segunda-feira, 29 de março de 2010

Touro sentado

O guitarrista americano B.B. King tem 84 anos, sofre de diabetes há mais de duas décadas, é hipertenso e odeia ginástica. Nos últimos anos, o excesso de peso lhe trouxe problemas nos dois joelhos, que o obrigam a tocar sentado. Mas a saúde claudicante não lhe tirou o prazer de subir ao palco. Ele "reduziu o ritmo", ainda que faça mais de 100 apresentações por ano. Na segunda quinzena de março, desembarca no Brasil para shows no Rio, São Paulo e Brasília. "Há uma atividade física que não abandono, andar de um saguão do aeroporto para outro", diz. São apresentações imperdíveis. Ele criou um estilo próprio, com staccati e vibratos delicados, que nos anos 50 foram assimilados por artistas de rock. Sua música atravessou o oceano e influenciou artistas como Keith Richard e Eric Clapton, que na década seguinte invadiram as paradas de sucesso americanas. B.B. King é o último pioneiro vivo do blues.
Riley B. King nasceu nos arredores de Indianola, cidade do estado americano de Mississippi, em 16 de setembro de 1925. Quando King completou quatro anos, seus pais se separaram. Ele foi morar com a mãe e a avó e, aos dez anos, já trabalhava nos campos de algodão. Ganhava 35 centavos de dólar por dia. Nas plantações, ouvia os cantos entoados pelos catadores, que estão na raiz do blues. Uma de suas tias possuía um fonógrafo. Sua maior diversão passou a ser escutar os discos de Blind Lemon Jefferson e Mississippi John Hurt. Ele comprou sua primeira guitarra aos doze anos. "Era acústica porque não havia eletricidade na minha casa", diz. Em 1946, mudou-se para Memphis decidido a se tornar músico e, três anos depois, já era um artista em ascensão. Adotou o nome artístico de B. B. King: o B.B. quer dizer Blues Boy.
De todos os gêneros de música negra que floresceram no começo do século XX nos Estados Unidos, o blues foi o mais marcado pela memória da escravidão. O jazz tinha um espírito de liberdade e desafio (traduzido na improvisação), o rhythm'n'blues exaltava a sexualidade e o soul era celebratório. Mas o blues - palavra que em inglês quer dizer "tristeza" - remetia à vida nas senzalas ou à miséria dos negros no período posterior à abolição. Não por acaso, quando o movimento dos direitos civis ganhou força nos Estados Unidos, em meados do século XX, os jovens negros passaram a rejeitar esse tipo de música. "King então se voltou para a América branca. Ele apresentou o blues a esse público", explica Peter Guralnick, historiador e crítico musical. O fato de tocar para brancos lhe rendeu apelidos como Pai Tomás (em alusão à figura do negro dócil, eternizado no livro da escritora Harriet Beecher Stowe). "Os insultos me machucaram, mas não me destruíram. Para mim, o racismo não se combate com violência, mas com trabalho e educação", diz ele. O preconceito racial é um tema central na autobiografia de King. Ele o aborda com indignação, mas sem raiva. Lembra do bisavô escravo e de ter de caminha nove quilômetros, todos os dias, para chegar a uma escola que aceitava negros. Diz que as imagens de um linchamento que presenciou na infância o perseguem até hoje. E fala do período que passou no Exército, aos dezoito anos. "Os soldados brancos preferiam senta-se ao lado dos prisioneiros alemãs a ficar conosco. Sentiam-se mais à vontade com pessoas que poucos dias antes estavam matando americanos."
King tem quinze filhos com quinze mulheres (mas só se casou duas vezes) e atualmente está solteiro. É dono de uma rede de restaurantes - a B.B. King Blues & Grill -, mas a música é seu principal negócio: estima-se que ele tenha vendido mais de 40 milhões de discos ao redor do mundo. Nesta década, lançou álbuns importantes como Riding with the King, parceria com o discípulo Eric Clapton. Seu CD mais recente chama-se One Kind Favor e foi lançado em 2008. "Existe a história do bluesman que vende a alma ao diabo para tocar melhor. Talvez eu tenha topado com ela, mas nunca o reconheci", diz. "E não é necessário ser triste pobre para tocar blues. Sou bluesman. E sou feliz."

