Às 14 horas da terça-feira passada, o músico inglês Roger Waters chegou ao Teatro Amazonas, em Manaus, com um bom repertório de vivências "típicas" da região. Ele havia pescado tucunarés. Havia feito passeios de barco para nadar com botos e avistar macacos. E também tinha apreciado um pôr-do-sol no Rio Negro, com um copo de gim-tônica nas mãos. Faltava descobrir o peculiar senso de tempo dos amazonenses, assim descrito pelo romancista Milton Hatoum, nativo do estado: "O fluxo do tempo é tão lento que a vida pode se arrastar sem pressa". Ansioso para conferir detalhes da montagem de sua ópera Ça Ira, Waters não encontrou ninguém no teatro. Só depois de vinte minutos, pontuados por bufos e imprecações ("Bastards!"), ele pôde se enfurnar numa sala ao lado do palco, de onde testou uma série de efeitos sonoros. Bem mais ao seu gosto foi a pontualidade com que, naquela noite, aconteceu a estréia do espetáculo. Às 20 horas, o músico subiu ao palco e agradeceu às autoridades do estado, em português, pela iniciativa de produzir Ça Ira. Estava aberto oficialmente o 12º Festival Amazonas de Ópera. A esta altura, o leitor talvez esteja perguntando: Roger Waters? Sim, é ele mesmo, o baixista do Pink Floyd, uma das bandas de rock mais cultuadas de todos os tempos. Ça Ira (algo como "agora vai") é uma parceria de Waters com os compositores franceses Étienne e Nadine Roda-Gil. Em 1988, eles apresentaram ao roqueiro um libreto que mostrava a história da Revolução Francesa contada por uma trupe de circo. De acordo com Waters, o presidente francês François Mitterrand teria adorado a idéia e queria apresentá-la na Ópera da Bastilha no ano seguinte, durante as comemorações do bicentenário da revolução. Uma série de problemas impediu que isso acontecesse, mas Waters não desistiu. Sete anos depois, retomou a idéia. Como não sabia escrever para orquestra, lançou mão de um programa de computador que lhe permitia simular o toque de cada instrumento. Depois, chamou o maestro inglês Rick Wentworth para dar forma final a suas idéias musicais. "Rick dizia: ‘O solo de oboé é lindíssimo, mas o instrumento não pode soar tão alto, caso contrário o oboísta estaria com os lábios sangrando depois de tocá-lo’.", conta Waters. O Festival Amazonas de Ópera já se consagrou como um dos principais eventos do mundo erudito brasileiro. Traz espetáculos de excelente nível, comandados pelo maestro Luiz Fernando Malheiro e pela Amazonas Filarmônica. Entre as óperas já apresentadas em seu palco, e antes inéditas no Brasil, contam-se, por exemplo, a tetralogia O Anel dos Nibelungos, do alemão Richard Wagner, e Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, do russo Shostakovich. Em novembro passado uma produtora de São Paulo procurou o diretor Caetano Vilela. Disse que tinha adquirido os direitos de Ça Ira e gostaria que ele ajudasse a montar o espetáculo no Brasil. Vilela, que há dez anos trabalha no festival de Manaus, resolveu aproveitar a oportunidade para dar um toque "pop" ao evento. O objetivo foi cumprido. Fãs do ex-grupo de Waters compareceram em peso. A paranaense Elzira Miotto, de 61 anos, gastou 1 600 reais e viajou por nove horas para assistir ao espetáculo do seu ídolo. "Pink Floyd foi a minha redenção. Eu tinha um casamento infeliz e fui salva pelos temas de The Wall", diz ela, que assistiu às montagens de Ça Ira em Roma e na cidade polonesa de Poznan, e ainda pretende vê-la em Amsterdã. Mas, como observou o colunista Rogério Pina no jornal A Crítica, de Manaus, a audiência era bem mais variada – "um eclético mix que ia de senhorinhas tradicionais a roqueiros curiosos pelo novo trabalho do pink floyd Roger Waters e muitos gays, público chegado a um espetáculo do tipo". Quando informaram a Luiz Fernando Malheiro que deveria reger uma ópera de Roger Waters, ele não entendeu quem era o compositor. A menção à antiga banda de rock do compositor não ajudou muito. "Pink Floyd? Acho que meu irmão tem discos deles", disse a um dos organizadores do evento. Ao descrever Ça Ira, contudo, Malheiros foi diplomático: afirmou que se trata de "uma obra fácil de conduzir". Alguns integrantes da Amazonas Filarmônica foram bem menos condescendentes. De fato, é uma licença descrever Ça Ira como ópera. O espetáculo está mais para um musical da Broadway – gênero que Waters afirma detestar. Não por acaso, os destaques do espetáculo são artistas que tinham certa experiência em musicais. É o caso do barítono brasiliense Leonardo Neiva, que trabalhou numa montagem de Les Misérables no Brasil e no México, e da soprano belenense Carmen Monarcha, parceira do holandês André Rieu (uma espécie de Kenny G do violino). Faltam à peça de Waters uma melodia mais bem estruturada e árias marcantes (a exceção é The Letter, defendida com galhardia por Leonardo Pace). Algumas seqüências são esdrúxulas – a boa cantora Gabriella Pace, por exemplo, passa dois atos inteiros a dar gargalhadas na pele de Maria Antonieta. Só é redimida na cena final, quando pode mostrar sua bela voz. Os amantes do Pink Floyd podem até gostar de Ça Ira, que terá novas récitas na terça e na quinta-feira. Mas os fãs de ópera certamente jamais se interessarão por Pink Floyd se forem submetidos à obra de Roger Waters.
