sobrenome Matarazzo. Eu ia pedir patrocínio para fazer meus filmes e tinha de ouvir as pessoas falando: "O cara é Matarazzo, não precisa de dinheiro para nada e vem se meter a fazer cinema?". Elas achavam que o patrocínio só era válido para os cineastas que tinham nascido pobres e ralavam na vida. Eu comecei a me sentir discriminado porque me chamava Matarazzo e não podia fazer cinema. Passei a assinar Jayme Monjardim porque as pessoas iam falar que, sendo filho de artista, eu podia ter mais chances.

De que maneira esses sentimentos de filho interferiram em seu trabalho ao dirigir Maysa?
Quando Manoel Carlos aceitou escrever o roteiro da série, teve essa exata preocupação. Insistiu que eu teria de esquecer os vínculos pessoais, caso contrário o trabalho seria impossível. Eu sabia que era capaz de alcançar o distanciamento necessário, não apenas porque tenho 52 anos e sou um profissional maduro, mas também porque já sofri tudo o que tinha de sofrer e já expiei tudo o que havia para expiar no que diz respeito à relação com minha mãe.

Houve momentos da gravação em que o senhor deixou esse distanciamento de lado?
Sim, houve alguns momentos em que fiquei emocionado. Como na cena do acidente de carro que tirou sua vida ou na cena em que a gente se despede. Mas eu tinha um compromisso com o elenco. Não podia simplesmente cancelar a gravação e dizer: "Gente, hoje não vamos gravar porque estou emocionado". Eu fazia as cenas e depois ia chorar no meu canto.

Como a minissérie vai se refletir em sua carreira?
Posso dizer tranquilamente que minha trajetória se divide em a.M. e d.M. ¿ antes e depois de Maysa. A série é muito rica em detalhes. Tive a oportunidade de me esmerar na direção de arte, de trabalhar a luz de cada cena, de usar um elenco de atores pouco conhecidos e burilar cada personagem, de editar com tempo e carinho. A minissérie foi um enorme passo à frente para mim. Além de todo o significado pessoal.

Qual sua ambição como diretor?
Quero fazer filmes populares, para a massa. Em vez de ser o Antonioni, quero ser o Fellini. Em vez de ser o François Truffaut, quero ser o Steven Spielberg. E decidi que não vou mais me importar com certos preconceitos do meio artístico brasileiro. Em outros países, a classe artística reverencia quem está indo bem. Aqui, você faz um filme com mais de 3 milhões de espectadores, como foi meu caso com Olga, e seus colegas ficam com raiva. Nenhum deles liga, nem que seja para lhe dizer: "Olha, eu não gostei do filme, mas o sucesso contribui para o cinema brasileiro".

Duas mulheres com quem o senhor foi casado tiveram papel de destaque em suas novelas. Em Maysa, o senhor empregou dois filhos. Isso não é nepotismo?
Anos atrás, era comum deparar com grandes diretores da Globo casados com estrelas. Era o Paulo Ubiratan casado com a Natália do Vale, o Roberto Talma casado com a Maria Zilda. Por conta disso, virou comum achar que determinada atriz tem um papel de destaque porque está casada com o diretor de novela. Nada disso. Ingra Liberato e Daniela Escobar, pessoas com quem eu tive um relacionamento e por acaso tive a felicidade de dirigir, são grandes atrizes. Não posso negar à minha mulher um trabalho que ela mereça fazer. Com Jayminho e André, que aparecem em Maysa, aconteceu a mesma coisa. O Manoel Carlos pediu para eles fazerem um teste. Na hora, eu fiquei apreensivo porque era uma exposição muito grande. Mas o Jayminho fez o teste e conquistou o papel graças a seu talento. Já dei oportunidade a tanta gente nova, por que negaria uma chance a minhas mulheres e meus filhos?

O senhor se considera um bom pai?
Tive uma dificuldade imensa em ser pai. Como eu poderia dar afeto e atenção se não sabia o que era isso? Jayminho e Maria, meus filhos mais velhos, sofreram muito. Não dei 20% do que um bom pai poderia dar. Eu era ausente, e me escondia atrás do trabalho. Com meu filho mais novo, André, creio que cheguei aos 80%. Espero que alcance a marca de 100% caso tenha outro filho.