O Império dos Coxinhas

Chris Martin é um sujeito exemplar. Vocalista e líder do Coldplay, que desembarca essa semana no país para apresentações no Rio de Janeiro e em São Paulo, ele não perde a chance de ajudar os mais necessitados. No fim de 2009, leiloou antigos instrumentos pela internet para arrecadar fundos para uma instituição que cuida de menores carentes. No mês passado, fez o mesmo com uma jaqueta autografada, para auxiliar as vítimas do terremoto no Haiti. Martin raramente fala mal de outros artistasm mesmo quando é provocado - e quando o faz, arrepende-se. Nas letras do Coldplay, o amor é lindo (ou amarelo, como prega Yellow, um de seus maiores sucessos). "Não sou bonzinho. Quando terminar a entrevista, irei para a rua e darei um soco na primeira velhinha que vir pela frente", disse Martin, em entrevista à VEJA. Nem precisa dizer que era brincadeirinha. Melódico, o Coldplay é a melhor banda a fazer essa linha "macho delicado". Já a choradeira do cantor James Blunt e de grupos como Keane e Travis com frequência ultrapassa a linha do suportável. Díspares no talento musical, esses artistas pertencem todos à mesma família espiritual: são os coxinhas. Muito empregado em sites de música e cultura pop, o termo designa o roqueiro bom moço (veja exemplos abaixo), cuja música se livrou de qualquer traço da agressividade que em priscas eras fazia do rock um gênero musical temido por pais de adolescentes.
O pop nunca viveu sem coxinhas - até os Beatles, nos primeiros anos de sucesso, tiveram sua fase coxinha, entoando "she loves you yeah yeah yeah" com terninhos aprumados. Anos atrás, a revista americana Blender traçou a genealogia do pop wussy - palavra que literalmente se traduz como "maricas" mas que, com alguma liberdade, pode ser equivalente a "coxinha". O pioneiro, na década de 50, foi o cantor Pat Boone, que consagrou o estilo "roqueiro para casar". Nos anos 70, o cantor James Taylor foi o coxinha-mor, com suas baladas suaves (ainda que os temas fossem pesados: Taylor falava de seu vício em drogas). No pós punk dos anos 80, a melancolia queixosa de Robert Smith, líder do grupo The Cure, e a correção política militante de Bono, do U2, deitaram as fundações para o atual império dos coxinhas.
Os tempos de hoje favorecem o modo de vida coxinha. A rebeldia roqueira desgastou-se, e público nenhum aguenta ser insultado por bandas cuja apresentação no palco é claudicante (foi por isso, aliás, que o Oasis, que nos anos 90 se anunciava como a nova onda britânica, não conquistou o mercado americano como o Coldplay fez). O pop, além disso, acomodou-se à correção política (e sexual). A ostenteção priápica de um Mick Jagger, de de canções que marcaram os anos 70 como Whole Lotta Love, do Led Zeppelin, não têm lugar no rock atual, que ficou um tanto emasculado. O músico coxinha, aliás, quase nunca fala abertamente em sexo. Uma exceção é a recente entrevista do guitarrista John Mayer à Playboy americana. Praticamente de um pop com um pé no blues e outro na água com açúçar, Mayer tenta sacudir sua fama de bom moço - mas o faz de modo ainda hesitante. De um lado, admitiu gostar de pornografia ("antes do café da manhã") e falou de sua relação com a cantora Jessica Simpson ("sexo com ela era como crack: viciante"). Mas ele também se declarou ainda apaixonado por outra ex-namorada, a atriz Jennifer Aniston (celebrizada por Friends, outro seriado coxinha). Mayer disse que hoje prefere a masturbação ao sexo. E, como todo bom coxinha, já se arrependeu do que falou. Pediu desculpas por ter emprego, na revista, a palavra nigger, considerada racista.
A manifestação mais extrema desse fenômeno é a onda emo, com suas bandas tristonhas e afetadas. A mais notória é a Fall Out Boy, que recentemente eviscerou Beat It, de Michael Jackson, em uma cover sem alma na qual John Mayer toca guitarra. Os emos, porém, são uma tribo, um nicho do pop. O domínio coxinha é mais amplo. Com 40 milhões de discos vendidos no mundo (550 000 no Brasil), o Coldplay puxa o cordão dessas criaturas ternas. É por causa do sucesso, aliás, que Chris Martin se sente obrigado a participar de campanhas de caridade. "A vida sorriu tanto para nós, e por isso sentimentos vontade de ajudar outras pessoas", diz o cantor. Fofo - e oleoso - feito uma coxinha..