"Os críticos até foram bonzinhos"
Como começou seu namoro com a música erudita? Sempre gostei de música erudita. Puccini é um dos meus autores prediletos, adoro a maneira como ele expõe o drama de seus personagens. Porém, só comecei a entrar definitivamente nesse mundo em meados da década passada, quando passei a freqüentar as salas de ópera em Londres. Um dos meus amigos era patrocinador de espetáculos e me fazia sentar bem no centro da orquestra. Dali pude observar os músicos e os detalhes de cada composição.
Os críticos de música erudita geralmente não aceitam as incursões de artistas do rock e do pop nesse gênero musical. Como o senhor reage a essas críticas? Os críticos de ópera até que foram bonzinhos. Uns disseram que as melodias eram muito óbvias. Outros criticaram o fato de eu compor uma ópera do período romântico, quando deveria criar algo mais contemporâneo. Mas o que eu posso fazer? Sinceramente, não me emociono com a música de um compositor como Harrison Birtwistle, que cria obras com precisão matemática. Jamais faria algo desse tipo. Agora, todo mundo tem o direito de escrever o que quiser. Só não me peçam para acatar as sugestões.
O senhor espera que os fãs do Pink Floyd comecem a ouvir ópera por causa de Ça Ira? Sei lá. Talvez dez ou doze pessoas comecem a pesquisar música erudita depois de experimentar a minha obra.
Já foi dito que o tema principal de O Fantasma da Ópera, de Andrew Lloyd Webber, foi roubado de Echoes, canção do Pink Floyd. O senhor vê alguma semelhança entre as canções? Com certeza. Aliás, fui processado por causa disso. Odeio a música de Andrew Lloyd Webber, nunca tive um disco dele em casa. Mas certa vez aluguei uma casa de veraneio e o antigo locatário havia deixado a trilha de O Fantasma da Ópera no local. Quando escutei, tomei um susto porque o tema principal é muito parecido – para não dizer outra coisa – com Echoes. Um dia, fiz a besteira de declarar isso a um jornal inglês e fui processado por Webber! Ele alegou ter-se "inspirado" num compositor erudito já falecido e não no Pink Floyd. Eu fiz uma retratação e nunca mais toquei nesse assunto. Até você perguntar...
O senhor vive em Manhattan. Tem algum candidato para as eleições americanas? Sou um grande fã de Barack Obama. É um sujeito especial. Você consegue encará-lo e acreditar em cada palavra que ele diz. Não acredito em nada do que a Hillary Clinton diz, acho que ela é uma maluca e faminta de poder. Não existem diferenças entre ela e o candidato republicano John McCain, ambos querem bombardear o Irã. Barack Obama, para mim, é mais que uma falsa promessa.
