Recentemente, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) anunciou sua temporada de concertos para 2008. O maestro carioca John Neschling, seu diretor artístico, qualificou a programação de "ambiciosa". No entanto, dos dezenove regentes convidados, só três são do primeiro escalão: o francês Michel Plasson, o polonês Antoni Wit e o alemão Helmuth Rilling. Também são poucos entre os visitantes os instrumentistas notáveis: destacam-se os violinistas Sarah Chang e Boris Belkin. No repertório, buscou-se uma equação já consagrada, que privilegia os compositores canônicos com pequenas incursões pelo contemporâneo e pela música brasileira. Assim, pode-se prever, para o público, uma temporada agradável, mas de forma nenhuma surpreendente. Quanto à própria orquestra, não há nada na programação que permita imaginar um passo adiante em sua evolução, e muito menos um salto de qualidade. Ela deve permanecer estacionada no patamar (respeitável) que alcançou. O que leva a uma indagação legítima: depois de dez anos sob a batuta de Neschling, teria a Osesp chegado a um ponto de estagnação?
John Neschling assumiu uma Osesp decadente em 1997 e a transformou no melhor grupo sinfônico que o país já teve. Internamente, ele promoveu uma revolução. Afastou instrumentistas – e soube atrair novos talentos. Também foi hábil no campo político. Conseguiu que o governo paulista gastasse 44 milhões de reais na construção da Sala São Paulo, uma excelente sala de espetáculos. O mesmo governo destina à Osesp um orçamento anual polpudo, atualmente da ordem de 43 milhões de reais. Neschling recebe um salário de 100 000 reais por mês. Mas os músicos, sob sua administração, também viram subir seus rendimentos. O salário médio na orquestra é hoje de 8 000 reais.
Neschling rege com segurança partituras de Beethoven ou Mahler, que compõem o repertório básico de qualquer orquestra. Mas não é um maestro brilhante. Suas limitações ficam evidentes na execução de peças de grande complexidade rítmica ou naquelas de arranjo intricado, que requerem clareza para que os detalhes não se percam. A explicação mais freqüente para essa deficiência é que o maestro não tem um gestual preciso. Faz movimentos circulares com a batuta – seus detratores o apelidaram de "o regente que rege redondo" – e não dá a entrada para os músicos no momento apropriado. Os defensores de Neschling o comparam a Wilhelm Furtwängler, lendário chefão da Filarmônica de Berlim, que também não tinha um gestual bonito. Só que ele deu à orquestra um padrão sonoro que nem seu sucessor, o egocêntrico Herbert von Karajan, ousou alterar. A Osesp não possui um padrão tão claro – ela apenas toca forte, e transmite vigor. Mas, quando é preciso modular esse vigor, os problemas sobressaem novamente. Em peças com filigranas, a Osesp soa empastelada, enquanto os músicos parecem disputar um troféu de força. Em março deste ano, a orquestra fez turnê pela Europa. Um dos atrativos do repertório era La Mer (O Mar), de Debussy. Neschling consultou um solista de renome sobre sua leitura da obra. "Soou como um bloco de concreto jogado no mar", foi a resposta.
Além de talento artístico, o diretor de uma grande orquestra precisa ter habilidade nos bastidores. Neschling é um homem hábil e corajoso, mas dilapidou parte de seu patrimônio cultivando um estilo imperial. Nas coxias, já não conta com a simpatia incondicional dos músicos da orquestra. Que fique bem entendido: regentes não nasceram para ser simpáticos. Daniel Barenboim passa carraspanas ruidosas e Lorin Maazel surge nos ensaios da Filarmônica de Nova York com uma carranca de dar medo. Mas os músicos extraem uma recompensa estética do convívio com essas figuras difíceis. Na Osesp, há frustração. Nesch-ling grita demais e não mostra o tino de outrora para detectar e corrigir deficiências da orquestra. Um maestro europeu que comandou a Osesp em 2006 reclamou da afinação do naipe de sopros. Outro sentenciou: "Nunca vi músicos com tanto medo de se soltar".
Neschling conta com o apoio do conselho da Osesp, instituição formada por notáveis como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o economista Persio Arida. Mas acumula polêmicas e trapalhadas políticas. Foi desastrosa sua condução da crise que, em 2006, maculou o Concurso Internacional de Piano Villa-Lobos (houve sinais de que a seleção dos concorrentes foi manipulada). Duas semanas atrás, ele teve de pedir desculpas formais ao governador de São Paulo, José Serra, a quem chamou de "mimado" e "autoritário" num momento de destempero (o discurso foi parar no site YouTube).
Segundo músicos e ex-colaboradores, Neschling pro-pala a tese de que a orquestra correria risco caso ele saísse. Pensar assim é desconsiderar o fato de que, graças ao seu próprio trabalho, a Osesp é hoje uma instituição sólida. É também cultivar fantasias do tipo "depois de mim, o dilúvio". Faz parte da vida de grandes orquestras trocar de comando (veja quadro). Conduzir uma transição desse tipo acrescentaria uma estrela ao currículo de Neschling. O mundo da regência vive um bom momento. Há nomes que despontam, como o do finlandês Osmo Vanska, que opera milagres na limitada Orquestra Sinfônica de Minnesota, nos Estados Unidos, ou o do americano David Zinman, autor de uma revolucionária leitura das nove sinfonias de Beethoven. Talvez pudessem trazer um sopro de novidade à Osesp. E por salário equivalente ao de Neschling.