SEM PIMENTA E SEM GRAÇA
O Coxinha e suas características

Evita falar mal de outros músicos - e, quando o faz, se arrepende
Depois de responder ironicamente a uma crítica de Liam Gallagher, líder do Oasis, Chris Martin, do Coldplay, passou uma noite inteira evitando encontrar-se com o desafeto em uma festa de premiação inglesa.

Faz a linha "homem sensível" - ou seja, é um chorão
Canções como You're Beautiful, de James Blunt, falam de amor com muito melado e pouca pimenta.

Quer ser reconhecido como "artista" e protesta quando os fãs o chamam de "bonitinho"
O guitarrista John Mayer gostaria de ser o novo Eric Clapton, mas está mais para o irmão mais velho dos Jonas Brothers

Está sempre envolvido em causas politicamente corretas
O trio Keane aderiu ao War Child, projeto que cuida de órfãos da guerra]

Bobagens que escutei

Em vinte anos de jornalismo, escutei muitas bobagens vindas de editores, repórteres e críticos de música. Vamos a algumas delas:

"E por acaso o nosso público gosta de heavy metal?"
(de uma antiga editora minha do Notícias Populares, quando apresentei uma pauta sobre o Sepultura. Foi uma das matérias mais lidas e comentadas da edição e motivou a criação de uma coluna sobre heavy metal, assinada pelo Ivan Miziara).

"Nosso público é preto, feio e pobre. Não quer ver pretos feios e pobres como abre de matéria."
(de outro editor do NP, quando sugeri uma capa dos Racionais MC's. Eu tinha assistido o grupo se apresentar mais para de 6 000 pessoas na quadra da Rosas de Ouro. Era lançamento do disco Raio X Brasil, o melhor deles).

"Cara, eles se vestem de Chapolim! Desse jeito, não vão a lugar algum!"
(de um companheiro meu de trabalho na BIZZ, após assistir ao Mamonas Assassinas. No ano seguinte, ele apostou que o grande sucesso da temporada seria o Maria do Relento. Como todos sabem, ninguém conhece o Mamonas e o Maria do Relento vendeu milhões de cópias).

"Olha, acho que já demos rap demais."
(de outro ex-editor, quando sugeri uma matéria sobre Smokey Robinson. Cinco minutos depois, acertei a minha saída de onde eu trabalhava).