A história do Pink Floyd renderia um bom libreto de ópera? Sinceramente, essa história não me interessa. Se alguém quiser contar, pode seguir em frente.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Elas ficam caidinhas
Como conquistador, o jornalista americano Neil Strauss era um grande crítico de música. Trabalhava na redação do jornal The New York Times, colaborava com a revista Rolling Stone e tinha projetos paralelos como uma biografia apimentada do cavernoso cantor Marilyn Manson. Sua vida amorosa, no entanto, era um desastre completo. As mulheres o viam como amigo, nunca como amante em potencial. A gota d’água aconteceu quando Strauss acompanhava uma excursão do Mötley Crüe, grupo que promovia orgias capazes de enrubescer Calígula, e o máximo que recebeu foi um beijo... dado pelo baterista da banda. Ele decidiu então gastar 500 dólares no curso ministrado por um tal de Mystery (cujo site pode ser encontrado na internet) para aprender como seduzir o sexo oposto. O resultado da experiência é narrado em detalhes – e com doses certamente altas de ficção – em O Jogo (tradução de Mauro Pinheiro; Best Seller; 488 páginas; 49,90 reais), que chega às livrarias nesta sexta. O Jogo é um misto de autobiografia, romance e livro de auto-ajuda. Strauss conta como se transformou em Style, garanhão que conquistou mais de 100 mulheres, contra as sete de sua encarnação anterior. Para atingir seu objetivo, ele raspou a cabeça, tomou um banho de loja, clareou os dentes e mentiu sobre sua profissão – "são raras as mulheres que saem com jornalistas", alega (e tem toda a razão). Além disso, aprendeu a se aproximar das moças com a cantada perfeita (veja a fórmula no quadro abaixo). A melhor delas é o que ele chama de neg, que consiste em ignorar ou depreciar a pessoa desejada – é uma espécie de esnobada com estilo. "Funciona no mundo inteiro, pode testar", disse, em entrevista a VEJA, com uma convicção de guru de auto-ajuda. Style narra as caçadas dele e de seus companheiros – que ganharam apelidos esdrúxulos como Herbal, Papa e Playboy – pelas noites de Los Angeles, e descreve cenas de sexo com precisão científica. Perto do fim, O Jogo cede ao bom-mocismo. Style percebe que seus amigos são, no fundo, pessoas carentes e que tudo o que ele mais queria era uma namorada fiel. Porém, antes de chegar a essa conclusão, Style, ou melhor, Strauss, revela histórias de bastidores com personalidades como o ator Tom Cruise. Ele quis ser entrevistado pelo jornalista depois de ler um de seus artigos sobre sedução. No fundo, o que Cruise queria era levar mais um adepto para a cientologia. "Rezamos por igrejas diferentes", afirma Strauss. O sucesso de O Jogo transformou Neil Strauss em uma celebridade. Ele já lançou mais um livro sobre sedução e vendeu os direitos de O Jogo para o cinema. Recentemente, os seriados Ugly Betty e CSI: Miami criaram personagens baseados em Style. Tanta técnica, no entanto, não o livrou de alguns reveses. De acordo com alguns sites de fofoca, a moça que ele tinha como amor de sua vida o trocou pelo cantor Robbie Williams. "Tudo bem, tenho outra namorada", diz o escritor. No mundo de O Jogo, o que importa é faturar.
Ganhe todas
As táticas do neogaranhão, segundo Neil Strauss
1. Nunca a encare. Faça como Robert Redford no filme O Encantador de Cavalos – chegue de lado e suavemente 2. Se tiver de encará-la, nunca o faça por mais de três segundos. Senão, vai perder a coragem 3. Sempre comece a conversa com frases tolas como "Você viu aquelas duas meninas brigando?" ou "Você acredita em mágica?". Isso vai quebrar o gelo 4. Use o neg. É uma tática que consiste em esnobar o objeto de desejo, de modo a reduzir sua auto-estima. Diga frases do tipo: "Que unhas bonitas! São de verdade?" 5. Sempre use o sorriso do macho alfa – aquele que causa a impressão de que, além de divertido, você é alguém na vida
Ganhe todas
As táticas do neogaranhão, segundo Neil Strauss
1. Nunca a encare. Faça como Robert Redford no filme O Encantador de Cavalos – chegue de lado e suavemente 2. Se tiver de encará-la, nunca o faça por mais de três segundos. Senão, vai perder a coragem 3. Sempre comece a conversa com frases tolas como "Você viu aquelas duas meninas brigando?" ou "Você acredita em mágica?". Isso vai quebrar o gelo 4. Use o neg. É uma tática que consiste em esnobar o objeto de desejo, de modo a reduzir sua auto-estima. Diga frases do tipo: "Que unhas bonitas! São de verdade?" 5. Sempre use o sorriso do macho alfa – aquele que causa a impressão de que, além de divertido, você é alguém na vida
