sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Beth, a Feia

No último domingo, dia 18 de fevereiro, a cantora Beth Carvalho ganhou uma matéria de uma página no jornal Estado de S. Paulo. Entre as diatribes políticas de sempre - ela é brizolista e sonha com um dia em que Chávez se torne presidente do Brasil -, Beth faz uso do surrado discurso de que o samba não é valorizado no Brasil. Sinceramente, está na hora da cantora mudar a ladainha. E não estou falando do discurso político, porque hoje em dia qualquer acusação contra o Chávez e os amigos "bolivarianos" é logo tachada de patrulha ideológica. Estou falando dessa visão tapada sobre o samba, mesmo. Poucos gêneros são tão respeitados e têm rendido tantos divididendos como o samba. O bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, passa por um processo de renascimento - que inclui a melhora da segurança no local - graças ao samba. Hoje em dia, pode-se escolher entre apresentações das cantoras Teresa Cristina e Ana Costa, principais intérpretes de sua geração, ao Casuarina - grupo de jovens da zona sul que se encantaram com as composições das décadas de 50 e 60. São Paulo também é um reduto forte do gênero. Tem desde casas, como Ó do Borogodó e Traço de União, a sambistas de qualidade como Fabiana Cozza e Juliana Amaral. Isso sem falar nos milhares grupos de pagodeiros da Vila Olímpia, num fenômeno conhecido como "samba universitário."
Em 2006, o mercado de discos apresentou seu pior desempenho desde o a derrocada do Plano Real - quando É o Tchan e Só pra Contrariar passaram da barreira dos dois milhões de cópias vendidas. Qual o gênero que não deixou de vender? Os discos de Zeca Pagodinho, onde canta música de gafieira, e o de Marisa Monte, que contém um repertório de sambas, ficaram entre os mais vendidos do ano. Marisa, aliás, deu uma enorme lição de amor à música ao gravar o disco da Velha Guarda da Portela, o primeiro álbum solo de Argemiro Patrocínio e lançar o CD de Jair do Cavaquinho através do seu selo, o Phonomotor.
Mas Dona Beth não está satisfeita e pede mais ajuda aos sambistas. Por sambistas, entende-se ela mesma e seus apadrinhados - sim, Beth descobre sambistas com potencial e faz questão de alardear isso a vida inteira. O mesmo Estadão que publicou os queixumes de Beth Carvalho revelou, numa reportagem brilhante de Jotabê Medeiros, que Beth Carvalho conseguiu um financiamento de 1,3 milhões de reais (isso mesmo, 1,3 milhões de reais) para gravar um DVD de samba na Bahia. Um disco do Jorge Aragão - de preferência o que tem Coisinha do Pai - para quem acertar quem irá pagar essa conta.
O samba tem algumas das melhores qualidades dos brasileiros. Tem harmonias ricas, é alegre e possui letras que considero iluminadas - como não se emocionar com A Chuva Cai, de Argemiro Patrocínio, gravada pela própria Beth? Em compensação, traz alguns dos nossos piores defeitos. Como essa eterna chorumela sobre o não-reconhecimento, o assistencialismo e a malandragem tosca. Os problemas não se resumem apenas à tungada de Beth no bolso do contribuinte. No ano passado, o compositor Noca da Portela jogou sua reputação na lama ao assumir o cargo de Secretário da Cultura do governo do estado do Rio de Janeiro. Um de seus primeiros atos foi mandar para a rua o compositor erudito Edino Krieger, presidente do Museu da Imagem do Som, para colocar as netas dos sambistas Donga e Cartola. Elas também eram afilhadas de Noca da Portela, mas isso deve ser apenas coincidência. Qual foi a alegação de Noca da Portela? "Precisamos dar mais espaço para o samba..." Dona Beth, seu Noca: que tal deixar o samba conquistar seu espaço sozinho, sem pataquadas como as que os senhores protagonizaram?

2 comentários:

Liv disse...

Brilhante.

Rafael disse...

Ótimo, Sérgio. Só lamento que os próprios - Noca e Beth - não tenham lido.