segunda-feira, 28 de abril de 2008

A ópera do roqueiro

Às 14 horas da terça-feira passada, o músico inglês Roger Waters chegou ao Teatro Amazonas, em Manaus, com um bom repertório de vivências "típicas" da região. Ele havia pescado tucunarés. Havia feito passeios de barco para nadar com botos e avistar macacos. E também tinha apreciado um pôr-do-sol no Rio Negro, com um copo de gim-tônica nas mãos. Faltava descobrir o peculiar senso de tempo dos amazonenses, assim descrito pelo romancista Milton Hatoum, nativo do estado: "O fluxo do tempo é tão lento que a vida pode se arrastar sem pressa". Ansioso para conferir detalhes da montagem de sua ópera Ça Ira, Waters não encontrou ninguém no teatro. Só depois de vinte minutos, pontuados por bufos e imprecações ("Bastards!"), ele pôde se enfurnar numa sala ao lado do palco, de onde testou uma série de efeitos sonoros. Bem mais ao seu gosto foi a pontualidade com que, naquela noite, aconteceu a estréia do espetáculo. Às 20 horas, o músico subiu ao palco e agradeceu às autoridades do estado, em português, pela iniciativa de produzir Ça Ira. Estava aberto oficialmente o 12º Festival Amazonas de Ópera. A esta altura, o leitor talvez esteja perguntando: Roger Waters? Sim, é ele mesmo, o baixista do Pink Floyd, uma das bandas de rock mais cultuadas de todos os tempos. Ça Ira (algo como "agora vai") é uma parceria de Waters com os compositores franceses Étienne e Nadine Roda-Gil. Em 1988, eles apresentaram ao roqueiro um libreto que mostrava a história da Revolução Francesa contada por uma trupe de circo. De acordo com Waters, o presidente francês François Mitterrand teria adorado a idéia e queria apresentá-la na Ópera da Bastilha no ano seguinte, durante as comemorações do bicentenário da revolução. Uma série de problemas impediu que isso acontecesse, mas Waters não desistiu. Sete anos depois, retomou a idéia. Como não sabia escrever para orquestra, lançou mão de um programa de computador que lhe permitia simular o toque de cada instrumento. Depois, chamou o maestro inglês Rick Wentworth para dar forma final a suas idéias musicais. "Rick dizia: ‘O solo de oboé é lindíssimo, mas o instrumento não pode soar tão alto, caso contrário o oboísta estaria com os lábios sangrando depois de tocá-lo’.", conta Waters. O Festival Amazonas de Ópera já se consagrou como um dos principais eventos do mundo erudito brasileiro. Traz espetáculos de excelente nível, comandados pelo maestro Luiz Fernando Malheiro e pela Amazonas Filarmônica. Entre as óperas já apresentadas em seu palco, e antes inéditas no Brasil, contam-se, por exemplo, a tetralogia O Anel dos Nibelungos, do alemão Richard Wagner, e Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, do russo Shostakovich. Em novembro passado uma produtora de São Paulo procurou o diretor Caetano Vilela. Disse que tinha adquirido os direitos de Ça Ira e gostaria que ele ajudasse a montar o espetáculo no Brasil. Vilela, que há dez anos trabalha no festival de Manaus, resolveu aproveitar a oportunidade para dar um toque "pop" ao evento. O objetivo foi cumprido. Fãs do ex-grupo de Waters compareceram em peso. A paranaense Elzira Miotto, de 61 anos, gastou 1 600 reais e viajou por nove horas para assistir ao espetáculo do seu ídolo. "Pink Floyd foi a minha redenção. Eu tinha um casamento infeliz e fui salva pelos temas de The Wall", diz ela, que assistiu às montagens de Ça Ira em Roma e na cidade polonesa de Poznan, e ainda pretende vê-la em Amsterdã. Mas, como observou o colunista Rogério Pina no jornal A Crítica, de Manaus, a audiência era bem mais variada – "um eclético mix que ia de senhorinhas tradicionais a roqueiros curiosos pelo novo trabalho do pink floyd Roger Waters e muitos gays, público chegado a um espetáculo do tipo". Quando informaram a Luiz Fernando Malheiro que deveria reger uma ópera de Roger Waters, ele não entendeu quem era o compositor. A menção à antiga banda de rock do compositor não ajudou muito. "Pink Floyd? Acho que meu irmão tem discos deles", disse a um dos organizadores do evento. Ao descrever Ça Ira, contudo, Malheiros foi diplomático: afirmou que se trata de "uma obra fácil de conduzir". Alguns integrantes da Amazonas Filarmônica foram bem menos condescendentes. De fato, é uma licença descrever Ça Ira como ópera. O espetáculo está mais para um musical da Broadway – gênero que Waters afirma detestar. Não por acaso, os destaques do espetáculo são artistas que tinham certa experiência em musicais. É o caso do barítono brasiliense Leonardo Neiva, que trabalhou numa montagem de Les Misérables no Brasil e no México, e da soprano belenense Carmen Monarcha, parceira do holandês André Rieu (uma espécie de Kenny G do violino). Faltam à peça de Waters uma melodia mais bem estruturada e árias marcantes (a exceção é The Letter, defendida com galhardia por Leonardo Pace). Algumas seqüências são esdrúxulas – a boa cantora Gabriella Pace, por exemplo, passa dois atos inteiros a dar gargalhadas na pele de Maria Antonieta. Só é redimida na cena final, quando pode mostrar sua bela voz. Os amantes do Pink Floyd podem até gostar de Ça Ira, que terá novas récitas na terça e na quinta-feira. Mas os fãs de ópera certamente jamais se interessarão por Pink Floyd se forem submetidos à obra de Roger Waters.