Na trilha de Carmen Miranda
Desde 1939, quando Carmen Miranda estrelou a revista musical Streets of Paris com a dupla de comediantes Abbott & Costello (de quem logo roubaria a cena), nenhum brasileiro alcançou o feito do barítono Paulo Szot num palco da Broadway, em Nova York. Desde o início do mês, o cantor paulista de 38 anos é o protagonista da nova versão de South Pacific, da dupla Rodgers & Hammerstein. A versão original do musical ficou em cartaz de 1949 a 1954 – e tornou-se um dos shows mais celebrados na história da Broadway. A crítica reservou elogios especiais a Szot. Ben Brantley, do The New York Times, definiu o barítono como "charmoso" e chamou atenção para a "química intensa" entre Szot e Kelli O’Hara, sua parceira de cena. South Pacific fala do romance entre um fazendeiro francês, Emile de Becque, e uma enfermeira americana numa ilha da Polinésia. O romance desanda quando vem à tona que Emile tem filhos mestiços, nascidos do relacionamento com uma nativa. Szot tem um currículo respeitável como artista de ópera. Nascido em Ribeirão Pires, na Grande São Paulo, mudou-se para a Polônia aos 18 anos a fim de estudar canto. Trabalhou quatro anos na Companhia Estatal de Canto Slask, do Grande Teatro de Varsóvia. "Peguei o final do comunismo. Tinha de entrar numa fila imensa para ganhar tíquetes que valiam sabão e comida", lembra-se. De volta ao Brasil, foi protagonista de produções como Don Giovanni, de Mozart, e O Barbeiro de Sevilha, de Rossini. Szot tem uma carreira internacional ascendente. Em Nova York, já trabalhou em cinco grandes produções, com destaque para Carmen, de Bizet. Em abril do ano passado, Szot recebeu uma ligação de seu agente, perguntando se não estaria interessado em fazer testes para South Pacific. Foi um convite inesperado. A Broadway não é muito receptiva a cantores estrangeiros. Além disso, há desconfiança recíproca entre o mundo erudito e o dos musicais populares. Szot conta que muitos de seus colegas torceram o nariz ao saber que ele ia tomar parte nos testes para South Pacific. "Sim, claro que South Pacific é música popular. Mas da melhor qualidade, e foi isso que levei em conta", diz o barítono. Ele também teve de enfrentar o ceticismo dos profissionais da Broadway, que costumam fazer pouco das habilidades cênicas dos cantores líricos. Ao fim, Szot não apenas venceu as provas de canto e interpretação como também testou as candidatas a Nellie Forbush, par romântico de seu personagem. Todas as atrizes que fizeram o teste ao seu lado choraram depois de ouvi-lo cantar Some Enchanted Evening, ária do musical que se tornou um standard do cancioneiro americano. Ou, ao menos, é essa a história que se conta nos bastidores. No momento, a maior preocupação de Szot é agüentar o ritmo das apresentações. A Broadway exige mais dos cantores, que sobem ao palco oito vezes por semana – contra três récitas semanais num teatro de ópera. South Pacific deve ficar em cartaz até janeiro de 2009. "É como se de repente eu tivesse passado a competir no decatlo", diz Szot. "Vou agüentar. Mas terei de treinar bastante."
quinta-feira, 3 de abril de 2008
O riso nosso de cada dia
Na terça-feira passada, o ator Marco Luque dava entrevista a VEJA no saguão do Avenida Club, uma casa de espetáculos de São Paulo, quando foi abordado por duas senhoras. "Hoje tem motoboy, né?", perguntaram. Luque respondeu que sim e duas horas depois estava no palco, devidamente trajado como o motoqueiro Jackson Five. Saudado com uma explosão de gritos e aplausos pela platéia lotada, Jackson expôs sua filosofia: "As avenidas são as artérias, as ruas são as veias e nóis é o quê? Nóis é lactobacilo vivo!". Ele é um dos grandes sucessos do Terça Insana, um dos mais longevos e aclamados espetáculos de humor do país. No mês passado, o Terça Insana deu início à sua sétima temporada. A trupe composta por Grace Gianoukas, Roberto Camargo, Agnes Zuliani, Guilherme Uzeda e Marco Luque estreou O Povo Brasileiro, show com catorze quadros inspirados – de maneira amalucada – nos escritos do antropólogo Darcy Ribeiro. Personagens já clássicos, como o boleiro aposentado Esquerdinha, se alternam com novos, como Cardeal & Arcoverde, dois japoneses que cantam sertanejo, e a princesa Carlota Joaquina. O sucesso do Terça Insana não é difícil de explicar. Ele leva ao palco um certo "humor de caracterização", velho conhecido do público brasileiro. É a mesma comédia calcada numa galeria de tipos ou personagens que, na televisão, se pode ver em programas