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Mau gosto não se discute

"Escovo meus dentes com uma garrafa de Jack", diz a cantora americana Ke$ha, de 22 anos, em Tik Tok, single que a elevou ao topo da parada de discos americana. Jack, bem entendido, é o uísque Jack Daniel’s. A moça deve ter um hálito deleitável. Sua música é igualmente doce: embalada por um pancadão eletrônico (uma espécie de rap sem molejo), Ke$ha canta sobre noitadas, homens e bebedeiras. O clip de Tik Tok não é sutil na sua tradução visual da letra: Ke$ha acorda, toda amarfanhada, dentro de uma banheira, esfrega-se com um sujeito de bigodão asqueroso, é algemada por um policial, passa a madrugada pulando em uma casa noturna – e, no fim triunfal da jornada, capota mais uma vez dentro da banheira. As demais canções de Animal, disco que já vendeu 152 000 cópias nos Estados Unidos na primeira semana de lançamento, não são diferentes: relatos de baladas, com muito álcool e sexo. A escandalosa Amy Winehouse – que, ao contrário de Ke$ha, sabe cantar – pelo menos mostra uma certa ironia quando exalta seu jeito intoxicado de ser em Rehab. Ex-backing vocal de Britney Spears, Ke$ha não saberia ser irônica. Sua música é tão vulgar quanto o cifrão que ela pôs no meio do nome. Democrática, relativista, a cultura moderna diluiu as categorias tradicionais do gosto. E no entanto ainda há casos como o de Tik Tok, do qual se pode dizer de forma inequívoca: que negócio de mau gosto.
Em alguns casos, o mau gosto restringe-se ao campo mais ou menos inócuo do estilo. Tome-se, como ilustração, essa frase de O Símbolo Perdido, best-seller de Dan Brown: "Seu massivo órgão sexual trazia os símbolos tatuados de seu destino". Risível de tão ruim – mas não chega a ofender a dignidade de ninguém. O mesmo vale para a tocante cafonice da escocesa Susan Boyle, cujo disco I Dreamed a Dream foi desbancado do topo das paradas por Animal. Mas Ke$ha ultrapassa a barreira da baixaria pela maneira aviltante como representa sua personagem – o pop, afinal, é não só música, mas "atitude". Em entrevistas, a cantora atribui a suas canções um certo espírito de revanche feminista: "As pessoas se chocam com as minhas letras, mas não reclamariam se elas fossem do Van Halen ou do Guns N’ Roses. Estava na hora de os homens provarem um pouco de seu próprio remédio", declarou ao jornal inglês The Guardian. O argumento poderia valer para a Madonna dos bons tempos – a mulher sexy mas dominadora, que faz o que quer dos homens que a desejam. Mas a personagem de Tik Tok não é uma dominatrix – é, nos termos do funk carioca (outro estilo bem plantado no terreno da baixaria), uma cachorra. Essa figura despontou na música graças ao chamado gangsta rap do fim dos anos 80 – um gênero que glamourizava o crime e o machismo.
Também machistas, mas menos agressivas, as comédias estudantis americanas param bem perto da fronteira da baixaria (e até da pornografia). O gênero eclodiu com o sucesso do primeiro Porky’s, em 1982, e desde então nunca parou de dar dinheiro. Essa sexualidade adolescente, vulgar e incontrolável, que se vê, por exemplo, em American Pie estendeu-se a personagens adultos em Quem Vai Ficar com Mary?, dos irmãos Farrelly, e, mais recentemente, O Virgem de 40 Anos, de Judd Apatow. São filmes marcados por uma escatologia meio infantil, com piadas nojentas envolvendo vômito, urina e outras secreções – mas também são românticos, ternos quase, se comparados a Porky’s. Os filmes de terror B como Madrugada dos Mortos costumavam ocupar a mesma zona cinzenta do mau gosto inegável mas divertido. Sua sangueira podia até revoltar estômagos mais sensíveis, mas não aviltava o senso moral do espectador. A palavra inglesa "trash" – literalmente, lixo – designa bem esse tipo de produção. Recentemente, porém, um novo gênero de terror rompeu a fronteira que separa o trash da baixaria e da pura apelação: trata-se do "torture porn" (pornô de tortura). O apelo de séries cinematográficas como Jogos Mortais e O Albergue não é o terror, mas o sofrimento, infligido com métodos elaborados a belas jovens (o público desses filmes é majoritariamente masculino).
Sangue, sujeira, secreções – esses materiais baixos não rompem, por si mesmos, os limites do bom gosto. Há cenas escatológicas em clássicos literários de Rabelais ou Cervantes, e certas telas de Caravaggio têm mais sangue do que um filme de zumbi de George Romero. Uma certa cultura da provocação e do escândalo, de outro lado, valoriza excessivamente o material mais repulsivo, como os bichos embalsamados que o artista inglês Damien Hirst vende por dezenas de milhões de dólares. Mau gosto? O ricaço incauto que comprou um tubarão morto dirá que não, que Hirst está ironizando os cânones da grande arte etc. Esse clima de vale-tudo na arte contemporânea, em que ironia e impostura se confundem, sugere um mundo no qual a distinção entre bom e mau gosto perdeu o sentido. Outra linha crítica relativista, mais ligada à esquerda, tende a interpretar o gosto como um mero mecanismo de dominação – o bom gosto seria estabelecido pelos ricos como um meio simbólico de se distinguirem da ralé (o sociólogo francês Pierre Bourdieu sustentou um argumento dessa ordem em A Distinção, livro de 1979).
Os limites entre o belo e o feio, o vulgar e o refinado, o sutil e o grosseiro de fato são sempre imprecisos. Estão sujeitos aos caprichos de cada época – ou, no caso da moda, de cada temporada: a estampa de oncinha, que já foi o nadir do mau gosto, hoje está reabilitada (com parcimônia, claro: a calça de Ke$ha na foto que ilustra este texto ainda é lamentável). Mas será bobagem insistir na desgastada máxima segundo a qual "gosto não se discute" – até porque as mesas de bar seriam bem menos animadas sem essas discussões. "O gosto não possui um sistema e não possui provas. Mas existe uma espécie de lógica do gosto", dizia a escritora e crítica americana Susan Sontag em um ensaio dos anos 60. O gosto, afirma ainda a ensaísta, não se limita aos julgamentos artísticos: há gosto na emoção, na moral, e até a inteligência seria uma espécie de "gosto pelas ideias". Relativismos à parte, ainda existem algumas linhas claras para separar ironia de porcaria, luxo de lixo. Não são necessariamente elitistas aqueles que criticam o artista por ultrapassar as fronteiras do impróprio, da baixaria, da vulgaridade. Pelo contrário: sustentar a importância do gosto pode ser um exercício de liberdade do homem comum contra aqueles que têm cifrões na conta ou no nome.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Beyoncé, a poderosa

