sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A geopolítica do pop

A fama internacional da cantora inglesa de ascendência singalesa M.I.A. se deve ao seu mix festeiro de reggae, música eletrônica e até funk carioca, mas trouxe também um curioso efeito colateral: jovens que de outro modo jamais prestariam atenção às perturbações políticas do obscuro Sri Lanka subitamente tomaram conhecimento das reivindicações da duplamente obscura etnia tâmil por uma nação independente. M.I.A. é filha de um líder dos Tigres da Libertação, violenta organização terrorista que há 26 anos instiga a guerra civil naquele país (e que teria sido finalmente esmagada no mês passado, segundo o governo do Sri Lanka). O apoio de M.I.A. à causa do pai - com quem há muito não tem contato, pois ela voltou ainda criança para a Inglaterra - se dá de forma sutil, como o tigre que rosna no vídeo da canção Bird Flu. Mas isso basta para fazer a informação circular entre ouvintes e fãs. E o caso de M.I.A. não é único. Aberto a artistas de todas as partes do mundo, o pop às vezes chama atenção para conflitos renhidos, mesmo quando as letras não trazem nem sombra de discurseira política ou espírito "engajado". Uma demonstração disso está no mapa que ilustra esta reportagem. O aspecto, digamos, geopolítico do pop emerge com frequência da biografia de músicos apanhados pelas tempestades da história. É o caso do jazzista Ray Lema, que fez shows no Brasil há duas semanas. Em 1979, o compositor congolês escrevia uma ópera sobre a África quando recebeu uma proposta que classificou de indecorosa. O governo "pedia" que a peça fosse convertida em uma ode ao ditador Mobutu Sese Seko, que governou o Zaire (hoje República Democrática do Congo) entre 1965 e 1997. Lema não topou. "Nunca aceitei dinheiro para louvar os feitos dos governantes", disse a VEJA. A recusa custou caro: o músico foi demitido do cargo de diretor artístico do Balé Nacional do Zaire, seus bens foram confiscados e ele foi proibido de fazer shows por cinco anos. Mas não esperou pelo fim do degredo artístico: aproveitou uma turnê pelos Estados Unidos para se despedir em definitivo da terra natal. "Havia recebido uma licença para ficar três meses fora do país. Estou longe de casa há trinta anos", diz o músico, hoje radicado em Paris. Na Geórgia, o grupo pop Stephane & 3G marcou seu protesto contra a invasão do país pela Rússia, em agosto de 2008, sem fazer propriamente uma canção de protesto. A banda foi proibida de participar do Eurovision, tradicional concurso musical europeu (que neste ano calhou de ser apresentado em Moscou), porque o regulamento proíbe letras de conteúdo político. A crítica estava disfarçada em um trocadilho da música, cantada em inglês: a frase We Don¿t Wanna Put In pode ser interpretada como Não Queremos Putin, ou seja, como ataque direto a Vladimir Putin, o todo-poderoso ex-presidente da Rússia. A banda punk cubana Porno Para Ricardo é igualmente bem-humorada, mas mais explícita, em suas estocadas contra a tirania dos irmãos Fidel e Raúl Castro. Seu maior sucesso, El Comandante, também se vale de um trocadilho para satirizar a decrepitude de Fidel: no modo como é berrado pelo guitarrista Gorki Águila, o título revolucionário "Comandante" se desdobra em "Coma Andante". A polícia comunista retaliou: Gorki foi preso em 2008, acusado de "periculosidade social". Acabou liberado, por pressão internacional - mas os shows de sua banda em Havana são eventos clandestinos. "O regime cubano não tolera nenhuma manifestação artística que contrarie sua ideologia. E não aceita o rock, música típica dos Estados Unidos", diz Gorki. A mesma desconfiança de um governo totalitário em relação às origens americanas do rock assombrou a carreira do Acrassicauda, banda que cometeu a temeridade de fazer thrash metal - vertente mais rápida e pesada do heavy metal - no Iraque de Saddam Hussein. O trio começou suas atividades em 2001, em Bagdá, mas nos dois anos seguintes só conseguiu fazer três apresentações. A invasão liderada pelos Estados Unidos, em 2003, não foi exatamente auspiciosa para a banda: o único lugar que tinha para ensaiar acabou bombardeado. O grupo migrou para Istambul, na Turquia, e virou tema do documentário Heavy Metal em Bagdá, exibido em 2007. Mais recentemente, mudou-se para os Estados Unidos - onde está finalmente gravando seu primeiro disco. Na vizinha Síria, o grupo instrumental Hewar vem fazendo sua mistura de ritmos árabes e orientais sem ser incomodado pela ditadura. O nome do conjunto quer dizer "diálogo", palavra que resume sua proposta generosa (e ingênua) para as tensões do Oriente Médio. Não por acaso, Kinan Azmeh, clarinetista do Hewar, também participa da Orquestra West-Eastern Divan, regida pelo israelense-argentino Daniel Barenboim, que integra músicos árabes e judeus. "O diálogo é a melhor saída para esses dois povos", entoa Azmeh. Viajar com o suspeito passaporte sírio tem trazido problemas para o músico, que é detido e interrogado nos aeroportos dos Estados Unidos sempre que desembarca para shows no país. O incômodo até virou tema de uma canção, Airports. Mais dramática é a situação de Souad Massi, pop star da Argélia que foi amea-çada pelos fundamentalistas islâmicos apenas porque ousava cantar música romântica e se mostrar como uma mulher independente. Em 1999, ela emigrou para Paris. "Meu país agora é o palco", declarou. Treze anos antes, o cantor de rai (uma espécie de blues argelino) Cheb Khaled também tomou o caminho da França. Fugiu da Argélia depois que seu produtor e outros artistas de rai foram assassinados por grupos fanáticos. A experiência do exílio, como se vê, é comum no colorido mundo do pop. Ray Lema guarda a esperança do retorno. Depois de trinta anos sem pisar no país natal, pretende voltar ao Congo no ano que vem. Mas tomou suas precauções: recrutou um grupo de jornalistas para acompanhá-lo nessa cruzada. "No meu país, quem fica parado vira comida de leão. Eu aprendi como não ser comido", diz.