como Zorra Total ou A Praça É Nossa. A diferença está no texto – mais sutil e avesso a descambar para a piada chula. Grace Gianoukas dirige e cuida da redação final. Suas diretrizes estão registradas num texto que ela manda para atores que aspiram a tomar parte no espetáculo. Não são aceitas, por exemplo, imitações de famosos, piadas com minorias e novas versões de personagens que já passaram pelo show. "Octávio Mendes fazia uma freira ótima. Por que eu quereria outra?", diz, referindo-se à Irmã Selma, personagem que Mendes defendeu de 2001 a 2006, antes de se desligar do Terça Insana. A vigilância de Grace é exercida mesmo sobre quadros que já estão no palco há tempos, e com sucesso. A própria Irmã Selma teve de abandonar uma de suas tiradas. "Sempre defendi que o humor é a melhor arma contra o preconceito. Mas Grace achava uma certa anedota preconceituosa e insistiu até que eu a deixei de fora", conta Mendes. O Terça Insana nasceu no fim de 2001. Grace, veterana do cenário alternativo na São Paulo da década de 80, foi convidada a ocupar o N.Ex.T. (Núcleo Experimental de Teatro), misto de clube e teatro localizado no centro da cidade. Ela chamou seus amigos mais próximos, os humoristas Marcelo Mansfield, Roberto Camargo, Octávio Mendes e ainda Marcelo Médici, um ator que vinha se destacando no cenário humorístico, e montou o Terça Insana. Muitos dos personagens eram conhecidos do público que acompanhava a carreira de Grace, Mansfield e Mendes – como Aline Dorel, musa do cinema viciada em Lexotan. Em 2003, a trupe se transferiu para o Avenida Club. A formação atual vem de 2006. Grace pinçou o elenco em meio a dezenas de atores que atuaram como convidados especiais do espetáculo. Cada um tem sua peculiaridade. A paulistana Agnes Zuliani tem influências da stand-up comedy, um tipo de humor popular nos Estados Unidos, no qual o comediante enfrenta a platéia de pé, munido apenas de um microfone. Não por acaso, os melhores momentos de Agnes acontecem quando ela dá vazão a essa veia, como no A Mal Amada. Uzeda e Luque, por seu turno, tinham outras profissões antes de se descobrirem comediantes. O paulistano Uzeda trabalhou como psicólogo para manter a tradição familiar e de vez em quando atuava em peças infantis. Um dia, uma paciente o viu caracterizado como o caçador da Branca de Neve. "Eu fazia um caçador meio bronco e ela achou que não dava mais para ser analisada por mim", diz. Uzeda largou a psicologia e foi atuar em peças e humorísticos até ser descoberto por Grace. No Terça Insana, arranca gargalhadas do público na pele do palestrante Luis Otavio e do caipira Vicente, fã de heavy metal e contador de causos. O também paulistano Marco Luque é um ex-jogador de futebol. Foi centroavante do Santo André e atuou em duas equipes da segunda divisão do futebol espanhol. Hoje interpreta dois dos personagens mais populares do Terça Insana – Jackson Five e Silas Simplesmente, um taxista que só transporta pessoas famosas. No início de março, Luque levou os causos de Jackson para a Mix FM. O clima nos bastidores do Terça Insana é alto-astral. Grace é hiperativa e lembra muito os tipos que leva para o palco. Uzeda e Luque são descontraídos, ao passo que Camargo e Agnes são mais caladões. O maquiador Eliseu Cabral é uma espécie de consultor informal da trupe. "Eu dou palpites sobre os personagens e ajudo a passar o texto", diz ele. Após cada quadro, é comum que os humoristas avaliem seu desempenho ao lado dos companheiros de elenco. "As piadas do índio agradaram, mas eu não posso rir quando ele diz que foi ao Parque Trianon e aceitou uma carona de um diretor de teatro", observou Camargo ao sair do palco na semana passada (o Trianon, à noite, é reduto de garotos de programa em São Paulo). O sucesso dos personagens rende convites de emissoras de TV e rádio. "Eu já fui convidado duas vezes para fazer o Zorra Total, mas a minha prioridade é o Terça Insana", diz Luque. Uzeda recusou um convite para estrelar uma série de comerciais de cartão de crédito. "Quero ser conhecido pelos meus quadros, não pelo cartão", afirma. É um bom negócio participar do Terça Insana. O elenco divide algo em torno de 30 000 reais por apresentação no Avenida Club e faz ao menos oito shows por mês em outros palcos, com idêntico cachê. Ainda neste ano, serão lançados dois DVDs com os melhores momentos da história do espetáculo. O grupo espera usá-los como cartão de visita para ampliar a agenda de compromissos – sobretudo em outros estados. É como diria Jackson Five: "Nóis se prolifera!".
