terça-feira, 27 de novembro de 2007

Como fugir do marasmo

Recentemente, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) anunciou sua temporada de concertos para 2008. O maestro carioca John Neschling, seu diretor artístico, qualificou a programação de "ambiciosa". No entanto, dos dezenove regentes convidados, só três são do primeiro escalão: o francês Michel Plasson, o polonês Antoni Wit e o alemão Helmuth Rilling. Também são poucos entre os visitantes os instrumentistas notáveis: destacam-se os violinistas Sarah Chang e Boris Belkin. No repertório, buscou-se uma equação já consagrada, que privilegia os compositores canônicos com pequenas incursões pelo contemporâneo e pela música brasileira. Assim, pode-se prever, para o público, uma temporada agradável, mas de forma nenhuma surpreendente. Quanto à própria orquestra, não há nada na programação que permita imaginar um passo adiante em sua evolução, e muito menos um salto de qualidade. Ela deve permanecer estacionada no patamar (respeitável) que alcançou. O que leva a uma indagação legítima: depois de dez anos sob a batuta de Neschling, teria a Osesp chegado a um ponto de estagnação?
John Neschling assumiu uma Osesp decadente em 1997 e a transformou no melhor grupo sinfônico que o país já teve. Internamente, ele promoveu uma revolução. Afastou instrumentistas – e soube atrair novos talentos. Também foi hábil no campo político. Conseguiu que o governo paulista gastasse 44 milhões de reais na construção da Sala São Paulo, uma excelente sala de espetáculos. O mesmo governo destina à Osesp um orçamento anual polpudo, atualmente da ordem de 43 milhões de reais. Neschling recebe um salário de 100 000 reais por mês. Mas os músicos, sob sua administração, também viram subir seus rendimentos. O salário médio na orquestra é hoje de 8 000 reais.
Neschling rege com segurança partituras de Beethoven ou Mahler, que compõem o repertório básico de qualquer orquestra. Mas não é um maestro brilhante. Suas limitações ficam evidentes na execução de peças de grande complexidade rítmica ou naquelas de arranjo intricado, que requerem clareza para que os detalhes não se percam. A explicação mais freqüente para essa deficiência é que o maestro não tem um gestual preciso. Faz movimentos circulares com a batuta – seus detratores o apelidaram de "o regente que rege redondo" – e não dá a entrada para os músicos no momento apropriado. Os defensores de Neschling o comparam a Wilhelm Furtwängler, lendário chefão da Filarmônica de Berlim, que também não tinha um gestual bonito. Só que ele deu à orquestra um padrão sonoro que nem seu sucessor, o egocêntrico Herbert von Karajan, ousou alterar. A Osesp não possui um padrão tão claro – ela apenas toca forte, e transmite vigor. Mas, quando é preciso modular esse vigor, os problemas sobressaem novamente. Em peças com filigranas, a Osesp soa empastelada, enquanto os músicos parecem disputar um troféu de força. Em março deste ano, a orquestra fez turnê pela Europa. Um dos atrativos do repertório era La Mer (O Mar), de Debussy. Neschling consultou um solista de renome sobre sua leitura da obra. "Soou como um bloco de concreto jogado no mar", foi a resposta.
Além de talento artístico, o diretor de uma grande orquestra precisa ter habilidade nos bastidores. Neschling é um homem hábil e corajoso, mas dilapidou parte de seu patrimônio cultivando um estilo imperial. Nas coxias, já não conta com a simpatia incondicional dos músicos da orquestra. Que fique bem entendido: regentes não nasceram para ser simpáticos. Daniel Barenboim passa carraspanas ruidosas e Lorin Maazel surge nos ensaios da Filarmônica de Nova York com uma carranca de dar medo. Mas os músicos extraem uma recompensa estética do convívio com essas figuras difíceis. Na Osesp, há frustração. Nesch-ling grita demais e não mostra o tino de outrora para detectar e corrigir deficiências da orquestra. Um maestro europeu que comandou a Osesp em 2006 reclamou da afinação do naipe de sopros. Outro sentenciou: "Nunca vi músicos com tanto medo de se soltar".
Neschling conta com o apoio do conselho da Osesp, instituição formada por notáveis como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o economista Persio Arida. Mas acumula polêmicas e trapalhadas políticas. Foi desastrosa sua condução da crise que, em 2006, maculou o Concurso Internacional de Piano Villa-Lobos (houve sinais de que a seleção dos concorrentes foi manipulada). Duas semanas atrás, ele teve de pedir desculpas formais ao governador de São Paulo, José Serra, a quem chamou de "mimado" e "autoritário" num momento de destempero (o discurso foi parar no site YouTube).
Segundo músicos e ex-colaboradores, Neschling pro-pala a tese de que a orquestra correria risco caso ele saísse. Pensar assim é desconsiderar o fato de que, graças ao seu próprio trabalho, a Osesp é hoje uma instituição sólida. É também cultivar fantasias do tipo "depois de mim, o dilúvio". Faz parte da vida de grandes orquestras trocar de comando (veja quadro). Conduzir uma transição desse tipo acrescentaria uma estrela ao currículo de Neschling. O mundo da regência vive um bom momento. Há nomes que despontam, como o do finlandês Osmo Vanska, que opera milagres na limitada Orquestra Sinfônica de Minnesota, nos Estados Unidos, ou o do americano David Zinman, autor de uma revolucionária leitura das nove sinfonias de Beethoven. Talvez pudessem trazer um sopro de novidade à Osesp. E por salário equivalente ao de Neschling.