Um erudito à brasileira

A menção aos artistas viajantes do século XIX faz pensar em pintores como Debret e Rugendas, europeus cujas obras constituem documentos essenciais para quem deseja conhecer o Brasil daquele tempo. Muito menos lembrada é a existência de um "músico viajante", o austríaco Sigismund Neukomm (1778-1858), que desembarcou no Brasil em 1816, ao lado de um emissário do rei francês Luís XVIII. Ele viveu no Rio por cinco anos e aqui compôs 45 obras – algumas inspiradas em ritmos folclóricos. O CD Neukomm no Brasil, que chega nesta semana às lojas, traz seis peças que nunca haviam sido gravadas em disco e é um registro singular da passagem desse discípulo de Haydn pelo país. Não apenas discípulo: Neukomm se orgulhava de ter sido o "aluno predileto" de Joseph Haydn, um dos nomes centrais da música erudita, responsável, entre muitos outros feitos, pelo desenvolvimento do formato sinfônico. Em 1809, após perambular pelas cortes de São Petersburgo e Viena, Neukomm se mudou para Paris e caiu nas graças do príncipe Talleyrand. Esse grande vulto da política francesa do século XVIII o tornou uma espécie de compositor oficial e depois incluiu seu nome na missão enviada ao Brasil. Quando Neukomm chegou ao Rio, num período de efervescência depois da mudança da família real portuguesa para a colônia, encontrou dois compositores de prestígio – o padre José Maurício Nunes Garcia e Marcos Portugal. Com sua formação esmerada, não tardou em reinar. Compôs a Grande Missa da Aclamação, escrita em 1818 para homenagear a rainha Maria I, e, um ano depois, apresentou um movimento final para o célebre Réquiem que Mozart deixara inacabado ao morrer, em 1791. A maior contribuição de Neukomm, contudo, foi trazer a música de câmara ao Brasil. Nunes Garcia e Portugal faziam composições para ser mostradas no Real Teatro ou na Capela Real. Neukomm criou peças virtuosísticas, tocadas por ele e pelo flautista Pierre Laforge nos salões da nobreza. É esse gênero que se faz presente em Neukomm no Brasil, em interpretações de Rosana Lanzelotte (pianoforte) e Ricardo Kanji (flauta), instrumentistas com trânsito livre pelas principais salas de concerto do mundo. Se pintores como Rugendas permitiram que o mundo conhecesse as paisagens e os costumes brasileiros, Neukomm, apesar de demonstrar algum interesse pelo folclore local, foi mais importante por trazer ao país a música européia. Contemporâneo de gênios como Beethoven e Schubert, ele acabou eclipsado, apesar de sua copiosa produção de 1.800 obras. Mas não merece o esquecimento, por seu papel de agente da cultura entre a elite brasileira do século XIX.