FOI BOM ENQUANTO DUROU
Maestros que souberam sair na hora certa
Kurt Masur
Orquestra: Gewandhaus, de Leipzig (1970-1996)
Principais feitos: imprimiu sua personalidade na orquestra, que teve o compositor Mendelssohn entre seus diretores artísticos. Suas gravações das nove sinfonias de Beethoven com a Gewandhaus são históricas
O que aconteceu com a orquestra: depois de Masur, trabalhou com os maestros Herbert Blomstedt e Riccardo Chailly e ainda é uma das grandes orquestras da Europa
Claudio Abbado
Orquestra: Filarmônica de Berlim (1989-2002)
Principais feitos: provou ser um substituto à altura de Herbert von Karajan, uma lenda da regência. Suavizou a sonoridade da orquestra e fez gravações impecáveis das sinfonias de Beethoven e Mahler
O que aconteceu com a orquestra: contratou o inglês Simon Rattle para a vaga de Claudio Abbado. Rattle tem mais carisma e potencial de vendas que seu antecessor
Esa Pekka-Salonen
Orquestra: Filarmônica de Los Angeles (1992-2009)
Principais feitos: trouxe um público jovem para os concertos. O carisma dele foi fundamental para que a diretoria da filarmônica investisse 274 milhões de dólares na construção da Walt Disney Concert Hall
O que aconteceu com a orquestra: escolheu para a vaga de Salonen o venezuelano Gustavo Dudamel, um jovem e promissor talento da regência
terça-feira, 27 de novembro de 2007
terça-feira, 16 de outubro de 2007
O samba voltou. Nada de novo no samba
Perto de completar 100 anos, o samba ressurge como um gênero dominante na música brasileira. O movimento começou há cerca de uma década, quando o bairro da Lapa, reduto tradicional da boemia carioca, passou a atrair, com seus bares de música ao vivo, um público jovem de classe média. “Era o que nós chamávamos de turma do chinelinho, uma rapaziada barbuda e com pouco dinheiro no bolso que ia nos ver para curtir sambas antigos”, diz o cantor Pedro Miranda, que se apresenta num dos espaços pioneiros. Dali, a cena se estendeu para São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e Porto Alegre. Nas casas especializadas dessas cidades, desenvolveu-se um habitat semelhante ao da Lapa: garotos de classe média com visual de roqueiro — e ginga de sambista. O fenômeno cresceu de tal forma que chegou ao mercado de discos. Os cariocas Teresa Cristina e Diogo Nogueira e o grupo paulistano Quinteto em Branco e Preto são crias do circuito do samba que acabam de assinar contrato com grandes gravadoras. Em paralelo, cantoras em ascensão como Mariana Aydar ou Roberta Sá, que não são propriamente sambistas, incluem sambas em seu repertório — por gosto, mas também por terem consciência do seu poder de atração. Nisso elas se espelham em Marisa Monte, que há um bom tempo defende a causa, a ponto de haver lançado, por seu próprio selo, coletâneas da velha-guarda da Portela. O samba nasceu em 1917, quando Donga e Mauro de Almeida compuseram Pelo Telefone. Do ponto de vista formal, era uma canção estranha, próxima do maxixe, que chegou a ser descrita até como tango. Mas, gravada em disco, registrada na Biblioteca Nacional e transformada em sucesso numa bem urdida campanha de divulgação, Pelo Telefone se tornou o marco zero de um novo gênero, que logo ocupou um espaço cultural único. Lá estava um tipo de música em que o Brasil marginal e o Brasil oficial, o do morro e o da gravadora, o dos malandros e o da classe média, se amalgamavam de maneira inédita. Nas duas décadas seguintes, o samba foi virando emblema da identidade nacional — até ganhar chancela do governo na era Vargas. Essa história talvez ajude a entender o apelo do samba hoje em dia. Ele tem a aura da “autenticidade” — uma palavra essencial no vocabulário da turma do chinelinho. Além disso, remete a uma marginalidade cordial e idealizada — em vez de falar de violência real, como o rap, por exemplo. O samba passou por diversas transformações musicais ao longo das décadas (veja o quadro). Um desvio recente, nos anos 90, desembocou na atrocidade do “pagode mauricinho”, que se inspirava na pior música negra americana. A atual onda do samba é o contrário disso. Seus artistas zelam pela tradição e se inspiram em Noel Rosa, Cartola, Nelson Cavaquinho ou Paulinho da Viola (que lança em outubro um Acústico MTV). Sempre que possível, eles buscam o apadrinhamento de veteranos. Leci Brandão, por exemplo, despontou na década de 70, mas depois se eclipsou. Amargou um longo período de ostracismo, lançando seus discos por selos de menor expressão e fazendo apresentações na periferia das principais capitais do Brasil. No ano passado, foi surpreendida pelo telefonema da cantora Mariana Aydar, que pediu que Leci lhe cedesse a canção Zé do Caroço e a convidou para cantar em seu disco de estréia, Kavita 1. O lado anedótico desse apadrinhamento fica por conta da cantora Beth Carvalho. Uma das sambistas de maior sucesso comercial da história, Beth se especializou em “abraçar” novos talentos. Seu afã é tão grande que alguns se sentem incomodados com as investidas da madrinha. Há quem evite esbarrar com Beth — para não ser transformado compulsoriamente em pupilo. O perigo bastante real que ronda os jovens artistas do samba é eles se tornarem meros repetidores de canções de cinqüenta anos atrás. Alguns se dão conta dessa ameaça. “Muita gente está pecando pela reverência exagerada e pela preocupação com o que o pessoal da velha-guarda vai achar do seu trabalho”, diz o cantor e compositor Edu Krieger, de 33 anos. O cantor Marcos Sacramento também teme a repetição. “No samba, temos de ser hereges”, diz ele, que se esforça para dar roupagem diferente a canções de Baden Powell, Cartola ou Chico Buarque. Por uma via lateral, Marcelo D2 se aventura na mistura de samba e hip hop, mas ainda não produziu algo sólido. O samba voltou. Mas não há nada de novo no samba.
A evolução do samba
1917 – O marco zero O compositor Donga (1890-1974) lança Pelo Telefone, canção que seria classificada como o primeiro samba da história. A música era na verdade um maxixe, um dos gêneros que ajudaram a criar o samba
1930 – Forma-se a tradição Surge a primeira leva de compositores tradicionais, como Noel Rosa, Ismael Silva e Geraldo Pereira. Eles dão o formato do gênero, com um andamento mais cadenciado e letras mais refinadas
1958 – A Bossa Nova João Gilberto lança Chega de Saudade, que inaugurou uma nova maneira de cantar samba. Ele mudou a batida do violão e abriu-se à influência do jazz. A princípio, a bossa nova foi bastante criticada pelos sambistas tradicionais
1963 – O samba-rock Com Samba Esquema Novo, Jorge Ben muda mais uma vez a batida do violão. Sua levada é rápida, como se fosse um rock. O estilo — que receberia o nome de sambarock — ainda faz sucesso em bailes de música black
1980 – O pagode O Fundo de Quintal inova ao usar instrumentos como banjo e repique de mão. As músicas ganham um andamento mais festivo. É o momento de ascensão de Jorge Aragão, Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho
A evolução do samba
1917 – O marco zero O compositor Donga (1890-1974) lança Pelo Telefone, canção que seria classificada como o primeiro samba da história. A música era na verdade um maxixe, um dos gêneros que ajudaram a criar o samba
1930 – Forma-se a tradição Surge a primeira leva de compositores tradicionais, como Noel Rosa, Ismael Silva e Geraldo Pereira. Eles dão o formato do gênero, com um andamento mais cadenciado e letras mais refinadas
1958 – A Bossa Nova João Gilberto lança Chega de Saudade, que inaugurou uma nova maneira de cantar samba. Ele mudou a batida do violão e abriu-se à influência do jazz. A princípio, a bossa nova foi bastante criticada pelos sambistas tradicionais
1963 – O samba-rock Com Samba Esquema Novo, Jorge Ben muda mais uma vez a batida do violão. Sua levada é rápida, como se fosse um rock. O estilo — que receberia o nome de sambarock — ainda faz sucesso em bailes de música black
1980 – O pagode O Fundo de Quintal inova ao usar instrumentos como banjo e repique de mão. As músicas ganham um andamento mais festivo. É o momento de ascensão de Jorge Aragão, Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
Clássicos na UTI
O crítico inglês Norman Lebrecht, 59 anos, é uma das personalidades mais temidas do mundo musical. Ele se destaca pelo retrato pouco romântico que faz dos bastidores da música erudita. Já contestou a importância do regente no livro O Mito do Maestro e ironizou as festividades em torno do aniversário de 250 anos do nascimento de Mozart. Sua obra mais recente, Maestros, Masterpieces and Madness (Maestros, Obras-Primas e Loucura), discorre sobre o desaparecimento iminente dos discos de música erudita e o impacto cultural desse acontecimento. O livro contém uma lista das 100 gravações mais influentes da história. O toque ácido fica por conta de um outro ranking, com os vinte piores discos de todos os tempos. "Até reuniões de gênios podem resultar em desastre", diz o autor. De sua casa, em Londres, Lebrecht falou sobre a decadência das grandes gravadoras, sobre o papel dos maestros e sobre os compositores eruditos que merecem atenção no presente.