FOI BOM ENQUANTO DUROU
Maestros que souberam sair na hora certa
Kurt Masur
Orquestra: Gewandhaus, de Leipzig (1970-1996)
Principais feitos: imprimiu sua personalidade na orquestra, que teve o compositor Mendelssohn entre seus diretores artísticos. Suas gravações das nove sinfonias de Beethoven com a Gewandhaus são históricas
O que aconteceu com a orquestra: depois de Masur, trabalhou com os maestros Herbert Blomstedt e Riccardo Chailly e ainda é uma das grandes orquestras da Europa

Claudio Abbado
Orquestra: Filarmônica de Berlim (1989-2002)
Principais feitos: provou ser um substituto à altura de Herbert von Karajan, uma lenda da regência. Suavizou a sonoridade da orquestra e fez gravações impecáveis das sinfonias de Beethoven e Mahler
O que aconteceu com a orquestra: contratou o inglês Simon Rattle para a vaga de Claudio Abbado. Rattle tem mais carisma e potencial de vendas que seu antecessor

Esa Pekka-Salonen
Orquestra: Filarmônica de Los Angeles (1992-2009)
Principais feitos: trouxe um público jovem para os concertos. O carisma dele foi fundamental para que a diretoria da filarmônica investisse 274 milhões de dólares na construção da Walt Disney Concert Hall
O que aconteceu com a orquestra: escolheu para a vaga de Salonen o venezuelano Gustavo Dudamel, um jovem e promissor talento da regência

3 comentários:

Pedrita disse...

e as outras orquestras brasileiras? convidaram quantos regentes renomados estrangeiros para 2008? quantos bons cantores internacionais? e a programação deles para 2008 é ousada? qual o repertório? bejios, pedrita

Sergio Martins disse...

Pedrita, eu acho que as orquestras brasileiras ainda têm de mostrar uma programação ousada e convidar regentes e solistas de respeito. Mas creio que são poucas as que dispõem de uma verba como a da Osesp, certo? Façamos o seguinte, compare a programação da Osesp com a da Sinfônica de Baltimore, que tem um diretor-artístico mais interessante (Marin Alsop) e a mesma dotação - com a diferença de que esse dinheiro sai dos patrocinadores e não dos cofres públicos.

Shinoda disse...
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