quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Bemvindo... e Novos Baianos

Dei início a este blog para postar textos que não foram publicadas, entrevistas que corriam o perigo de cair no esquecimento e artigos que escrevi para outros lugares. Aqui não tem política, não tem xingamento ou insulto de qualquer espécie. Tem apenas idéias sobre música e artistas que têm a minha simpatia. Para começar, deixo um texto que fiz para o Sesc, que homenageou o disco Acabou Chorare, dos Novos Baianos.


Para mim, existe um gostinho especial escrever sobre Acabou Chorare (1972) porque foi um dos discos que iniciaram a minha educação musical. No início dos anos 70, meu pai, seo Osvaldo, garantia o sustento da família como vendedor de aparelhos de som e LPs numa grande loja de departamentos em Santos. Nas horas de folga ele gravava os sucessos da época numa fita cassete, que eu ouvia com a ansiedade de um junkie. Uma das canções do repertório pinçado pelo meu pai foi Preta Pretinha, de autoria de uma turma de cabeludos chamada Novos Baianos. Foi uma homenagem para a minha mãe, dona Neusa, que é morena cor de jambo. As fitas que meu pai gravava, aliás, eram uma mistureba só: Paul McCartney ao lado de Clara Nunes, Jimi Hendrix disputando espaço com Nelson Cavaquinho, e por aí vai. Mais tarde, ao comprar meu LP de Acabou Chorare (posteriormente o CD, futuramente o audio CD ou qualquer outra invenção dedicada a aprimorar o som desta obra-prima) é que descobri que meu pai era adepto do estilo novo baiano e nunca soube. Do mesmo modo doido que ele compilava suas canções prediletas, este grupo de malucos-beleza endoidou a MPB com rock e psicodelismo.
O núcleo dos Novos Baianos era formado pelo cantor e violonista Moraes Moreira e por Luiz Galvão, poeta nascido em Juazeiro – portanto, conterrâneo de João Gilberto. A eles se juntaram Paulinho Boca de Cantor, que ganhava dinheiro como crooner de orquestra, e os irmãos Pepeu e Jorge Gomes, membros de um grupo chamado Leif’s. Eles acompanharam Caetano Veloso e Gilberto Gil no show Barra 69, que marcou a despedida da dupla do Brasil. A turma foi reforçada pela carioca Bernadete Dinorah (depois Baby Consuelo e hoje Baby do Brasil), pelo baixista Dadi Carvalho ("recrutado" quando o grupo topou com o rapaz na praia) e pelos percussionistas Baixinho, Charles Negrita e Bola. Os Novos Baianos até curtiam música brasileira, mas privilegiavam o rock. O show Desembarque dos Bichos Depois do Dilúvio Universal e seu álbum de estréia Ferro na Boneca eram, como se dizia na época "um som pauleira". Em 1971, eles estavam instalados num apartamento de cobertura no bairro de Botafogo, Rio, quando receberam João Gilberto. Há muitas histórias e teorias sobre o encontro. Minha predileta foi contada por Marília, ex-mulher de Paulinho Boca de Cantor. Segundo ela, João levou os baianos para um dos quartos e desfilou seu repertório de sambas ao violão. Pediu para que os meninos cantassem com ele, mas os roqueiros permaneceram calados. João encarou para a turma de cabeludos e disse: "Vocês têm olhar mais para a sua terra." Foi daí que teria nascido a brasilidade que habita as nove faixas de Acabou Chorare.
O disco foi gestado num sítio em Jacarepaguá, para onde os Novos Baianos se mudaram de mala, cuia, mulheres, filhos e instrumentos musicais em 1972. Ali estão as principais qualidades do grupo, aprimoradas depois dos encontros com João Gilberto. O resgate do samba em Brasil Pandeiro, de Assis Valente (1911-1958), que Carmen Miranda teve o topete de recusar. A brejeirice de Baby Consuelo em Tinindo Trincando e A Menina Dança (não conheço um sujeito daquela época que não tenha sonhado com um amasso de Baby, com cabelo embaixo da axila e tudo...). A voz bem colocada de Paulinho Boca de Cantor na sacana Swing do Campo Grande e Mistério do Planeta. A parceria de Moreira e Galvão, então, lembrava as tabelinhas entre Zico e Doval no Flamengo dos anos 70. Dali saíram os dois golaços de Acabou Chorare: a faixa-título, joão-gilbertiana até na inspiração (teria nascido de uma frase de Bebel Gilberto, filha do pai da bossa nova) e Preta Pretinha – que de tão boa aparece no disco duas vezes. E quando o grupo se embrenha demais pelos caminhos da MPB, a guitarra de Pepeu Gomes lembra que os Novos Baianos também são rock. Ele não apenas bota fogo em Tinindo Trincando, Mistério do Planeta e A Menina Dança, como arrebenta na instrumental Um Bilhete para Didi, um choro que se transforma num rock de arrepiar. Besta é Tu, então, é um manifesto anti-caretice que só poderia ter nascido entre a comunidade dos Novos Baianos.
Hoje em dia, quando ouço qualquer grupo brasileiro anunciar a "original" mistura de rock e ritmos regionais, penso na minha expressão de encanto ao ouvir Acabou Chorare pela primeira vez. E me pergunto: será que os trabalhos ditos "originais" e "revolucionários" casam harmonia, melodia, letra e potência sonora com a mesma habilidade daqueles cabeludos? E será que daqui a alguns anos o disco "original" e "revolucionário" irá soar tão gostoso como soa hoje Acabou Chorare? Posto isso, sinto orgulho em dizer que a tradição continua. Quando meu filho Noel, de seis anos de idade, quer cantar para se animar, as opções quase sempre são Brasil Pandeiro, A Menina Dança e outras pérolas deste LP.

4 comentários:

Ruy disse...

Salve, Sérgio! Passei agora por seu perfil no Orkut para perguntar se aquele negócio de abrir um blogue tinha dado certo. Nem precisei perguntar; já vi que sim. :) Grande abraço.

(Ruy Goiaba)

Claudy disse...

Hey, babe - BACANA:) Agora que está oficialmente aberto, quero ler MUITO:))) beijos!!!

Pedro disse...

Valeu, SErjão!! Serei freguês do boteco agora!!! Como diriam amigos nossos, tá bacana o negócio!
Abração,
Pedro

Ricardo disse...

fala sérgio. fodaço o blog.
acho que era costume da som livre em 1972 repetir sempre uma música do disco no final... "em busca do ouro", do ruy maurity, também tem repeteco de uma música no fim do disco. abç