Quem é quem
1 - Roberto Camargo Ao lado de Grace, é o único remanescente da formação original. Atua como mestre-de-cerimônias, embora tenha personagens que caíram no gosto do público. É o caso do Índio e do modernete Betina Botox 2 - Marco Luque Está há dois anos no elenco. Luque tem dois tipos bastante populares – Silas Simplesmente, um taxista que só transporta gente famosa, e o Motoboy 3 - Agnes Zuliani Especialista em stand-up comedy, arrasa nas personagens A Mal Amada e Senadora Biônica. Atualmente, interpreta Carlota Joaquina e uma brasileira que mora em Miami – e odeia brasileiros 4 - Guilherme Uzeda É outro novato do Terça Insana. Seus tipos mais engraçados são Cardeal & Arcoverde, dupla sertaneja japonesa (que faz ao lado de Luque), o pobretão Zildo e o palestrante Luis Otavio 5 - Grace Gianoukas Criou a atração em 2001 e hoje responde pelo roteiro e pela direção artística do espetáculo. Os personagens mais famosos de Grace são Cinderela, uma traficante de drogas, e Aline Dorel, musa do cinema viciada em Lexotan. Atualmente, interpreta uma professora e uma adolescente revoltada
A primeira geração
Dizer que o Terça Insana serviu de trampolim para veteranos como Marcelo Mansfield e Octávio Mendes seria exagero. Participar do espetáculo, contudo, certamente reforçou o cacife desses comediantes. Mansfield, que integrou o Terça Insana de 2001 a 2005, é a estrela de Nocaute, que estréia nesta semana em São Paulo. "É um show de stand-up comedy, bem diferente do Terça", diz ele. Mansfield também levou um de seus tipos para a televisão. Seu Merda, um maridão passivo, hoje marca presença no Zorra Total, da Rede Globo. Virou Seu Banana (e perdeu parte da graça). Octávio Mendes e Ângela Dip são outros pioneiros do Terça Insana que se lançaram em espetáculos-solo. Eles estrelam Humor de Quinta, ao lado do comediante Sérgio Rabello. Ali, Mendes encarna seus personagens mais famosos, como a Irmã Selma – freira um tanto perversa que trabalha como humorista para realizar o sonho (suspeito no seu caso) de fundar um orfanato. Mendes foi outro que levou um tipo para a televisão. Em A Praça É Nossa, ele é Walmir, um ex-gay. Mas quem aproveitou melhor sua passagem pelo elenco do Terça Insana foi Marcelo Médici, que interpretava o Mico Leão Dourado Gay. Ele saiu do espetáculo depois de uma temporada e, desde então, criou o show Cada um com Seus Pobrema e participou das novelas Belíssima e Sete Pecados, da Rede Globo. No segundo semestre, Médici vai atuar na nova versão de O Mistério de Irma Vap, um dos maiores sucessos de bilheteria da história do teatro no país.
Quem é quem
1 - Roberto Camargo Ao lado de Grace, é o único remanescente da formação original. Atua como mestre-de-cerimônias, embora tenha personagens que caíram no gosto do público. É o caso do Índio e do modernete Betina Botox 2 - Marco Luque Está há dois anos no elenco. Luque tem dois tipos bastante populares – Silas Simplesmente, um taxista que só transporta gente famosa, e o Motoboy 3 - Agnes Zuliani Especialista em stand-up comedy, arrasa nas personagens A Mal Amada e Senadora Biônica. Atualmente, interpreta Carlota Joaquina e uma brasileira que mora em Miami – e odeia brasileiros 4 - Guilherme Uzeda É outro novato do Terça Insana. Seus tipos mais engraçados são Cardeal & Arcoverde, dupla sertaneja japonesa (que faz ao lado de Luque), o pobretão Zildo e o palestrante Luis Otavio 5 - Grace Gianoukas Criou a atração em 2001 e hoje responde pelo roteiro e pela direção artística do espetáculo. Os personagens mais famosos de Grace são Cinderela, uma traficante de drogas, e Aline Dorel, musa do cinema viciada em Lexotan. Atualmente, interpreta uma professora e uma adolescente revoltada
A primeira geração
Dizer que o Terça Insana serviu de trampolim para veteranos como Marcelo Mansfield e Octávio Mendes seria exagero. Participar do espetáculo, contudo, certamente reforçou o cacife desses comediantes. Mansfield, que integrou o Terça Insana de 2001 a 2005, é a estrela de Nocaute, que estréia nesta semana em São Paulo. "É um show de stand-up comedy, bem diferente do Terça", diz ele. Mansfield também levou um de seus tipos para a televisão. Seu Merda, um maridão passivo, hoje marca presença no Zorra Total, da Rede Globo. Virou Seu Banana (e perdeu parte da graça). Octávio Mendes e Ângela Dip são outros pioneiros do Terça Insana que se lançaram em espetáculos-solo. Eles estrelam Humor de Quinta, ao lado do comediante Sérgio Rabello. Ali, Mendes encarna seus personagens mais famosos, como a Irmã Selma – freira um tanto perversa que trabalha como humorista para realizar o sonho (suspeito no seu caso) de fundar um orfanato. Mendes foi outro que levou um tipo para a televisão. Em A Praça É Nossa, ele é Walmir, um ex-gay. Mas quem aproveitou melhor sua passagem pelo elenco do Terça Insana foi Marcelo Médici, que interpretava o Mico Leão Dourado Gay. Ele saiu do espetáculo depois de uma temporada e, desde então, criou o show Cada um com Seus Pobrema e participou das novelas Belíssima e Sete Pecados, da Rede Globo. No segundo semestre, Médici vai atuar na nova versão de O Mistério de Irma Vap, um dos maiores sucessos de bilheteria da história do teatro no país.