A música erudita está morrendo?
Não. São as gravações de música erudita que estão morrendo. Mas o significado cultural dessa perda é enorme. É algo assim como se Veneza afundasse nas águas, no meu entendimento. As gravações são uma atividade artística muito especial, diferente de um recital ou concerto ao vivo. Elas pedem outro tipo de disciplina, uma busca mais obstinada pela perfeição, pois qualquer deslize ficará registrado para sempre, sem disfarce. A era das gravações começou em 1902, com um disco de árias pelo tenor italiano Enrico Caruso, e agora está chegando ao seu final melancólico. Nesse meio tempo, ela tornou possível duas coisas. Primeiro, fez com que uma parcela fundamental de nossa civilização - as criações de Bach, de Haydn ou de Beethoven - se tornasse acessível a qualquer um, em qualquer lugar do planeta. Em segundo lugar, permitiu que nossa tradição fosse esmiuçada e reinterpretada como nunca antes, fazendo e desfazendo reputações, alterando o gosto musical continuamente. Enfim, não é a música que está morrendo, mas a maneira como as pessoas descobriram a música e conviveram com ela ao longo do último século. Não é pouca coisa.
O que levou a essa situação?
Dois fatores: o impacto causado pela música pop e o desaparecimento de um certo tipo de executivo ligado às gravadoras de música erudita. Bastam alguns números para se ter uma idéia do primeiro fenômeno. Em 1965, um em cada quatro discos vendidos era de música erudita. Oito anos depois, à medida que as gravações de rock e outros gêneros de música pop se popularizavam, a proporção já havia caído para um em 25. Um único grupo de rock, os Beatles, vendeu 1,3 bilhão de discos ao redor do mundo em cerca de quarenta anos. Isso equivale ao total de vendas da música erudita em quase um século. Em outras palavras, foi cada vez mais difícil para as gravadoras manter-se saudáveis e preservar sua fatia de mercado. Mas as pessoas ligadas a essas gravadoras também tiveram culpa. Os pioneiros da era das gravações foram pessoas extraordinárias. Estou falando de personagens históricos como Elsa Schiller, ex-prisioneira de um campo de concentração que ajudou a criar a Deutsche Grammophon, o mais famoso entre os selos eruditos. À medida que essas pessoas se aposentavam, profissionais despidos de sensibilidade e imaginação as substituíam. O que fez Goddard Lieberson, lendário presidente da gravadora Columbia, com o primeiro grande lucro que obteve nos anos 60? Ele reinvestiu todo o dinheiro em música. Contatou o compositor russo Igor Stravinski e o convenceu a gravar toda a sua obra na companhia. Da mesma forma John Culshaw, da Decca Records, era tão fanático pelo ciclo O Anel dos Nibelungos, de Richard Wagner, que financiou a gravação integral da obra pelo regente húngaro Georg Solti. Pois bem. Na década de 90, as companhias de discos viveram o boom do CD, quando todo mundo trocou sua coleção de vinis pelos compact discs. O que os novos diretores de gravadoras fizeram? Lançaram mais e mais do mesmo, sem pensar na inovação. Hoje existem 475 gravações de As Quatro Estações, de Vivaldi, e 275 Quintas Sinfonias, de Beethoven. Quem precisa de tudo isso?
Na literatura, costuma-se dizer que cada geração precisa de uma nova tradução de Homero ou Shakespeare. Não é natural que os clássicos sejam sempre revisitados?
Há uma diferença entre repetição e reinterpretação. Eu não critico a reinterpretação. Apreciar a evolução das interpretações da Quinta de Beethoven, do regente Arthur Nikisch, em 1913, a Gustavo Dudamel, em 2005, é sem dúvida uma experiência extraordinária. Meu problema é com a repetição indiscriminada. Num mesmo ano recente, foram lançados três discos contendo a Quinta Sinfonia, de Anton Bruckner, e dois contendo Tristão e Isolda, de Wagner. A indústria ficou sem idéias, perdeu o controle e partiu para lançamentos sem critério artístico.
Há futuro para a música erudita?
Sim, na internet. Em quatro ou cinco anos, creio que vamos desfrutar apresentações transmitidas pelo computador. As gravações também poderão ser distribuídas em formato digital, sem a intermediação de gravadoras. Infelizmente, muita coisa vai se perder até lá. Por exemplo: o regente de ascendência italiana Antonio Pappano, titular da Royal Opera House, liderou recentemente quatro récitas de O Anel dos Nibelungos. Não houve gravação em CD, muito menos em DVD. Ficarão apenas na memória de quem teve o privilégio de assistir a elas em Londres.
Seu livro mais recente contém duas listas: uma com as 100 melhores e outra com as vinte piores gravações já feitas. Qual é seu propósito com essas listas?
A primeira lista não é exatamente sobre as "melhores" gravações, mas sobre as mais significativas, aquelas que deixaram uma marca e fizeram com que os discos eruditos se tornassem, ao longo do século XX, um artefato cultural tão importante. Discuto menos as qualidades intrínsecas da música do que as circunstâncias da gravação do disco e o seu impacto. Por exemplo, quando o alemão Fritz Kreisler gravou o Concerto para Violino de Beethoven com a Berlin State Opera, em 1926, mudou para sempre a maneira como se tocava violino, pois acrescentou um vibrato às passagens mais suaves da música para compensar as inadequações da reprodução sonora. Da mesma forma, o registro das Sonatas e Partitas para Violino de Bach, feito em 1973 por Nathan Milstein, levou muitos violinistas eminentes a jurar nunca tocar aquela música, pois parece impossível superar a performance de Milstein. Quanto à lista dos vinte piores discos, ela foi sobretudo uma diversão. Eu poderia facilmente ter listado cinqüenta. Novamente, o propósito não era apontar música ruim feita por músicos sem talento. Pelo contrário, queria mostrar que mesmo uma reunião de gênios pode resultar num desastre. É o caso da célebre gravação do Concerto Triplo de Beethoven feita pelo trio de ouro Richter, Oistrakh e Rostropovich em 1969, com Herbert von Karajan na regência. Os músicos não se entenderam, Karajan pressionou todos com a agenda de gravação e o resultado é que nenhuma nota do disco tem significado musical verdadeiro.
Se quisesse seduzir um novato para o mundo da música erudita, qual disco da sua lista de 100 recomendaria que ele ouvisse?