Os músicos envolvidos em conflitos em todo o mundo

ARGÉLIA - Fundamentalismo
O país vive acossado pelo fundamentalismo islâmico. O cantor Cheb Khaled e a cantora Souad Massi exilaram-se para escapar às ameaças dos fanáticos

SÍRIA - Conflitos internacionais
O grupo Hewar vem propondo um diálogo musical entre sírios e israelenses, o que não é bem-visto pelo governo

GEÓRGIA - Conflitos internacionais
A banda pop Stephane & 3G faz músicas contra a intervenção russa no país - e contra Putin, o primeiro-ministro da Rússia

CUBA - Perseguição por ditadura
O grupo de punk rock Porno Para Ricardo faz músicas irreverentes contra a ditadura de Fidel Castro
IRAQUE - Conflitos internacionais
O grupo de heavy metal Acrassicauda foi opositor do governo de Saddam Hussein. Hoje está estabelecido nos Estados Unidos

REP. DEM. DO CONGO - Perseguição por ditadura
O cantor e compositor Ray Lema fugiu do país (então ainda chamado de Zaire) em 1979, por se recusar a compor uma ópera para o ditador Mobutu

SRI LANKA - Conflitos étnicos
O grupo terrorista Tigres da Libertação reivindica a criação de um estado próprio para sua etnia. A cantora M.I.A. é filha de um dos líderes do grupo

A lenda do roqueiro louco

No dia 31 de dezembro de 1981, o músico Arnaldo Baptista jogou-se de uma janela do hospital psiquiá-trico onde fora internado para tratar de problemas decorrentes do uso de alucinógenos. Feriu-se gravemente - chegou até a perder massa encefálica -, mas sobreviveu. Recuperado, isolou-se com a mulher em uma fazenda em Juiz de Fora, Minas Gerais, e converteu-se em pintor diletante. Só em 2004, depois de mais de vinte anos afastado dos estúdios, lançou o disco Let It Bed. Dois anos depois, juntou-se ao irmão guitarrista Sérgio Dias e ao baterista Dinho Leme para ressuscitar a banda que, no fim dos anos 60, o tornou uma figura legendária no rock brasileiro: os Mutantes (a cantora Rita Lee, que integrou a formação original do grupo, foi substituída por Zélia Duncan). Os shows da banda na Inglaterra, nos Estados Unidos e no Brasil contribuíram para alimentar o culto aos Mutantes - e em particular a Arnaldo, considerado o motor criativo da banda. Dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, o documentário Loki - Arnaldo Baptista (Brasil, 2009), que estreia nesta sexta-feira, reforça esse culto, mas também traça um belo retrato do roqueiro paulistano. Hoje com 60 anos, Arnaldo nasceu numa família de músicos - seu pai era cantor lírico e a mãe, pianista. Ao lado do irmão Sérgio e da primeira namorada (mais tarde primeira mulher), Rita Lee, criou os Mutantes em 1966. O trio promoveu uma mistura original de rock psicodélico e música brasileira, mas Rita Lee deixou o grupo (e o casamento) em 1972. O rompimento parece ter sido traumático para Arnaldo. Abalou seu estado mental, já conturbado pelo consumo de LSD. Em um dos depoimentos do filme, o artista plástico Antonio Peticov, amigo e empresário dos Mutantes, conta que certa vez Arnaldo o convidou para ser o capitão da nave espacial que estaria construindo. O documentário perde ímpeto quando mostra os shows dos Mutantes em 2006. Mas, antes disso, Loki traz maravilhosas cenas de arquivo, com entrevistas e shows dos Mutantes originais e cenas raras da Patrulha do Espaço, banda que Arnaldo montou nos anos 70. O filme investe na lenda de Arnaldo como "louco genial" - mas o que se vê de fato na tela é um músico talentoso, prejudicado pela loucura quimicamente induzida.