A revista Billboard, especializada em música pop, elegeu Beyoncé Knowles, de 28 anos, a mulher de 2009. Com mais de 25 milhões de discos vendidos em seis anos como artista-solo - aos quais se somam os 50 milhões de cópias do Destiny¿s Child, grupo em que começou a carreira -, a americana é de fato um colosso do showbiz. Na lista das 100 celebridades mais poderosas do mundo (seja lá o que isso for), publicada no ano passado pela revista Forbes, ela aparece em quarto lugar, atrás da atriz Angelina Jolie, da apresentadora Oprah Winfrey - e de outra cantora, Madonna, que, aos 51 anos, ainda bate na conta bancária a concorrente bem mais jovem. De acordo com a revista, Beyoncé tem ganhos anuais de 87 milhões de dólares, contra 110 milhões de Madonna. Na música pop, porém, o momento conta mais do que a história - e este é o momento de Beyoncé. Seu último disco, I Am... Sasha Fierce, vendeu 2,7 milhões de cópias nos Estados Unidos, enquanto Hard Candy, o mais recente de Madonna, ficou em 1 milhão. Beyoncé - que desembarca no Brasil no início de fevereiro para shows em Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador - é a voz mais ouvida nos iPods da moçada (e também está no aparelho do presidente Barack Obama, segundo declarou o próprio). Sua balada Halo foi a música mais executada nas rádios brasileiras em 2009. Ela embolsa 20 milhões de dólares anuais emprestando o rosto e todo o resto a marcas como L¿Oreal e Diamonds, perfume da grife Giorgio Armani. Mais do que a cantora do ano, Beyoncé é, até agora, a mulher do século no mundo pop. Os shows do I Am... Tour, que os fãs brasileiros poderão ver em breve, trazem aquele gigantismo característico das grandes estrelas da música americana: duas horas e meia de duração, com muita coreografia, telões e efeitos especiais - em certo momento, a cantora voa sobre a plateia, suspensa por cabos. O repertório alterna baladas chorosas como Halo com canções dançantes que misturam as batidas do hip-hop à soul music das décadas de 60 e 70. Beyoncé equilibra esses elementos com mais energia e carisma do que concorrentes como Rihanna ou Alicia Keys. Seus singles são o padrão-ouro do pop: fazem download instantâneo na cabeça de quem os ouve. Mesmo quando tratam de ciúme e desilusão amorosa, as canções de Beyoncé dão voz a personagens femininas poderosas, como a tal Sasha Fierce (o sobrenome, em inglês, quer dizer feroz, bravia) que dá título a seu mais recente disco. Mas ela divide as feministas. As mais radicais consideraram seu hit Single Ladies um retrocesso para a causa. Trata-se, afinal de contas, de uma mulher declarando que deseja uma aliança de casamento. Beyoncé, a propósito, é casada com o rapper Jay-Z. O maridão tem seu passado barra-pesada (já esfaqueou um desafeto), mas parece ter se aprumado. Ao contrário de divas barraqueiras como Britney Spears e Mariah Carey, Beyoncé é boa moça até prova em contrário. Mantém uma fundação, a Survivor, que presta assistência a pobres e a vítimas de catástrofes como a destruição de Nova Orleans pelo furacão Katrina, em 2005. Seu cachê no filme Cadillac Records, no qual interpretou a cantora Etta James, foi revertido para associações que cuidam de viciados em drogas. Na eleição presidencial de 2008, esteve engajada na campanha de Obama - até cancelou shows na Europa para fazer corpo a corpo (no caso, corpão a corpo) com eleitores na Virgínia e na Flórida. Valeu a pena: Obama convidou-a para fazer o show de seu baile inaugural na Presidência. O histórico de correção política da cantora foi arranhado no réveillon, quando fez um show particular, em uma ilha do Caribe, para Mutasim-Billah, filho do ditador líbio Muamar Kadafi. E o cachê até que foi baixo: 2 milhões de dólares. Provocativa, mas nunca vulgar, a música de Beyoncé alcança o público adolescente sem ofender os pais. Com seu ritmo fácil e repetitivo, Single Ladies até virou hit entre os bebês. O vídeo de um menino de fralda dançando em frente a uma TV que exibe o clipe da canção já foi visto mais de 7 milhões de vezes no YouTube. O pai do garoto até criou um site, a fim de arrecadar dinheiro para a futura educação universitária do pequeno dançarino. Esse apelo infantil, porém, é acidental: Beyoncé, com suas formas exuberantes (há especulações sobre implantes nos seios), é a estrela mais sexy da música atual. Com tendência a engordar, ela às vezes recorre a esquisitas dietas líquidas para vencer a balança. Também tem uma discretíssima celulite. Homens de verdade não fazem a mínima ideia do que seja celulite. Mas sabem que Beyoncé tem poder.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A guerra dos clones