O Concerto Duplo de Bach tocado por David e Igor Oistrakh, pai e filho. Você nunca encontrará um exemplo melhor da comunicação entre gerações do que nesse disco.
No livro O Mito do Maestro, o senhor diz que há muita mistificação em torno da figura do regente. O que faz um bom maestro?
Além de seus outros pecados, a indústria musical ajudou a "estragar" os regentes. Ela os mimou demais, e muitos se sentiram como semideuses. É o caso de Herbert von Karajan, um artista talentoso mas de uma vaidade absurda, que dominou o mercado por quase meio século. O bom regente, na minha opinião, é aquele que coloca a sua personalidade numa orquestra. Eu não percebo isso num Daniel Barenboim, que passou mais de uma década à frente da Sinfônica de Chicago e não avançou nenhum milímetro em relação à época em que a orquestra era comandada por Georg Solti. Em compensação, poucos têm a personalidade de Lorin Maazel. Certa vez, Mariss Jansons, outro regente que admiro, foi ao meu programa de rádio. Ele disse que demorou cinco anos para se livrar da sombra de Maazel, seu antecessor na Sinfônica de Pittsburgh. A isso chamamos personalidade. Entre os novos, creio que o venezuelano Gustavo Dudamel fará uma carreira brilhante. Eu o vi algumas vezes e fiquei impressionado. Um spalla de uma das maiores orquestras do mundo me mandou um dia desses um e-mail com a seguinte frase: "Não compare Dudamel com nenhum outro regente. Em 60 anos de vida, jamais me vi diante de um músico tão fenomenal".
No século XX, a música erudita fugiu da melodia em busca do atonalismo. Isso afastou o público?
O atonalismo foi inevitável. Ele ganhou corpo numa era de trauma e ruptura, o período da II Guerra Mundial, quando um grupo de compositores quis criar músicas que não tivessem relação com o passado. As platéias viram essa mudança como uma traição. Existia uma idéia de que artista e público tinham de andar lado a lado. Quando uma das partes muda de estilo e diz que não quer saber a opinião do público, cria-se um impasse. O atonalismo afugentou as platéias e essa rejeição atingiu muitos autores contemporâneos que faziam uma música menos atonal. Como o compositor checo Bohuslav Martinu, que sofreu uma rejeição sem precedentes sem de fato a merecer. Hoje em dia, acho que artistas e platéias estão menos radicais. Pode-se saborear as obras de um artista como o argentino Osvaldo Golijov, que tem uma música ousada, mas sem atonalismo.
Qual é o papel desempenhado pela crítica na música erudita?
Infelizmente, a imprensa musical é parte da crise da música erudita. Ela se tornou pouco confiável ao longo dos anos e está comprometida com as gravadoras. Tomemos uma publicação respeitada como a Gramophone. Seu editor se orgulha de jamais ter publicado uma crítica negativa - e acho pouco provável que tenham sido lançados apenas discos sensacionais. Além disso, é comum que os editores mostrem as resenhas aos executivos das gravadoras antes de elas serem publicadas. É uma traição ao público.
É possível trazer os jovens de volta às platéias de concertos?
Seria necessário mostrar a eles que a música erudita pode ser tão vibrante quanto um concerto de rock - e nós sabemos que ela pode. Formou-se um círculo vicioso. Os jovens não querem ir a um local em que o público tem a mesma idade de seu pai ou de seu avô, e com isso se perpetua a idéia de que a música erudita é algo formal e envelhecido. É uma pena, porque o envelhecimento das platéias também se reflete nos artistas. Outro dia, a violinista Anne-Sophie Mutter declarou que pensa em se aposentar. Ela tem apenas 44 anos, poderia ter mais três décadas de atividade. Mas a decisão dela é compreensível se pensarmos que Anne-Sophie toca sempre o mesmo concerto para as mesmas pessoas. Perdeu a empolgação.
No ano passado, durante as comemorações dos 250 anos de nascimento de Mozart, o senhor causou polêmica ao afirmar que a obra dele não tem nada de inovador. Ainda pensa assim?
Você não precisa ler meus artigos para chegar à conclusão de que Mozart nunca foi um grande inovador. O maestro austríaco Nikolaus Harnoncourt, especialista na obra de Mozart, já defendeu a tese de que sua música não traz grandes inovações em relação ao que foi feito por Haydn - este, sim, um grande gênio. O que mais me irrita é a mozartmania, que dá origem a caça-níqueis como as gravações para bebês ouvirem quando ainda estão na barriga da mãe. No ano passado, praticamente todas as gravadoras lançaram discos dedicados a Mozart. Como se a obra dele fosse tão poderosa a ponto de trazer o público de volta para a música erudita. Isso aconteceu? Claro que não. Se eu fizesse uma comparação entre os autores eruditos e a gastronomia, Mozart seria no máximo um McDonald's.
Algum maestro foi favorável ao seu artigo sobre Mozart?
Publicamente, não. Mas muitos deles me diziam que estavam cansados de reger as mesmas obras de Mozart. "Norman, estou sofrendo de mozartite. Por favor, me dê um pouco de atonalismo."
Quais compositores clássicos mereceriam maior atenção do público atual?
O ano de 2009 marcará o bicentenário da morte de Haydn. Quantas vezes foi possível apreciar as 104 sinfonias desse compositor, sem falar nas óperas que ele escreveu? Haydn criou o formato da sinfonia que anos mais tarde seria absorvido por Mozart. Ele não tem a mesma versatilidade de seu discípulo famoso, mas, por favor, vamos deixar Mozart de lado e ouvir mais Haydn. Eu digo o mesmo em relação a Mendelssohn, Schumann e Liszt. Eles deveriam estar bem mais presentes nas salas de concerto. São criaturas de uma era mais tardia, que empreenderam buscas musicais mais conscientes e significativas para o nosso tempo. Esses três compositores abordaram as grandes questões humanas em suas partituras. Mozart compunha por instinto, sem visar a nada muito mais elevado do que entreter e ganhar a vida.
A grande novidade da música erudita nos últimos tempos foi a Finlândia, país que se tornou exportador de grandes maestros. O que os finlandeses fizeram de certo?
A Finlândia tem se tornado uma potência não apenas na regência. Eles estão tendo avanços na tecnologia também. Qual é a marca do seu aparelho celular? Pois o meu é de uma empresa da Finlândia. E sabe por que a Finlândia será uma potência? Porque as crianças aprendem a ler música e a tocar um instrumento musical na mesma época em que aprendem a ler e escrever. Em suma, são orientadas a desenvolver o cérebro - e isso ajuda em outras atividades.
A música erudita está morrendo?