O homem que calculava

Em 1975, Renato Manfredini Jr., então com 15 anos, foi diagnosticado com uma condição que o imobilizaria na cama pelos dois anos seguintes. Sofria de epifisiólise - um desgaste dos ossos e cartilagens que faz a cabeça do fêmur se descolar da bacia. Nesse período de sofrimento e tédio, dedicou-se a criar uma banda de rock imaginária, a 42nd Street Band, na qual assumiria a persona do baixista e vocalista Eric Russell. Encheu cadernos e cadernos - em inglês - com a história da banda. Aos 19, já recuperado, o jovem dava os primeiros passos para realizar os projetos que esmiuçara nos seus rascunhos, como cantor e baixista do grupo punk Aborto Elétrico. Já adotara então o nome artístico com o qual ficaria conhecido: Renato Russo. Em 1985, ao lado do baterista Marcelo Bonfá, do guitarrista Dado Villa-Lobos e do baixista Renato Rocha, ele lançou o primeiro disco do Legião Urbana. Foi como letrista e vocalista dessa banda que Renato Russo se tornou o maior nome da história do rock brasileiro. Os treze discos do grupo e os quatro álbuns-solo do cantor somam 14 milhões de cópias vendidas - 300 000 unidades só no ano passado. Essa história de obstinação é narrada no saboroso Renato Russo: o Filho da Revolução (Agir; 416 páginas; 59,90 reais), do jornalista Carlos Marcelo, 39 anos, editor executivo do jornal Correio Braziliense. O livro não pretende ser uma biografia completa e abrangente. É antes um ensaio biográfico, centrado na tormentosa relação de Renato Russo com Brasília, cidade com a qual o Legião Urbana sempre seria identificado. O tumultuado show da banda no estádio Mané Garrincha, em 1988 - em que Renato Russo brigou com o público e interrompeu a apresentação com menos de uma hora de performance -, ganha um lugar central na narrativa de Marcelo. As relações amorosas de Renato Russo - com meninas e meninos, como dizia uma de suas letras -, as drogas e a morte em consequência da aids, em 1996, são tratadas de modo mais sucinto. Mesmo com essas lacunas deliberadas, O Filho da Revolução é um retrato mais profundo do músico do que O Trovador Solitário, biografia reverencial do jornalista Arthur Dapieve. Também é mais rico em documentos inéditos - fotos e fac-símiles de letras e notas do compositor, que farão a delícia do fã mais fetichista. O novo livro mapeia as relações familiares dos roqueiros de Brasília com o governo, ao tempo da ditadura militar. O jovem Renato Russo - filho de um funcionário graduado do Banco do Brasil - quis muito conhecer o garoto que tinha uma guitarra Gibson, item raríssimo na década de 70, quando as barreiras alfandegárias eram rigorosas. O proprietário da guitarra tinha um canal seguro para importar instrumentos: seu pai, que viajava ao exterior como piloto do presidente Ernesto Geisel. O nome do garoto: Herbert Vianna, futuro líder dos Paralamas do Sucesso. No círculo dos jovens roqueiros, apareciam também futuros políticos. Renato Russo foi colega de aula do atual ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima. Gordinho, Vieira Lima foi maldosamente apelidado de "Suíno" pela turma do músico, que não tinha simpatia por ele. "Geddel é in-su-por-tá-vel", o roqueiro dizia aos amigos. O próprio Renato Russo sabia ser bem insuportável. Era o chato do gênero "cabeça". Metido a cinéfilo, certa vez se irritou com o enredo convencional de Brubaker, filme estrelado por Robert Redford - e se levantou no meio do cinema para insultar, aos gritos, a plateia "burra" que apreciava aquele lixo de Hollywood. A excentricidade contribuiu para consolidar a aura de santo pop que cercaria Renato Russo em seus últimos anos. Mas nunca o impediu de conduzir a carreira de modo inteligente e calculado. Sua escolha dos integrantes do Legião Urbana é um bom exemplo. Cada um deles corporificava um "conceito" fundamental para a imagem da banda: Bonfá era o garoto bonito, Villa-Lobos tinha ares de menino-prodígio e Rocha, que era negro (e deixaria o Legião em 1988), conferia diversidade étnica ao conjunto. É claro que todo esse calculismo não teria adiantado nada se Renato Russo não fosse, além de obstinado, talentoso. Era habilidoso nas letras longas e complicadas que mesmo assim se prestavam à memorização fácil dos fãs - como Tempo Perdido e Faroeste Caboclo. De certo modo, o roqueiro de Brasília conseguiu encarnar o espírito de sua época. A juventude que se viu meio perdida entre o fim da ditadura militar e os primeiros anos de redemocratização deu voz à sua revolta sem objeto em canções como Geração Coca-Cola e Que País É Este. Renato Russo e o Legião Urbana acabaram sendo bem maiores do que Eric Russell e a 42nd Street Band.