O grupo jamaicano The Wailers Band, que acompanhou o astro do reggae Bob Marley (1945-1981) por mais de uma década, se apresenta nesta semana no Rio e em São Paulo. O show inclui hits do cantor e compositor jamaicano, como No Woman, No Cry e I Shot the Sheriff. The Original Wailers iniciou sua turnê por dezoito cidades brasileiras na semana passada. Nos shows, toca hits de Bob Marley, como No Wo-man, No Cry e I Shot the Sheriff. Não, você não leu errado: existem dois The Wailers fazendo shows no Brasil. The Wailers Band tem à frente o baixista Aston Barrett, que tocou de fato com Marley. The Original Wailers é uma dissidência do grupo de Barrett, liderada pelos vocalistas e guitarristas Al Anderson e Junior Marvin. Eles tocaram menos tempo com Bob Marley, mas contam com a bênção de sua viúva, Rita (que assim se vingou do processo de décadas que Barrett moveu contra ela, sem sucesso, alegando ser coautor de várias canções de Bob Marley). "Nós somos os Wailers originais. O outro não passa de um tributo", diz Barrett. "Aston não liga para qualidade, só quer saber de dinheiro", devolve Marvin (como se as apresentações de seu grupo fossem de graça). Os dois Wailers juntos não valem meio Bob Marley. Como outras bandas históricas que se dividiram e multiplicaram, vivem de explorar o saudosismo dos fãs. O nome de uma banda de sucesso é uma marca forte, um patrimônio que seus integrantes costumam disputar. Uma das brigas mais conhecidas se deu em torno da banda inglesa Pink Floyd, expoente do rock progressivo dos anos 70. Seu líder, o baixista Roger Waters, anunciou o fim da banda em 1983 - mas os outros três integrantes voltaram à estrada, com um disco novo, quatro anos depois. Roger Waters foi aos tribunais para reivindicar os direitos sobre o nome - e perdeu. O repertório de um show do Pink Floyd, porém, costuma ser quase indiscernível daquele que se ouve nas apresentações de seu ex-baixista. Waters especializou-se nos discos históricos de sua antiga banda: já fez um show baseado em The Dark Side of the Moon e neste ano deve apresentar a íntegra de The Wall no Brasil. A proliferação de bandas replicantes tem seu extremo cômico (ou melancólico, dependendo da perspectiva) em The Platters, conhecida por sucessos dos anos 50 como Only You e The Great Pretender. Já houve até quatro Platters, só dois com integrantes da melhor fase da banda, os cantores Sonny Turner e Herb Reed (que ganhou judicialmente o direito exclusivo de usar o nome). Os Beach Boys, dos anos 60, também passaram pelo milagre da replicação - sua surf music hoje é repisada cansativamente pela banda do cantor Mike Love, detentor do nome Beach Boys, pelo grupo de Brian Wilson, que compôs o grosso do repertório, e por uma contrafação montada pelo guitarrista Al Jardine e duas filhas de Wilson. Essa última estreou com o nome Beach Boys, Family & Friends, mas foi rebatizada como Al Jardine, Family & Friends depois que Mike Love ganhou um processo reivindicando o nome. Nenhum desses monstros da nostalgia apresenta o poder criativo das bandas originais. No mercado da nostalgia, o melhor que podem oferecer é o nome.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