Stones chapa-branca
Dois anos atrás, quando Martin Scorsese anunciou que faria um documentário sobre os Rolling Stones, a crítica se perguntou qual versão da banda chegaria às telas – se a do detalhista Scorsese, que não esconde a intimidade de seus biografados (como em No Direction Home, sobre Bob Dylan), ou a de Mick Jagger, conhecido por controlar a imagem de seu grupo com eficiência stalinista. The Rolling Stones Shine a Light (Estados Unidos/Inglaterra, 2008), que estréia nesta sexta-feira no país, mostra que Jagger venceu a disputa. E sem muito esforço. Fã confesso dos Stones, o diretor se deixou deslumbrar pelo carisma do quarteto e tratou de evitar tudo o que pudesse cheirar a polêmica. É verdade que poucas vezes os Stones foram tão bem filmados. Scorsese registrou duas apresentações da banda no Beacon Theatre de Nova York, em novembro de 2006, com dezesseis câmeras – que capturaram as rugas de Jagger, o rosto talhado a machado de Keith Richards e a eterna expressão de enfado do baterista Charlie Watts. Os fãs que se cansaram da mesmice do repertório dos últimos DVDs dos Stones, além disso, terão motivos para alento. O show inclui várias canções de Some Girls (1978), um dos discos mais saborosos da banda, e a participação especial de Jack White, do grupo White Stripes, da cantora Christina Aguilera e do bluesman Buddy Guy. O diretor também não maquia os defeitos da apresentação. Estão ali as derrapadas de Richards e Jagger – que a certa altura esquece a letra do clássico Sympathy for the Devil. Isso, porém, é o máximo de indiscrição que o filme se permite. Ex-integrantes da banda, como o baixista Bill Wyman e o guitarrista Mick Taylor, são ignorados – talvez porque teriam outras histórias a contar. Em sua defesa, os Stones podem alegar que não têm muita sorte com documentários. Gimme Shelter, de 1970, mostra uma apresentação desastrada do grupo, durante a qual um jovem foi assassinado por seguranças; C***sucker Blues, de 1972, tinha tantas cenas de sexo e drogas (e de baixarias causadas pelo excesso desses dois ingredientes) que foi vetado antes de chegar às telas. Comportadíssimo, Shine a Light não vai além das apresentações ao vivo e de uma ou outra entrevista de arquivo. O único sinal de rebeldia é o piti que Scorsese dá ao saber que o grupo não entregou a lista de canções do show. Para quem fez No Direction Home, é muito pouco.
Por que só dá ela ela ela...
Barbados está fazendo história na música. A ilha caribenha, cuja economia gira em torno do turismo e da exportação de cana-de-açúcar, é terra natal do fenômeno Rihanna. Nos últimos nove meses, a cantora de 20 anos emplacou três hits nas rádios do mundo inteiro: Hate that I Love You, dueto com o cantor Ne-Yo e atualmente a música internacional mais tocada nas FMs brasileiras; Don’t Stop the Music, pop dançante que remete aos melhores momentos de Michael Jackson e Madonna; e Umbrella, a música do guarda-chuva, que ficou em primeiro lugar nos Estados Unidos e na Europa e foi eleita pela crítica como uma das melhores canções de 2007 (certamente é a mais pegajosa, com o refrão "ella, ella, eh... eh... eh..."). Conseqüência natural do sucesso nas rádios, Rihanna também explodiu em vendagem. Seu terceiro CD bateu a marca de 4 milhões de cópias vendidas mundo afora. O título do disco, Good Girl Gone Bad (A Menina Boa Virou Má), não é muito encorajador. A divisão do mundo entre cantoras boazinhas e malvadas já se tornou enfadonha. Felizmente, Rihanna não parece muito inclinada a entrar nesse jogo. Limita-se a cantar o seu bom repertório, esbanjar beleza, divertir-se e divertir. Cinco anos atrás, Evan Rogers, executivo da indústria musical e produtor de ‘NSync e Rod Stewart, passava férias em Barbados quando um amigo o alertou sobre o talento de uma cantora local. Rogers aceitou fazer um teste com a moça e pediu para ela cantar um sucesso do Destiny’s Child, trio americano de R&B. Rihanna cantou a música e agradou. Rogers gravou com ela um CD-teste e passou a oferecer o passe de sua protegida a diversas gravadoras americanas. Ela acabou sendo contratada pela Def Jam, presidida pelo rapper Jay-Z. A estratégia inicial de Rogers e da Def Jam foi vender Rihanna como uma típica