"Os críticos até foram bonzinhos"
Como começou seu namoro com a música erudita? Sempre gostei de música erudita. Puccini é um dos meus autores prediletos, adoro a maneira como ele expõe o drama de seus personagens. Porém, só comecei a entrar definitivamente nesse mundo em meados da década passada, quando passei a freqüentar as salas de ópera em Londres. Um dos meus amigos era patrocinador de espetáculos e me fazia sentar bem no centro da orquestra. Dali pude observar os músicos e os detalhes de cada composição.
Os críticos de música erudita geralmente não aceitam as incursões de artistas do rock e do pop nesse gênero musical. Como o senhor reage a essas críticas? Os críticos de ópera até que foram bonzinhos. Uns disseram que as melodias eram muito óbvias. Outros criticaram o fato de eu compor uma ópera do período romântico, quando deveria criar algo mais contemporâneo. Mas o que eu posso fazer? Sinceramente, não me emociono com a música de um compositor como Harrison Birtwistle, que cria obras com precisão matemática. Jamais faria algo desse tipo. Agora, todo mundo tem o direito de escrever o que quiser. Só não me peçam para acatar as sugestões.
O senhor espera que os fãs do Pink Floyd comecem a ouvir ópera por causa de Ça Ira? Sei lá. Talvez dez ou doze pessoas comecem a pesquisar música erudita depois de experimentar a minha obra.
Já foi dito que o tema principal de O Fantasma da Ópera, de Andrew Lloyd Webber, foi roubado de Echoes, canção do Pink Floyd. O senhor vê alguma semelhança entre as canções? Com certeza. Aliás, fui processado por causa disso. Odeio a música de Andrew Lloyd Webber, nunca tive um disco dele em casa. Mas certa vez aluguei uma casa de veraneio e o antigo locatário havia deixado a trilha de O Fantasma da Ópera no local. Quando escutei, tomei um susto porque o tema principal é muito parecido – para não dizer outra coisa – com Echoes. Um dia, fiz a besteira de declarar isso a um jornal inglês e fui processado por Webber! Ele alegou ter-se "inspirado" num compositor erudito já falecido e não no Pink Floyd. Eu fiz uma retratação e nunca mais toquei nesse assunto. Até você perguntar...
O senhor vive em Manhattan. Tem algum candidato para as eleições americanas? Sou um grande fã de Barack Obama. É um sujeito especial. Você consegue encará-lo e acreditar em cada palavra que ele diz. Não acredito em nada do que a Hillary Clinton diz, acho que ela é uma maluca e faminta de poder. Não existem diferenças entre ela e o candidato republicano John McCain, ambos querem bombardear o Irã. Barack Obama, para mim, é mais que uma falsa promessa.
A história do Pink Floyd renderia um bom libreto de ópera? Sinceramente, essa história não me interessa. Se alguém quiser contar, pode seguir em frente.

5 comentários:

Pedrita disse...

eu aprendi muito a desacelerar em manaus e é uma grata sensação, mas um tempinho depois em são paulo já foi suficiente pra stressar rapidinho. beijos, pedrita

Marcelo Andreguetti disse...

olá
você é o Sérgio Martins que escreve pra Veja?

Sou estudante de jornalismo na UFSC e gostaria de entrar em contato (via email) contigo. Você teria disponibilidade?

Abraço!

Sergio Martins disse...

Me manda um email, Marcelo
smartins@abril.com.br

Cyl disse...

Olá Sergio!

Gostaria, se não for pedir muito, que você desse sua opinião sobre essa banda:
http://palcomp3.cifraclub.terra.com.br/texmen/

Um abraço de quem acompanha seu trabalho!!

bernard n. shull disse...

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