As filiais do rock

Onze anos depois de ter anunciado sua dissolução, o Faith No More - cujo híbrido de funk e rock pesado exerceu grande influência, nos anos 90, sobre outras bandas, como Korn e System of a Down - voltou a se reunir no ano passado para uma série de shows, inclusive no Brasil. Mas será temerário afirmar que o grupo está mesmo de volta à ativa: o vocalista Mike Patton se dedica a tantos projetos simultâneos que se torna difícil (até para ele) apontar qual o principal. "Sou um artista que gosta de variar", declarou Patton a VEJA. É dizer pouco: o cantor é integrante do Fantômas, que recria temas de filmes de horror e quadrinhos, do Tomahawk, que faz uma mescla meio experimental de rock e soul, e neste ano vai lançar o trabalho de estreia do Mondo Cane, no qual interpreta canções pop italianas (ele foi casado com uma artista italiana e morou em Bolonha por sete anos). No Brasil, acaba de sair o disco do Peeping Tom, projeto de Patton que combina música eletrônica e hip-hop, com participações das cantoras Bebel Gilberto e Norah Jones. Embora poucos sejam tão ecléticos quanto Patton, muitos roqueiros investem em projetos paralelos aos grupos que constituíram sua fama. É uma estratégia segura para o músico que está desgastado ou entediado em sua banda original. A oportunidade de trabalhar com um amigão do peito é um grande motivador para que os músicos montem suas filiais. O Little Joy nasceu da amizade do baterista do grupo americano Strokes, Fabrizio Moretti, e do guitarrista e vocalista do brasileiro Los Hermanos, Rodrigo Amarante, que se conheceram durante a gravação do disco de um amigo em comum, o cantor Devendra Banhart. O Raconteurs define-se como uma banda de "amigos de longa data" - no caso, os guitarristas Brendan Benson e Jack White, este do White Stripes. Com a colaboração de mais músicos, a banda permite que Jack se exercite fora do enquadramento minimalista do White Stripes, formado apenas por ele e pela (péssima) baterista Meg White. Jack participa ainda de uma terceira banda, o Dead Weather, e tem planos para um disco-solo - mas, prudente, não anunciou o fim do White Stripes. O desgaste natural de tocar anos ao lado das mesmas pessoas é o fator mais premente para novas experiências. Cantor, guitarrista e líder do Foo Fighters, Dave Grohl teve uma crise durante as gravações de um disco do quarteto, em 2002. Largou as sessões no meio para tocar bateria com o Queens of the Stone Age e para criar o Probot, um grupo de heavy metal. Grohl voltou ao Foo Fighters - mas, no fim do ano passado, embarcou no seu mais ambicioso projeto paralelo, como baterista do Them Crooked Vultures, ao lado do guitarrista Josh Homme (Queens of the Stone Age) e do baixista John Paul Jones (ex-Led Zeppelin). Em todas essas frentes, Grohl faz sempre rock. Outros músicos desviam-se de suas formações originais para tentar novos gêneros. Uma banda, afinal, acaba por se tornar uma marca, uma empresa que não pode ignorar as expectativas que criou. O Blur ajudou a definir, nos anos 90, o som que se tornou conhecido como britpop, reciclando os timbres de guitarras roqueiras dos anos 60. Associando-se ao amigo cartunista Jamie Hewlett, Damon Albarn, cantor do Blur, criou uma banda fictícia muito diferente: o Gorillaz, integrado por personagens de desenho animado, tem mais elementos do hip-hop do que do rock. Albarn - que mantém outra banda paralela, The Good, The Bad & The Queen - deve lançar o terceiro disco do Gorillaz em março. O Blur fez uma turnê no ano passado, registrada no filme No Distance Left do Run - mas, por ora, está em compasso de espera, sem planos de novos trabalhos. Uma brincadeira que deu certo (vende mais que o Blur), o Gorillaz talvez seja o caso mais exemplar de projeto paralelo. Descompromissadas, as filiais muitas vezes se mostram mais criativas do que a casa matriz.