artista caribenha. Seus dois primeiros álbuns são calcados na música daquela região, em especial o dancehall (uma mistura de reggae com eletrônica). Para o terceiro disco, Jay-Z optou por transformar Rihanna numa diva da música negra. Foi uma das decisões mais acertadas de sua carreira. Good Girl Gone Bad tem colaboração de nomes do primeiro escalão, como o produtor Timbaland, o cantor Justin Timberlake (que se contentou em fazer vocais de apoio) e o compositor The-Dream. Esse time não apenas compôs os hits radiofônicos como deu a Rihanna credibilidade no meio hip hop – que a via como uma artista fabricada. As outras canções do CD alternam um pop dançante com baladas românticas de letra convencional, que falam de como ela sofre quando briga com o namorado (tema de Hate that I Love You) ou de como apóia seu amor em todos os momentos (Umbrella). Rihanna já enfrentou chuva ácida: alguns boatos deram conta de um suposto caso com Jay-Z – seu patrão e marido da cantora Beyoncé. Certo mesmo é que ela já pôs os atores Josh Hartnett e Shia LaBeouf, felizardos, sob a sua umbrella.
Bob Dylan no palco
Bob Dylan, um dos maiores nomes da música popular do século XX, tem uma relação peculiar com o palco. Suas declarações sobre o assunto são ambíguas – o que não é novidade em se tratando de um artista que nunca fez questão de se justificar. Dylan já disse que cantar por dinheiro diante de uma audiência é uma profissão "apenas um degrau acima da de cafetão". Mas também afirmou que "em diversos momentos da vida só fui feliz no palco". Na falta de uma explicação cabal, resta observá-lo em ação. Vinte anos atrás, ele deu início ao que chama de Never Ending Tour (Turnê sem Fim). Até agora foram mais de 2.000 shows, cerca de 100 por ano, religiosamente. É difícil imaginar outro cantor ou banda de renome semelhante que repita esse padrão: o frenesi das turnês costuma ser intercalado com períodos de descanso. Dylan, além disso, se apresenta em locais inusitados. Nos Estados Unidos, em vez de limitar-se às casas de show consagradas, toca em feiras, cassinos, rodeios. A idéia de uma "turnê sem fim", contudo, não remete apenas ao volume de shows. Tem a ver também com a maneira como ele organiza seu repertório, misturando canções recentes com clássicos da própria lavra e composições alheias – como se todas as músicas fizessem parte de um continuum. Quando revisita seus sucessos, Dylan não é reverente, e com freqüência os subverte. Nesta semana, o cantor visita o Brasil para shows em São Paulo e no Rio de Janeiro. Não é má aposta esperar por surpresas. Não será surpresa ver o músico passar a maior parte do tempo ao teclado, e não na guitarra. Em 1966, esse último instrumento ajudou a transformar Dylan num personagem notório – um ícone da cultura jovem. Sua turnê daquele ano às vezes acabava em pancadaria, quando fãs que esperavam um show acústico se viam apanhados em meio ao barulho elétrico. Durante um show em Manchester, na Inglaterra, Dylan foi chamado de Judas por um admirador xiita. A guitarra o acompanhou pela maior parte dos 45 anos de carreira, mas nos últimos tempos ele a empunha com menor freqüência – ao que parece, por causa de dores nas costas. O grupo atual de Dylan é o melhor desde o tempo em que ele se apresentava com a The Band, que tinha brilho próprio e ocupa posição de destaque na história do country-rock americano. A parceria entre Dylan e a The Band durou oito anos e gerou um extraordinário disco ao vivo – Before the Flood, de 1974. O grupo que vem ao Brasil é formado por instrumentistas veteranos como Tony Garnier (baixo) e Denny Freeman (um virtuose da guitarra), que conhecem a fundo não apenas a obra de Dylan, mas também gêneros antigos de que ele sempre se alimentou – como o ragtime ou o blues de raiz. Recentemente, numa reportagem do jornal The New York Times, um guitarrista que já se desligou do grupo rememorou a experiência de acompanhar Dylan em sua Never Ending Tour: "Tocávamos clássicos, canções folk, canções da Guerra Civil Americana. Ele podia escolher qualquer coisa". O conhecimento enciclopédico, como se vê, é necessário para sobreviver ao contato com um bandleader implacável – e sempre inquieto.
Assinar:
Postagens (Atom)