Não. São as gravações de música erudita que estão morrendo. Mas o significado cultural dessa perda é enorme. É algo assim como se Veneza afundasse nas águas, no meu entendimento. As gravações são uma atividade artística muito especial, diferente de um recital ou concerto ao vivo. Elas pedem outro tipo de disciplina, uma busca mais obstinada pela perfeição, pois qualquer deslize ficará registrado para sempre, sem disfarce. A era das gravações começou em 1902, com um disco de árias pelo tenor italiano Enrico Caruso, e agora está chegando ao seu final melancólico. Nesse meio tempo, ela tornou possível duas coisas. Primeiro, fez com que uma parcela fundamental de nossa civilização - as criações de Bach, de Haydn ou de Beethoven - se tornasse acessível a qualquer um, em qualquer lugar do planeta. Em segundo lugar, permitiu que nossa tradição fosse esmiuçada e reinterpretada como nunca antes, fazendo e desfazendo reputações, alterando o gosto musical continuamente. Enfim, não é a música que está morrendo, mas a maneira como as pessoas descobriram a música e conviveram com ela ao longo do último século. Não é pouca coisa.
O que levou a essa situação?
Dois fatores: o impacto causado pela música pop e o desaparecimento de um certo tipo de executivo ligado às gravadoras de música erudita. Bastam alguns números para se ter uma idéia do primeiro fenômeno. Em 1965, um em cada quatro discos vendidos era de música erudita. Oito anos depois, à medida que as gravações de rock e outros gêneros de música pop se popularizavam, a proporção já havia caído para um em 25. Um único grupo de rock, os Beatles, vendeu 1,3 bilhão de discos ao redor do mundo em cerca de quarenta anos. Isso equivale ao total de vendas da música erudita em quase um século. Em outras palavras, foi cada vez mais difícil para as gravadoras manter-se saudáveis e preservar sua fatia de mercado. Mas as pessoas ligadas a essas gravadoras também tiveram culpa. Os pioneiros da era das gravações foram pessoas extraordinárias. Estou falando de personagens históricos como Elsa Schiller, ex-prisioneira de um campo de concentração que ajudou a criar a Deutsche Grammophon, o mais famoso entre os selos eruditos. À medida que essas pessoas se aposentavam, profissionais despidos de sensibilidade e imaginação as substituíam. O que fez Goddard Lieberson, lendário presidente da gravadora Columbia, com o primeiro grande lucro que obteve nos anos 60? Ele reinvestiu todo o dinheiro em música. Contatou o compositor russo Igor Stravinski e o convenceu a gravar toda a sua obra na companhia. Da mesma forma John Culshaw, da Decca Records, era tão fanático pelo ciclo O Anel dos Nibelungos, de Richard Wagner, que financiou a gravação integral da obra pelo regente húngaro Georg Solti. Pois bem. Na década de 90, as companhias de discos viveram o boom do CD, quando todo mundo trocou sua coleção de vinis pelos compact discs. O que os novos diretores de gravadoras fizeram? Lançaram mais e mais do mesmo, sem pensar na inovação. Hoje existem 475 gravações de As Quatro Estações, de Vivaldi, e 275 Quintas Sinfonias, de Beethoven. Quem precisa de tudo isso?
Na literatura, costuma-se dizer que cada geração precisa de uma nova tradução de Homero ou Shakespeare. Não é natural que os clássicos sejam sempre revisitados?
Há uma diferença entre repetição e reinterpretação. Eu não critico a reinterpretação. Apreciar a evolução das interpretações da Quinta de Beethoven, do regente Arthur Nikisch, em 1913, a Gustavo Dudamel, em 2005, é sem dúvida uma experiência extraordinária. Meu problema é com a repetição indiscriminada. Num mesmo ano recente, foram lançados três discos contendo a Quinta Sinfonia, de Anton Bruckner, e dois contendo Tristão e Isolda, de Wagner. A indústria ficou sem idéias, perdeu o controle e partiu para lançamentos sem critério artístico.
Há futuro para a música erudita?
Sim, na internet. Em quatro ou cinco anos, creio que vamos desfrutar apresentações transmitidas pelo computador. As gravações também poderão ser distribuídas em formato digital, sem a intermediação de gravadoras. Infelizmente, muita coisa vai se perder até lá. Por exemplo: o regente de ascendência italiana Antonio Pappano, titular da Royal Opera House, liderou recentemente quatro récitas de O Anel dos Nibelungos. Não houve gravação em CD, muito menos em DVD. Ficarão apenas na memória de quem teve o privilégio de assistir a elas em Londres.
Seu livro mais recente contém duas listas: uma com as 100 melhores e outra com as vinte piores gravações já feitas. Qual é seu propósito com essas listas?
A primeira lista não é exatamente sobre as "melhores" gravações, mas sobre as mais significativas, aquelas que deixaram uma marca e fizeram com que os discos eruditos se tornassem, ao longo do século XX, um artefato cultural tão importante. Discuto menos as qualidades intrínsecas da música do que as circunstâncias da gravação do disco e o seu impacto. Por exemplo, quando o alemão Fritz Kreisler gravou o Concerto para Violino de Beethoven com a Berlin State Opera, em 1926, mudou para sempre a maneira como se tocava violino, pois acrescentou um vibrato às passagens mais suaves da música para compensar as inadequações da reprodução sonora. Da mesma forma, o registro das Sonatas e Partitas para Violino de Bach, feito em 1973 por Nathan Milstein, levou muitos violinistas eminentes a jurar nunca tocar aquela música, pois parece impossível superar a performance de Milstein. Quanto à lista dos vinte piores discos, ela foi sobretudo uma diversão. Eu poderia facilmente ter listado cinqüenta. Novamente, o propósito não era apontar música ruim feita por músicos sem talento. Pelo contrário, queria mostrar que mesmo uma reunião de gênios pode resultar num desastre. É o caso da célebre gravação do Concerto Triplo de Beethoven feita pelo trio de ouro Richter, Oistrakh e Rostropovich em 1969, com Herbert von Karajan na regência. Os músicos não se entenderam, Karajan pressionou todos com a agenda de gravação e o resultado é que nenhuma nota do disco tem significado musical verdadeiro.
Se quisesse seduzir um novato para o mundo da música erudita, qual disco da sua lista de 100 recomendaria que ele ouvisse?
O Concerto Duplo de Bach tocado por David e Igor Oistrakh, pai e filho. Você nunca encontrará um exemplo melhor da comunicação entre gerações do que nesse disco.
No livro O Mito do Maestro, o senhor diz que há muita mistificação em torno da figura do regente. O que faz um bom maestro?
Além de seus outros pecados, a indústria musical ajudou a "estragar" os regentes. Ela os mimou demais, e muitos se sentiram como semideuses. É o caso de Herbert von Karajan, um artista talentoso mas de uma vaidade absurda, que dominou o mercado por quase meio século. O bom regente, na minha opinião, é aquele que coloca a sua personalidade numa orquestra. Eu não percebo isso num Daniel Barenboim, que passou mais de uma década à frente da Sinfônica de Chicago e não avançou nenhum milímetro em relação à época em que a orquestra era comandada por Georg Solti. Em compensação, poucos têm a personalidade de Lorin Maazel. Certa vez, Mariss Jansons, outro regente que admiro, foi ao meu programa de rádio. Ele disse que demorou cinco anos para se livrar da sombra de Maazel, seu antecessor na Sinfônica de Pittsburgh. A isso chamamos personalidade. Entre os novos, creio que o venezuelano Gustavo Dudamel fará uma carreira brilhante. Eu o vi algumas vezes e fiquei impressionado. Um spalla de uma das maiores orquestras do mundo me mandou um dia desses um e-mail com a seguinte frase: "Não compare Dudamel com nenhum outro regente. Em 60 anos de vida, jamais me vi diante de um músico tão fenomenal".