Aperitivos musicais

No início de 2007, o violinista americano Joshua Bell - que faz concertos neste mês no Rio e em São Paulo - tocou peças de Bach e Beethoven, entre outros clássicos, por quase uma hora em uma estação de metrô de Washington. Alguns passantes depositaram trocados na caixa do violino (pouco mais de 32 dólares, na soma final), mas não se detiveram para ouvir o músico que, três dias antes, lotara uma das principais salas de concerto de Boston, com ingressos a uma média de 100 dólares. Bell não tirou grandes lições do episódio. "Foi só uma brincadeira", disse a VEJA. Mas seu experimento demonstra a importância do contexto para a apreciação da música erudita: feita para a formalidade ritual das salas de concerto, ela se perde no burburinho do metrô. A tentativa de expandir seu círculo restrito de aficionados é sempre arriscada. Discos de clássicos "populares" - como os realizados pelo violoncelista sino-americano Yo-Yo Ma e pelo próprio Bell - esbarram em uma contradição: alcançam um público maior, ao custo de entregar a esses ouvintes uma sombra das composições originais. Como tantos outros instrumentistas do mundo erudito, Bell, hoje com 41 anos, foi um menino-prodígio. Estreou como concertista aos 14, com a Orquestra da Filadélfia, regida então pelo irascível (porém genial) maestro Riccardo Muti. Na década de 90, o violinista foi contratado pela Sony Music. Assim como Yo-Yo Ma, abraçou as propostas do então diretor artístico, Peter Gelb, para incrementar as vendas do combalido mercado erudito. Talentoso e boa-pinta, Bell tem trabalhos bem reputados pela crítica - há pouco tempo, lançou uma interpretação revigorante de As Quatro Estações, de Vivaldi. Mas também faz discos com trechos de concertos e sonatas, trilhas de cinema e adaptações de peças sinfônicas. Seu álbum Romance of the Violin, com arranjos sentimentais de obras como O Cisne, de Camille Saint-Saëns, foi definido por um crítico da revista Gramophone como "um banho de melado". "Gravadoras vivem de lucro, e seria hipocrisia negar que eu atendo a esses interesses. Mas, para cada disco dessa categoria, recuso outras dez propostas", diz. (No Brasil, ele vai maneirar no melado: tocará uma composição do ultrarromântico Bruch, mas também peças mais sóbrias de Brahms ou Franck.) Compilações como Romance of the Violin - ou Simply Baroque, de Yo-Yo Ma - desconsideram, por definição, a integridade das composições eruditas. Esses discos trazem só o movimento mais "assobiável" de cada sinfonia ou concerto. Até meados do século XIX, as récitas orquestrais seguiam o mesmo procedimento, levando ao público excertos de músicas variadas. Mas as gerações de Brahms e Mendelssohn consolidaram o respeito pela totalidade da obra - que só veio a ser posto em xeque novamente no fim do século XX. Nos anos 90, quando era diretor artístico da Filarmônica de Berlim, o maestro italiano Claudio Abbado melindrou-se ao descobrir que a gravadora Deutsche Grammophon pretendia lançar uma coletânea de adágios regidos por ele. "Isso não é um disco, é um minestrone", esbravejou. A audição integral de uma sinfonia exige certa disposição de espírito. Pesquisas do compositor e teórico musical americano Robert Jourdain mostraram que pessoas de ouvido menos treinado só escutam em torno de quatro minutos de uma composição sinfônica - depois disso, a atenção se dispersa. Nessa perspectiva, a condenação de Abbado ao "minestrone" revela um purismo sufocante. Há muitos caminhos para a apreciação da grande música. Os discos ligeiros de Yo-Yo Ma ou Joshua Bell não dão ao ouvinte uma refeição completa de Bach ou Beethoven, mas oferecem aperitivos agradáveis. Na verdade, o pecado capital dos "popularizadores" não está em retalhar obras longas, mas em impingir-lhes arranjos que querem passar por arte elevada. Nesse campo, ninguém supera o violinista holandês André Rieu ou o tenor italiano Andrea Bocelli, que convertem melodias de Beethoven e árias de Verdi em hinos da cafonice. Músicos de formação extraordinária como Bell e Yo-Yo Ma nunca são tão vulgares - mas há, sim, um certo elemento kitsch nas suas adaptações do repertório erudito (confira a escala do kitsch). Na definição do ensaísta italiano Umberto Eco, o kitsch é aquela obra que "se vende como arte", mas busca apenas provocar efeitos sentimentais pré-fabricados. O problema nem é tanto que as músicas de Bach em Simply Baroque, de Yo-Yo Ma, soem "muito pouco bachianas", como disse um crítico. O problema é que discos desse tipo são menos honestos do que aquelas coletâneas que já dizem de cara: "Clássicos para relaxar" ou "Clássicos para se emocionar". Neles, o ouvinte pode ser malandramente enganado.