Costurando para fora
Os projetos paralelos de alguns grandes nomes do rock quase sempre resultam melhores do que suas bandas originais

THEM CROOKED VULTURES
É o que se costuma chamar de "superbanda", integrada por estrelas de grupos famosos: Dave Grohl (foto), do Foo Fighters, Josh Homme, do Queens of the Stone Age, e John Paul Jones, ex-Led Zeppelin
Melhor que os originais? - Sim e não. O CD de estreia supera os lançamentos mais recentes de Foo Fighters e Queens of the Stone Age. Mas não chega perto do Led Zeppelin.

PEEPING TOM
Um dos vários traballhos de Mike Patton (à dir. na foto), ex-vocalista do Faith No More, a banda toca música eletrônica e hip-hop, com participações de cantoras suaves como Norah Jones e Bebel Gilberto - é o oposto do som pesado do grupo que consagrou o cantor
Melhor que o original? - Em termos. Faz boa música para dançar, mas faltam a agressividade e o humor do Faith No More

GORILLAZ
Brincadeira de Damon Albarn, vocalista e líder do quarteto inglês Blur, o Gorillaz é um grupo integrado por personagens de desenho animado
Melhor que o original? - Sim. Com canções pop mais acessíveis, seu primeiro CD vendeu, nos Estados Unidos, mais do que todos os sete discos do Blur juntos

THE RACONTEURS
Projeto do guitarrista Jack White, do White Stripes (que também atua - como baterista - na banda Dead Weather), faz um rock de garagem com levada pop
Melhor que o original? - Sim. Jack White faz o que sabe - toca guitarra - sem as limitações musicais da sua banda de origem (leia-se: sem a batucada medíocre de Meg White, baterista do White Stripes)

THE LAST SHADOW PUPPETS
Dois jovens músicos de bandas badaladas do rock inglês - Alex Turner, guitarrista e vocalista dos Arctic Monkeys, e Miles Kane, guitarrista dos Rascals - fazem um tributo ao pop mais melódico dos anos 60 e 70
Melhor que o original? - Sim. No lugar das manjadas guitarras distorcidas, Turner e Kane valeram-se de bons arranjos orquestrais