No século XX, a música erudita fugiu da melodia em busca do atonalismo. Isso afastou o público?
O atonalismo foi inevitável. Ele ganhou corpo numa era de trauma e ruptura, o período da II Guerra Mundial, quando um grupo de compositores quis criar músicas que não tivessem relação com o passado. As platéias viram essa mudança como uma traição. Existia uma idéia de que artista e público tinham de andar lado a lado. Quando uma das partes muda de estilo e diz que não quer saber a opinião do público, cria-se um impasse. O atonalismo afugentou as platéias e essa rejeição atingiu muitos autores contemporâneos que faziam uma música menos atonal. Como o compositor checo Bohuslav Martinu, que sofreu uma rejeição sem precedentes sem de fato a merecer. Hoje em dia, acho que artistas e platéias estão menos radicais. Pode-se saborear as obras de um artista como o argentino Osvaldo Golijov, que tem uma música ousada, mas sem atonalismo.
Qual é o papel desempenhado pela crítica na música erudita?
Infelizmente, a imprensa musical é parte da crise da música erudita. Ela se tornou pouco confiável ao longo dos anos e está comprometida com as gravadoras. Tomemos uma publicação respeitada como a Gramophone. Seu editor se orgulha de jamais ter publicado uma crítica negativa - e acho pouco provável que tenham sido lançados apenas discos sensacionais. Além disso, é comum que os editores mostrem as resenhas aos executivos das gravadoras antes de elas serem publicadas. É uma traição ao público.
É possível trazer os jovens de volta às platéias de concertos?
Seria necessário mostrar a eles que a música erudita pode ser tão vibrante quanto um concerto de rock - e nós sabemos que ela pode. Formou-se um círculo vicioso. Os jovens não querem ir a um local em que o público tem a mesma idade de seu pai ou de seu avô, e com isso se perpetua a idéia de que a música erudita é algo formal e envelhecido. É uma pena, porque o envelhecimento das platéias também se reflete nos artistas. Outro dia, a violinista Anne-Sophie Mutter declarou que pensa em se aposentar. Ela tem apenas 44 anos, poderia ter mais três décadas de atividade. Mas a decisão dela é compreensível se pensarmos que Anne-Sophie toca sempre o mesmo concerto para as mesmas pessoas. Perdeu a empolgação.
No ano passado, durante as comemorações dos 250 anos de nascimento de Mozart, o senhor causou polêmica ao afirmar que a obra dele não tem nada de inovador. Ainda pensa assim?
Você não precisa ler meus artigos para chegar à conclusão de que Mozart nunca foi um grande inovador. O maestro austríaco Nikolaus Harnoncourt, especialista na obra de Mozart, já defendeu a tese de que sua música não traz grandes inovações em relação ao que foi feito por Haydn - este, sim, um grande gênio. O que mais me irrita é a mozartmania, que dá origem a caça-níqueis como as gravações para bebês ouvirem quando ainda estão na barriga da mãe. No ano passado, praticamente todas as gravadoras lançaram discos dedicados a Mozart. Como se a obra dele fosse tão poderosa a ponto de trazer o público de volta para a música erudita. Isso aconteceu? Claro que não. Se eu fizesse uma comparação entre os autores eruditos e a gastronomia, Mozart seria no máximo um McDonald's.
Algum maestro foi favorável ao seu artigo sobre Mozart?
Publicamente, não. Mas muitos deles me diziam que estavam cansados de reger as mesmas obras de Mozart. "Norman, estou sofrendo de mozartite. Por favor, me dê um pouco de atonalismo."
Quais compositores clássicos mereceriam maior atenção do público atual?
O ano de 2009 marcará o bicentenário da morte de Haydn. Quantas vezes foi possível apreciar as 104 sinfonias desse compositor, sem falar nas óperas que ele escreveu? Haydn criou o formato da sinfonia que anos mais tarde seria absorvido por Mozart. Ele não tem a mesma versatilidade de seu discípulo famoso, mas, por favor, vamos deixar Mozart de lado e ouvir mais Haydn. Eu digo o mesmo em relação a Mendelssohn, Schumann e Liszt. Eles deveriam estar bem mais presentes nas salas de concerto. São criaturas de uma era mais tardia, que empreenderam buscas musicais mais conscientes e significativas para o nosso tempo. Esses três compositores abordaram as grandes questões humanas em suas partituras. Mozart compunha por instinto, sem visar a nada muito mais elevado do que entreter e ganhar a vida.
A grande novidade da música erudita nos últimos tempos foi a Finlândia, país que se tornou exportador de grandes maestros. O que os finlandeses fizeram de certo?
A Finlândia tem se tornado uma potência não apenas na regência. Eles estão tendo avanços na tecnologia também. Qual é a marca do seu aparelho celular? Pois o meu é de uma empresa da Finlândia. E sabe por que a Finlândia será uma potência? Porque as crianças aprendem a ler música e a tocar um instrumento musical na mesma época em que aprendem a ler e escrever. Em suma, são orientadas a desenvolver o cérebro - e isso ajuda em outras atividades.
terça-feira, 19 de junho de 2007
Lobo bobo
O cantor Lobão, 49 anos, se notabilizou em defender os direitos dos fracos e dos oprimidos. Brigou com praticamente todas as gravadoras com as quais trabalhou e defendeu a tese de que os CDs deveriam ser numerados para que os artistas soubessem exatamente quantas cópias venderam. Na vida real, Lobão, esse paladino da justiça, não reza pela cartilha do bom artista. Vejam o email que eu recebi de um músico erudito que foi convidado para tocar no show do disco Acústico MTV:
"Recebi um telefonema do produtor do Lobão um cara chamado Mauro me chamando pra tocar no lançamento do Acústico MTV deste gênio agora compreendido. Até aí tudo bem, mas olha só a proposta: tocar com um quinteto de cordas, sendo que o quinteto se escuta nos retornos e o som que vai para o público é o que ele solta do computador. Dublagem na cara dura!
Lobão paga 200 reais por show , um em São Paulo na sexta outro no sábado no Rio de Janeiro (indo de ônibus) e outro na segunda numa festa fechada no Via funchal. Conclusão, ele que sempre lutou pelos direitos dos fracos e oprimidos agora está explorando os músicos. Para piorar, dubla as cordas de um show acústico porque não quer pagar direito!"
E agora, Lobão?
"Recebi um telefonema do produtor do Lobão um cara chamado Mauro me chamando pra tocar no lançamento do Acústico MTV deste gênio agora compreendido. Até aí tudo bem, mas olha só a proposta: tocar com um quinteto de cordas, sendo que o quinteto se escuta nos retornos e o som que vai para o público é o que ele solta do computador. Dublagem na cara dura!