Clássicos diluídos
Andrea Bocelli
O tenor italiano dispersa árias de ópera no meio de discos de música cafona e canções napolitanas. Suas poucas gravações de peças líricas na íntegra - como o Réquiem de Verdi - são um fiasco técnico

Os Três Tenores
Plácido Domingo, Luciano Pavarotti e José Carreras incrementaram a fortuna misturando árias e canções populares interpretadas com vozeirão indigesto. Antecessores de Bocelli, inauguraram a moda dos discos de ópera aos pedaços

Lang Lang
O jovem prodígio chinês já anda empenhado em projetos populistas, como uma parceria com Andrea Bocelli. Sua apresentação em um piano branco foi o momento brega na abertura da Olimpíada de Pequim

Joshua Bell
O violinista americano lança discos temáticos, nos quais adapta cantatas como Carmina Burana e árias como O Mio Babbino Caro (de Gianni Schicchi) para a linguagem do violino. Apesar da execução impecável, essas músicas carregam no açúcar

Yo-Yo Ma
O reputado violoncelista adapta o repertório erudito em versões do tipo "ouça-para-relaxar". Na cerimônia de posse do presidente Barack Obama, fez uma pequena vigarice: dublou sua própria apresentação ao cello

Salve Simonal!

Wilson Simonal de Castro foi um dos maiores ídolos de massa que o Brasil já teve. Nos anos 60, só Roberto Carlos competia com ele em popularidade. Simonal popularizou bordões como "alegria, alegria" (que Caetano Veloso reaproveitou como título de música) e "vou deixar cair". Seus shows eram celebrações, com a participação entusiasmada dos espectadores - ele chegou a "reger" um público de 30.000 pessoas no Maracanãzinho, no Rio. A partir de 1971, porém, Simonal foi condenado a um degredo artístico: não era mais convidado para programas de televisão, não conseguia mais gravar discos nem se apresentar ao vivo. Outros músicos recusavam-se a dividir o palco com ele. Em pleno governo Médici, período de intensa polarização ideológica, o cantor ganhou a fama infausta de colaborador do Dops, a polícia política da ditadura. A história da ascensão fulgurante e da queda espetacular de Simonal é esmiuçada no documentário Ninguém Sabe o Duro que Dei (Brasil, 2007), em cartaz nos cinemas desde sexta-feira. Dirigido por Claudio Manoel (do Casseta & Planeta), Micael Langer e Calvito Leal, o filme também reavalia a importância artística do cantor: para além de seus supostos equívocos políticos, Simonal dominava o palco como poucos já o fizeram no Brasil. Filho de empregada doméstica que abandonou a carreira militar - era cabo do Exército - para se tornar cantor, Simonal começou como intérprete de bossa nova. Adicionou um suingue inédito ao gênero no disco A Nova Dimensão do Samba, de 1964. A consagração popular chegou com a chamada "pilantragem", rótulo inventado por ele e seu mentor Carlos Imperial para designar suas músicas dançantes e malandras - como o grande sucesso Meu Limão, Meu Limoeiro, canção de domínio público que Simonal transformou em sua marca registrada. O cantor ficou rico e assinou contrato de publicidade com a Shell. O filme dá amplas mostras de seu talento - como o maravilhoso dueto com Sarah Vaughan, uma das grandes damas do jazz americano. A derrocada veio com um episódio vergonhoso: em 1971, desconfiado de que fora roubado pelo contador Raphael Viviani, Simonal solicitou ajuda a dois seguranças, um deles agente do Dops, o famigerado órgão de repressão da ditadura, para resolver o caso. Viviani foi raptado, torturado e obrigado a assinar um documento no qual confessava ter desfalcado o cantor. A mulher do contador deu queixa à polícia. Simonal foi chamado a depor e tentou se esquivar das acusações da pior maneira possível: gabou-se de suas pretensas conexões com a ditadura. Entre os depoimentos mais fortes do filme, está o de Viviani. Em sua primeira entrevista sobre o caso, o contador relata como teria sido torturado pelos gorilas do Dops, a mando de Simonal. O episódio é estarrecedor, mas não foi isso que determinou o ostracismo de Simonal. Nunca comprovada, a acusação de que ele seria um informante das forças da repressão pode ter nascido de suas bravatas, mas foi incendiada pela sede de justiçamento moral da esquerda de então. Embora nunca se tenha sabido de um só preso político denunciado por Simonal, a pecha de dedo-duro colou-se ao cantor. Foi muito repisada pelo jornal alternativo O Pasquim. Isolado, deprimido, Simonal acabou se entregando ao alcoolismo. Morreu de problemas no fígado, aos 61 anos, em 2000. Seu nome ainda hoje está envolto em boatos fantasiosos. Claudio Manoel lembra o absurdo que ouviu de um empresário a quem pediu patrocínio para o filme. "Ele me perguntou por que eu queria fazer um documentário sobre o cara que torturou Caetano Veloso", disse Manoel a VEJA. (Caetano, a propósito, nunca foi torturado.) O Brasil de hoje conhece muitos patrulheiros da correção política, mas, assim como não se concebe mais a censura às artes e à imprensa, não existe mais clima para tamanho linchamento político. Foi a atmosfera de radicalização ideológica da ditadura que permitiu o enterro em vida imposto a Simonal. Mas isso só não explica inteiramente o caso. Outros artistas e intelectuais, como Nelson Rodrigues e Gilberto Freyre, apoiaram publicamente a ditadura. Foram atacados por isso, com toda a razão, mas não silenciados como Simonal foi. Negro de origem pobre, ele gostava de ostentar sua riqueza, com roupas extravagantes e carros de luxo - e ainda tinha o desplante de namorar mulheres brancas. Um certo componente de preconceito social e racial contribuiu para a desgraça do cantor. E é por isso que, em retrospecto, ganha um sabor tão amargo a imagem, recuperada pelo filme, em que Simonal finge ouvir de seu anjo da guarda o seguinte alerta: "Simona, ou você vai ser alguém na vida, ou vai morrer crioulo mesmo".