No palco com Madonna

Na quinta-feira passada, em Buenos Aires, Madonna lançou mão de uma única frase em espanhol ao falar com os 60 000 fãs argentinos que assistiram à sua apresentação no estádio de futebol do River Plate. "Estoy linda?", gritou ela à multidão. Nem todos concordarão com a escolha da palavra. O que não se pode negar é que, com seu corpo diminuto esvaziado de qualquer gordura e mais musculoso que nunca, Madonna conquistou uma extraordinária presença física. Algo que os brasileiros também poderão comprovar entre os dias 14 e 20, quando a cantora americana sobe ao palco no Rio de Janeiro e em São Paulo, quinze anos depois de sua única passagem anterior pelo país. Mais do que sobre transgressão, sexo ou espiritualidade, temas constantes em sua carreira, o show Sticky & Sweet (Grudento & Doce) é uma celebração do corpo – e do corpo de Madonna especialmente, seu vigor e tenacidade aos 50 anos. Ela se contorce em coreo-grafias variadas, caminha incessantemente por uma plataforma de 17 metros e até mesmo pula corda, numa demonstração cabal de condicionamento aeróbico, durante quatro minutos da canção Into the Groove. Embora o show dure exata uma hora e meia, ninguém duvida quando Madonna afirma, num dos versos da canção Heartbeat, que "é capaz de se manter acesa a noite inteira". A impressionante forma física que permite que Madonna, aos 50 anos, continue a estrelar o tipo de megaespetáculo que burilou em mais de duas décadas de carreira, é um trunfo particularmente importante no atual momento da indústria musical. Em anos recentes, a internet demoliu o modelo tradicional de negócio das grandes gravadoras. A venda de discos caiu e os shows ganharam relevância inaudita como fonte de receita para os artistas. Em outubro do ano passado, Madonna deixou sua gravadora de longa data, a Warner, e ligou-se à Live Nation, uma das principais promotoras de shows dos Estados Unidos. "Se o paradigma mudou, eu, como artista e mulher de negócios, também tenho de mudar", declarou a cantora ao assinar o contrato que lhe rendeu 120 milhões de dólares (25 dos quais em ações da companhia). A turnê Sticky & Sweet foi o primeiro fruto da parceria. Estima-se que vá render a soma recorde de 280 milhões de dólares (a marca anterior também era de Madonna: 193 milhões de dólares com Confessions Tour, de 2006). O contrato com a Live Nation estende-se por dez anos. Será mesmo que Madonna espera manter esse pique aos 60? Alguém dirá que Mick Jagger faz exatamente isso – mas ninguém sabe se a mesma boa vontade reservada pelo público a um "dinossauro do rock" vai se estender a uma diva do pop. Dada sua proverbial capacidade de se reinventar, não é improvável que a cantora desenvolva no futuro uma nova fórmula de apresentação. Por enquanto, continua fazendo o que se pede dela, com a excelência que astros mais jovens de seu segmento não conseguem alcançar. Vários desses astros, aliás, pagam tributo a Madonna em Sticky & Sweet. O palco, que leva cinco dias para ser montado, conta com diversos telões de alta definição, nos quais Justin Timberlake, Kayne West, Pharrell Williams e Britney Spears aparecem para dialogar com a cantora (no meio de tanta dança e agitação, esses são, aliás, os únicos momentos em que ela pára para respirar). Embora quase tudo no show seja coreografado e cronometrado, deixando pouco espaço para improvisações, pequenas mudanças vêm sendo feitas no decorrer da turnê. Em suas primeiras apresentações, por exemplo, Madonna dedicava a canção Miles Away aos "emocionalmente retardados" – uma referência ao cineasta inglês Guy Ritchie, com quem discutia os termos de um divórcio. Recentemente, o casal chegou a um acordo. Ritchie desistiu de embolsar uma parcela da fortuna da cantora, estimada em cerca de 400 milhões de dólares. Divergências sobre a maneira de educar os filhos também parecem ter sido superadas. A farpa dirigida ao ex-marido desapareceu do show. (E, como o tema é vida amorosa, sites e colunas de fofoca dão por certo que o jogador de beisebol Alex Rodriguez, com quem Madonna estaria tendo um caso, virá se juntar a ela nesta semana, no Brasil.) Outro elemento deixado de fora é um trecho do vídeo que acompanha a interpretação de Get Stupid. Nesse vídeo estapafúrdio, há imagens de líderes e celebridades "malvadas" e "benignas". Durante a campanha presidencial americana, o candidato republicano John McCain foi incluído no primeiro time, ao lado de carniceiros como Hitler e Pol Pot, enquanto o candidato democrata Barack Obama aparecia na companhia do Dalai-Lama e de Madre Teresa de Calcutá. Definida a vitória de Obama, Madonna, a magnânima, condescendeu em retirar McCain do rol dos monstros. Em sua passagem pela América do Sul, contudo, a cantora não abriu mão de uma agenda política. Na Argentina, encontrou-se com a presidente Christina Kirchner e com Ingrid Bentancourt, a política colombiana que passou seis anos como prisioneira das Farc. No Brasil, deve encontrar-se com o presidente Lula. E daí? E daí nada. Como disse o jornal britânico The Guardian, o verdadeiro gênio de Madonna está em seu corpo. Todo o resto é mera distração.