Lobão paga 200 reais por show , um em São Paulo na sexta outro no sábado no Rio de Janeiro (indo de ônibus) e outro na segunda numa festa fechada no Via funchal. Conclusão, ele que sempre lutou pelos direitos dos fracos e oprimidos agora está explorando os músicos. Para piorar, dubla as cordas de um show acústico porque não quer pagar direito!"
E agora, Lobão?
Discos riscados
A regravação, às vezes, é resultado da busca de um músico pela perfeição. Ela pode ser inovadora. O regente austríaco Herbert von Karajan lançou seis versões das nove sinfonias de Beethoven porque queria registrar cada nova concepção que tinha desses clássicos. A cantora americana Ella Fitzgerald revisitou várias vezes o repertório de autores como Cole Porter e George Gershwin, renovando-se a cada gravação. No Brasil de hoje, porém, casos como esses são raros, muito embora o que não falte sejam regravações. Em todos os estilos os artistas se repetem, se repetem e se repetem, por falta de ousadia, oportunismo ou auto-indulgência. A lista inclui de veteranos como Erasmo Carlos, Lobão e Zeca Pagodinho, cujos dias de glória já vão longe, a artistas que, em teoria, estão vivendo o seu auge criativo. Nando Reis, Ivete Sangalo e Jota Quest são alguns dos que não cansam de regurgitar suas velhas músicas, sobretudo em CDs do gênero “ao vivo” (volume I e volume II). A regravação é um sintoma da crise na indústria fonográfica. Buscar uma solução inovadora para as vendas declinantes dá trabalho, e é mais seguro investir em mais do mesmo. A festeira baiana Ivete Sangalo lançou três discos ao vivo em menos de dez anos. O mais recente foi gravado no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, diante de um público de mais de 50.000 pessoas — uma superprodução com repertório requentado. Em tempos idos, o sambista Zeca Pagodinho só lançava CDs de material inédito, com no máximo duas, três releituras. A partir de Ao Vivo, de 1999, Zeca afrouxou seus critérios. Nos últimos quatro anos, lançou dois CDs ao vivo. O mais recente, baseado em canções de gafieira, não teve o resultado comercial esperado — uma prova de que o público não aprovou a fórmula manjada. O disco ao vivo, que deveria captar a vibração do artista em contato direto com os fãs, transformou-se em veículo burocrático. É o que se constata nos registros de shows do Jota Quest. O maior sucesso do quinteto mineiro foi MTV ao Vivo, lançado em 2003, com mais de 500 000 cópias vendidas. Desde então, a banda não faz outra coisa senão gerar subprodutos desse projeto, com mais um CD ao vivo e um DVD de uma apresentação em Porto Alegre. Músicas como As Dores do Mundo e De Volta ao Planeta chegaram a ser gravadas quatro vezes. O único disco de estúdio recente traz, como música de trabalho, uma cover de Roberto Carlos — o fôlego para composições novas se esgotou. Nando Reis é outro que adora reprisar canções. Seu Luau MTV nada mais é que o registro de uma apresentação na praia, ao lado de convidados. A Letra "A", A Fila e Relicário são algumas das faixas que ganharam uma terceira releitura. Até Lobão largou a pose de “artista que não se vende” e topou a oferta da gravadora Sony BMG para lançar um Acústico MTV. Nas entrevistas de divulgação desse disco preguiçoso (em grande parte feito de velharias dos anos 80), o cantor jacta-se de que a gravadora está pagando jabá, aquela verba que o radialista recebe para tocar certas canções. O artista que muda de gravadora às vezes utiliza a regravação como estratagema para transferir o melhor do seu repertório para a nova casa. Em dez anos, Erasmo Carlos gravou discos por três companhias, sempre com as mesmas composições dos tempos da carochinha. Seu último disco, Erasmo Convida II, é um “catadão” de algumas das canções mais significativas de quarenta anos de carreira, na companhia de convidados como Chico Buarque e Los Hermanos. “Eu queria mostrar músicas novas, mas o meu público prefere os sucessos antigos”, justifica Erasmo. E a praga das regravações continua a se espraiar. No mês passado, chegaram às lojas discos de artistas do segundo escalão da MPB com homenagens a Dorival Caymmi, Tom Jobim e Chico Buarque. São trabalhos modorrentos e sem critério artístico. Está na hora de os artistas brasileiros apresentarem novidades. Ou estarão condenados a confirmar o poeta russo Joseph Brodsky, para quem a repetição era a mãe do tédio.
ERASMO CARLOS Composições inéditas entre 1995 e 2001 - 12 Regravações entre 1995 e 2001 - 13 Composições entre 2002 e 2007 - 12 Regravações entre 2002 e 2007 - 34
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IVETE SANGALO Entre 1995 e 2001 Composições inéditas - 70 Regravações - 18
Entre 2002 e 2007 Composições inéditas - 30 Regravações - 31
LOBÃO Entre 1995 e 2001 Composições inéditas - 36 Regravações - 11
Entre 2002 e 2007 Composições inéditas - 13 Regravações - 15
NANDO REIS Entre 1995 e 2001 Composições inéditas - 23 Regravações - 13
Entre 2002 e 2007 Composições inéditas - 23 Regravações - 25
JOTA QUEST Entre 1995 e 2001 Composições inéditas - 31 Regravações - 4
Entre 2002 e 2007 Composições inéditas - 25 Regravações - 37
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segunda-feira, 18 de junho de 2007
Decadência é triste
Não existe nada pior do que artista que se recusa a aceitar a decadência. Aliás, não existe nada pior do que artista que se recusa a aceitar a decadência e desembarca no Brasil a fim de enganar uns incautos. Estou falando de Lauryn Hill, artista de hip hop, que na semana passada tungou gaúchos, paulistas e cariocas.
Dez anos atrás, Lauryn era a maior promessa da música negra norte-americana. Era vocalista dos Fugees, trio de rap que tinha letras espertas - falavam de amor ou política ao invés do discurso pró-bandidagem do gangsta rap - e influências de soul music e reggae. No ano de 1998, a cantora lançou seu primeiro disco solo, The Miseducation of Lauryn Hill, um álbum que mostrou novos caminhos para o hip hop. Lauryn cruzou o gênero com soul music - vide Doop Wop (That Thing) primeiro single do disco - e o disco se transformou no item de cabeceira de moças como Beyoncé, Joss Stone & cia.
Mas lá se vão dez anos e a Lauryn Hill que lançou Miseducation... nem de longe é a Lauryn Hill que assisti no Tom Brasil. Diva decadente, ela deu piti no hotel (que achou meio burguês), no trato com a imprensa (exigiu ser entrevistada por repórteres negros) e no público (entrou com mais de duas horas de atraso). Cantora de meia-pataca, entrou no palco afônica e desafinou sempre que teve oportunidade. Aliás, o tempo que gastou para colocar aqueles cílios postiços poderia ter sido gasto num bom otorrino. Artista equivocada, destruiu três clássicos do sogro, Bob Marley (Lauryn é casada com Rohan, um dos trocentos filhos do rei do reggae) ao cantá-las num andamento acelerado e acompanhada por uma banda horrorosa. Heathen, Natty Dread e Zimbabwe (esta última, uma homenagem à independência do país africano, na década de 70 - e cujo libertador, Robert Mugabe, se transformou num tirano sanguinário) sofreram mais do que vítima de guera tribal no continente africano. A seu favor, Lauryn contou com a complacência do público, que pagou mais de 200 reais para assisti-la e achou tudo "muito foda". Os cariocas não se deixaram enganar tão fácil: sapecaram uma sonora vaia na folgada. Foda, meus caros, é ser enganado por uma artista metida a diva que não sabe o significado da palavra profissionalismo.