O Beatle esquecido

Em 1965, o baterista Pete Best tentou se matar. Trancou-se em sua casa em Liverpool e abriu o registro de gás. Estava deprimido porque sua ex-banda havia se transformado num fenômeno mundial. Ela era formada por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr (o novo baterista). Chamava-se The Beatles. Best foi salvo da morte por sua mãe e afastou-se por duas décadas da carreira artística. Trabalhou como padeiro e como funcionário público, mas acabou voltando aos palcos. Na semana passada, visitou o Brasil para um show em Porto Alegre ao lado do The Beats, um grupo de argentinos gabolas que vivem de reinterpretar as canções dos Beatles. "Estou casado há quarenta anos, tenho duas filhas e quatro netos. Posso não ser o mais bem-sucedido dos Beatles, mas sou o mais feliz", disse ele a VEJA. Uma coisa é certa: Pete Best desenvolveu um ótimo senso de humor, em geral autodepreciativo. Sua apresentação foi hilária. O ponto alto foi uma minientrevista, conduzida pelos colegas de palco, na qual ele falou sobre o passado. "Brian Epstein? Ele era gayyyyy", afirmou, quando lhe perguntaram sobre o ex-empresário dos Beatles. "John Lennon? Um gênio. Paul McCartney? Gênio. George Harrison? Gênio. Ringo Starr? Baterista." Depois das brincadeiras, Best sentou-se para tocar dois números musicais que fazia ao lado da ex-banda - um deles, My Bonnie, foi uma das primeiras canções gravadas pelos Beatles. Best tocou por dois anos com Lennon, McCartney e Harrison. Começou em 1960, quando o trio se apresentava regularmente no Casbah, uma casa noturna de Liverpool. A mãe de Best era dona do lugar, ele estava sempre por perto e foi chamado a assumir as baquetas. Em junho de 1962, após receberem um banho de água fria de um executivo do selo Decca (segundo o qual ninguém estava interessado em música com guitarras), os Beatles foram incorporados ao elenco de outra gravadora, a EMI. Esse foi, a rigor, o momento decisivo para a banda. E, dois meses depois, Best foi demitido. Há diversas teorias sobre o episódio, desde a que afirma que Harrison e McCartney se sentiam incomodados porque Best era mais bonito até a que atribui a decisão a George Martin, lendário produtor da EMI e de quase todos os discos dos Beatles. "Falei com Martin anos atrás e perguntei sobre isso. Ele disse que apenas sugeriu a contratação de um baterista de estúdio para economizar tempo nas gravações. Creio que somente Paul e Ringo poderiam dar uma resposta definitiva", diz Best. Em 1988, o baterista formou a Pete Best Band. Seus companheiros são músicos veteranos de Liverpool. No ano passado, eles lançaram Haymans Green, seu último disco. Durante o show no Brasil, Best fez propaganda do CD. "Quando o disco sair aqui, por favor, comprem", disse. Mas depois, como quem se lembra de que a vida nem sempre é fácil, arrematou: "Ah, sim. Se o disco não for lançado aqui, importem!".

100 anos de dissonância

De todas as grandes manifestações artísticas do século XX, a música erudita se provou a mais difícil e hostil ao homem comum. Ao abandonarem as regras da harmonia e abraçarem a dissonância e o ruído, seus praticantes mais extremos não afrontaram apenas convenções culturais vigentes havia séculos, mas também a própria biologia: o ouvido humano é um órgão programado para interpretar como agressão e aspereza tudo o que fuja a uma certa zona de conforto. Por isso, mais ainda do que apreciar poemas ou pinturas vanguardistas, ouvir a música de Arnold Schoenberg, Pierre Boulez ou John Adams, para citar compositores nascidos em diferentes décadas e países, é um hábito que só se adquire com algum esforço. O Resto É Ruído (Companhia das Letras; tradução de Claudio Carina e Ivan Weisz Kuck; 646 páginas; 64 reais), do jornalista americano Alex Ross, certamente não converterá as massas à música dodecafônica ou minimalista. Mas, ao desvendar os segredos técnicos das grandes composições e retratar dezenas de artistas contra um pano de fundo de guerras, ditaduras e agitação social, este belo livro tem um mérito indiscutível: transforma a história da música no século XX numa grande aventura. O Resto É Ruído começa em 1906, com a apresentação da ópera Salomé, do compositor alemão Richard Strauss, na cidade austríaca de Graz. Termina com uma visita ao americano John Adams em 2000, enquanto ele trabalha na composição do oratório El Niño. Na visão de Ross, são dois momentos emblemáticos. Strauss, que começou a carreira como autor romântico, decretou o fim desse movimento ao apresentar aquela obra surpreendente, marcada pela cacofonia. Gustav Mahler e Arnold Schoenberg assistiram à récita de Graz. Para Ross, a presença deles é também ela uma tradução simbólica da guinada precipitada por Salomé. Mahler, assim como Strauss, era representante do romantismo e das sinfonias formais - o passado que ali se encerrava, enfim. Schoenberg, por seu turno, viria a ser o novo - o atonalismo, para o qual o empurraram tanto a ópera de Strauss como a morte de seu professor Mahler, em 1911. No outro extremo, situado mais de nove décadas após aquele instante catalisador, está o americano Adams, o maior compositor de sua geração, por ser uma espécie de síntese viva dessa longa trajetória: o artista que combinou o formato sinfônico com a música minimalista. Se existe um aspecto em O Resto É Ruído que pode ser definido como brilhante é a forma pela qual Ross mostra como a arte tantas vezes serviu a propósitos políticos. Richard Strauss, que aderiu ao nazismo porque Adolf Hitler supostamente era admirador de suas obras, virou um joguete. Ao final da guerra, alegou que sua adesão ao Partido Nazista fora um estratagema para proteger sua nora judia. Os russos Sergei Prokofiev e Dmitri Shostakovich viveram momentos de terror sob o jugo do ditador soviético Josef Stalin, que detestava o atonalismo por ser uma suposta expressão da "decadente" arte ocidental. As composições de Prokofiev eram criticadas pelo Partido Comunista, e Shostakovich irritou o ditador com a ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk. Para escapar do exílio ou mesmo da execução, teve de se retratar criando exaltações ao regime soviético - as "sinfonias da guerra", da Quarta à Nona. Curiosa também é a cooptação da obra do americano Aaron Copland pelo governo do presidente Franklin Delano Roosevelt: durante a depressão econômica que abalou os Estados Unidos nos anos 30, o esquerdista e crítico severo do estilo de vida americano Copland se tornou o símbolo dos valores nacionais em razão de obras alvissareiras como Appalachian Spring. Os trabalhos desses autores e sua adesão - ainda que forçada - a regimes e governos diversos ajudaram, no pós-guerra, a manter vivo o espírito da vanguarda. Numa inversão curiosa, foi a música convencional que se tornou moralmente duvidosa. Theodor Adorno, uma das autoridades intelectuais do século XX, pregava que uma composição que preservasse a tonalidade traía uma mente fascista. Os artistas da geração que despontou nos anos 50 e 60, entre os quais se destacam John Cage, Pierre Boulez e Karlheinz Stockhausen, fariam o que Ross definiu como "arte da destruição". São obras iconoclastas - há desde um quarteto para helicópteros até uma peça em que o pianista não toca nada e espera pela reação da plateia -, mas também, com frequência, de concepção um tanto árida, que exige muito boa vontade por parte do ouvinte. Outro acerto de Ross é demonstrar a influência, muitas vezes insuspeita, da música erudita contemporânea sobre a composição popular do século XX. O mesmo atonalismo que afugentou a plateia das salas de concerto encontrou guarida no cinema. Stanley Kubrick fez uso das composições do húngaro György Ligeti em 2001 - Uma Odisseia no Espaço e De Olhos Bem Fechados, enquanto os acordes sinistros do polonês Krzysztof Penderecki assinalam os momentos mais aterrorizantes de O Exorcista. O jazz se apoiou tanto nas melodias formais quanto nas dissonâncias da música contemporânea. A abertura de A Love Supreme, obra-prima do saxofonista John Coltrane, foi influenciada pelas sinfonias do finlandês Jean Sibelius. O rock bebeu da fonte da vanguarda e do minimalismo. Ross conta que Ligeti ficou surpreso ao escutar uma nova composição de Stockhausen - na verdade, estava ouvindo A Day in the Life, dos Beatles, que utilizaram a técnica de colagens do autor alemão. A cantora Björk e o quinteto inglês Radiohead abraçaram as experimentações de Stockhausen, de Arvo Pärt e de Penderecki. Em O Resto É Ruído, Ross reconstitui cenas fundamentais da música do século XX com tanta riqueza de detalhes que se tem a impressão de estar presente no momento em que elas aconteceram. Ler sobre a estreia de Salomé ou a Conferência Científica e Cultural para a Paz no Mundo, que ocorreu nos Estados Unidos em 1949 (na qual uma multidão cercou o compositor Shostakovich e exigiu sua deserção), não é apenas saber o que aconteceu naqueles locais. É também perceber a excitação que marcou tais momentos. E, quando descreve uma obra musical, Ross evita abusar de termos técnicos. Mostra o detalhe e a função de cada instrumento, e passa ao leitor a impressão de estar ouvindo a obra in loco. O Resto É Ruído é básico para quem deseja entender o que instigou os artistas do século passado a criar composições tão estranhas para o ouvido humano - e mais ainda para compreender como a música, qualquer que seja ela, é algo vivo, que responde não só às aspirações de seus autores, mas ao tempo e ao lugar em que eles existem.