Dez anos atrás, Lauryn era a maior promessa da música negra norte-americana. Era vocalista dos Fugees, trio de rap que tinha letras espertas - falavam de amor ou política ao invés do discurso pró-bandidagem do gangsta rap - e influências de soul music e reggae. No ano de 1998, a cantora lançou seu primeiro disco solo, The Miseducation of Lauryn Hill, um álbum que mostrou novos caminhos para o hip hop. Lauryn cruzou o gênero com soul music - vide Doop Wop (That Thing) primeiro single do disco - e o disco se transformou no item de cabeceira de moças como Beyoncé, Joss Stone & cia.
Mas lá se vão dez anos e a Lauryn Hill que lançou Miseducation... nem de longe é a Lauryn Hill que assisti no Tom Brasil. Diva decadente, ela deu piti no hotel (que achou meio burguês), no trato com a imprensa (exigiu ser entrevistada por repórteres negros) e no público (entrou com mais de duas horas de atraso). Cantora de meia-pataca, entrou no palco afônica e desafinou sempre que teve oportunidade. Aliás, o tempo que gastou para colocar aqueles cílios postiços poderia ter sido gasto num bom otorrino. Artista equivocada, destruiu três clássicos do sogro, Bob Marley (Lauryn é casada com Rohan, um dos trocentos filhos do rei do reggae) ao cantá-las num andamento acelerado e acompanhada por uma banda horrorosa. Heathen, Natty Dread e Zimbabwe (esta última, uma homenagem à independência do país africano, na década de 70 - e cujo libertador, Robert Mugabe, se transformou num tirano sanguinário) sofreram mais do que vítima de guera tribal no continente africano. A seu favor, Lauryn contou com a complacência do público, que pagou mais de 200 reais para assisti-la e achou tudo "muito foda". Os cariocas não se deixaram enganar tão fácil: sapecaram uma sonora vaia na folgada. Foda, meus caros, é ser enganado por uma artista metida a diva que não sabe o significado da palavra profissionalismo.
O mito do maestro
O crítico de música Norman Lebrecht, uma das poucas vozes dissonantes do oba-oba da música erudita, apregoa que o grande maestro não é aquele que rege as orquestras da moda ou lança discos por selos badalados. Bom regente é o que imprime sua marca sonora em cada grupo sinfônico que rege. Lebrecht citou como exemplo Lorin Maazel, que comandou a Sinfônica de Pittsburgh, a Ópera de Viena e atualmente responde pela direção da Filarmônica de Nova York. Sei bem do que Lebrecht está falando, porque cinco anos atrás vi Maazel reger de forma magistral a Orquestra Experimental de Repertório, grupo sinfônico formado por estudantes de música. No entanto, poucos regentes expressam melhor essa que o alemão Kurt Masur.
Masur, que completa 80 anos em julho, é um senhor carrancudo, de poucas palavras - principalmente quando importunado por repórteres - e não abre mão de chacoalhar a orquestra quando sente que ela não corresponde ao seu comando. Também não possui um gestual dos mais bonitos. Alto e um tanto desengonçado, ele parece um boneco de pau a se equilibrar no pódio enquanto rege a orquestra. Porém, sabe como poucos liderar uma orquestra. Seja a Filarmônica de Nova York, com quem veio ao Brasil em 2002 - e executou uma Quarta Sinfonia, de Bruckner, capaz de levar o ogro mais grosso às lágrimas; seja a Osesp, que foi regida por ele em 2002 e 2004 - o repertório foi de aberturas das óperas de Wagner às sinfonias de Beethoven e Brahms ou a Orquestra Acadêmica do Festival de Inverno de Campos de Jordão (Barber e Mahler), Masur atinge a alma de cada peça que rege.
No dia 30, de maio, Kurt Masur me proporcionou outros desses momentos mágicos. Ele comandou a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) no Teatro Alfa, em São Paulo. O repertório era constituído da abertura d'Os Mestres Cantores de Nuremberg, de Richard Wagner, a Sinfonia Inacabada, de Schubert, e a Sinfonia do Novo Mundo, de Dvorak. Masur regeu num andamento mais lento do que o normal, como se quisesse dizer para a platéia: "Caros, saboreiem cada nota desta maravilha!" E foi um banquete e tanto e um prenúncio de uma nova era para a OSB. Depois de sofrer durante anos na mão de regentes de quinta categoria e administrações catastróficas, ela renasceu no ano passado sob a direção do maestro Roberto Minczuk. Os concertos de Masur são a prova da capacidade do grupo sinfônico.
Abaixo, uma "palinha" de Masur e OSB na praia de Copabacana, Rio de Janeiro
http://www.youtube.com/watch?v=QcxVtIUWsso
Masur, que completa 80 anos em julho, é um senhor carrancudo, de poucas palavras - principalmente quando importunado por repórteres - e não abre mão de chacoalhar a orquestra quando sente que ela não corresponde ao seu comando. Também não possui um gestual dos mais bonitos. Alto e um tanto desengonçado, ele parece um boneco de pau a se equilibrar no pódio enquanto rege a orquestra. Porém, sabe como poucos liderar uma orquestra. Seja a Filarmônica de Nova York, com quem veio ao Brasil em 2002 - e executou uma Quarta Sinfonia, de Bruckner, capaz de levar o ogro mais grosso às lágrimas; seja a Osesp, que foi regida por ele em 2002 e 2004 - o repertório foi de aberturas das óperas de Wagner às sinfonias de Beethoven e Brahms ou a Orquestra Acadêmica do Festival de Inverno de Campos de Jordão (Barber e Mahler), Masur atinge a alma de cada peça que rege.
No dia 30, de maio, Kurt Masur me proporcionou outros desses momentos mágicos. Ele comandou a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) no Teatro Alfa, em São Paulo. O repertório era constituído da abertura d'Os Mestres Cantores de Nuremberg, de Richard Wagner, a Sinfonia Inacabada, de Schubert, e a Sinfonia do Novo Mundo, de Dvorak. Masur regeu num andamento mais lento do que o normal, como se quisesse dizer para a platéia: "Caros, saboreiem cada nota desta maravilha!" E foi um banquete e tanto e um prenúncio de uma nova era para a OSB. Depois de sofrer durante anos na mão de regentes de quinta categoria e administrações catastróficas, ela renasceu no ano passado sob a direção do maestro Roberto Minczuk. Os concertos de Masur são a prova da capacidade do grupo sinfônico.
Abaixo, uma "palinha" de Masur e OSB na praia de Copabacana, Rio de Janeiro
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