Para entender a música do século XX
O MINIMALISTA - JOHN ADAMS (1947)
O músico: maior compositor americano vivo, combina a linguagem minimalista à grandiosidade das orquestrações clássicas
O homem e seu tempo: usa com frequência os acontecimentos políticos como tema de suas composições. Nixon in China trata da primeira visita de um presidente americano à China comunista; Death of a Klinghoffer fala da morte de um judeu por um palestino; e On the Transmigration of Souls é um réquiem para as vítimas do 11 de Setembro

O ÚLTIMO ROMÂNTICO - RICHARD STRAUSS (1864-1949)
O músico: na ópera Salomé, fez uso de ruídos e dissonâncias, antecipando o atonalismo e desferindo o golpe de misericórdia no movimento romântico
O homem e seu tempo: ilustrou a atitude ambígua de alguns artistas em relação ao nazismo. Deixou-se cooptar - mas, ao fim da II Guerra, foi perdoado, sob a alegação de que só aderira ao regime para proteger a nora judia

O POPULISTA - AARON COPLAND (1900-1990)
O músico: um dos pioneiros no casamento entre o erudito e o popular, foi o grande compositor americano de massa e um dos primeiros a fazer sucesso nas rádios
O homem e seu tempo: pela coloração e pelo espírito inconfundivelmente americanos de suas composições, tornou-se símbolo do New Deal, a série de medidas que o presidente Franklin Delano Roosevelt tomou para aplacar a crise econômica causada pela quebra da Bolsa de Nova York em 1929

O ESCRAVO DO PARTIDO - DMITRI SHOSTAKOVICH (1906-1975)
O músico: sobrepôs linguagens musicais distintas - e não raro conflitantes -, como na ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk
O homem e seu tempo: sua vida ilustra o dilema a que foram submetidos os artistas soviéticos: curvar-se ao partido (e ao seu ideário estético) ou ser lançado no esquecimento - quando não na cova. Shostakovich oscilou entre os dois extremos, ora tendo sua obra banida, ora ganhando condecorações do Soviete Supremo

O RITMISTA - IGOR STRAVINSKY (1882-1971)
O músico: revolucionou a música erudita ao dar nela papel preponderante ao ritmo. Não por acaso, sua composição mais célebre, A Sagração da Primavera, foi transformada em um balé igualmente transgressivo pelo bailarino, também russo, Vaslav Nijinsky
O homem e seu tempo: foi o artista modernista por excelência: circulou entre inúmeras das personalidades culturais de vanguarda do seu tempo, como os poetas W.H. Auden e Dylan Thomas, o escritor Aldous Huxley, o pintor Pablo Picasso, o coreógrafo George Balanchine e a estilista Coco Chanel, de quem se acredita ter sido amante

O ATONALISTA - ARNOLD SCHOENBERG (1874-1951)
O músico: decretou a "morte" da música tonal e criou o dodecafonismo, que abandona o sistema de composição vigente há séculos na música ocidental
O homem e seu tempo: criado como católico, ele abraçou, nos anos 20, sua raízes judaicas. Esteve entre os artistas e pensadores que mais cedo entenderam o que a ascensão do nazismo implicaria. Em 1933, mudou-se para os Estados Unidos

O HERÓI NACIONAL - JEAN SIBELIUS (1865-1957)
O músico: foi um tradicionalista, tido como uma versão moderna de Beethoven. Imprimia voz própria às fórmulas sinfônicas
O homem e seu tempo: é considerado o grande compositor nacional da Finlândia e exemplifica a sempre forte corrente nacionalista da música erudita - inspirou-se em suas raízes e as preservou, tornando-se um herói simbólico da luta do país para se libertar do domínio russo

O VANGUARDISTA - JOHN CAGE (1912-1992)
O músico: suas obras exploravam o acaso (compunha jogando dados, por exemplo) e o silêncio (como em 4¿33¿¿, em que um músico sobe ao palco e não toca nada)
O homem e seu tempo: no pós-guerra, levou adiante a bandeira de experimentação dos vanguardistas do começo do século XX. Procurou traduzir o clima de tensão do período da Guerra Fria. "Vou em direção à violência, e não à ternura, ao inferno, e não ao paraíso", dizia